Cartão de crédito de loja cobra juros de 1.000%

Marcelo Moreira

23 de janeiro de 2012 | 07h12

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Cartões de crédito emitidos por redes varejistas – que costumam oferecer descontos, bônus para serem convertidos em compras, brindes, além de outras vantagens – podem ter juros anuais de mais de 1.000% ao ano caso o consumidor não pague o valor total da fatura. Um cartão de operadora (Visa ou Mastercard, por exemplo) cobra juros de 350% ao ano. Quem tem o cartão Carrefour está sujeito a uma taxa de 1.044% (leia texto nesta página).

Há dois tipos de cartões para essa modalidade. O private label é ligado a uma loja ou supermercado e só pode ser usado na empresa emissora. Já os híbridos, também são ligados a uma loja, podem ser usados em qualquer estabelecimento. No entanto, na prática, ambos têm juros maiores.

Na definição da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), cartões ligados às cadeias de varejo são uma forma de atender o consumidor ainda não bancarizado. “Os varejistas conseguem, assim, dar um cartão para que esses novos consumidores consigam comprar a prazo”, explica Eduardo Abreu, diretor da Abecs.

“Como são feitos em massa, a empresa não avalia o crédito do cliente individualmente, como um banco faz. Para amenizar os riscos de inadimplência, colocam a taxa de juros na lua”, diz o professor de finanças pessoais da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Francisco dos Santos. “Se você não é um cliente que paga sempre a fatura em dia, cartão de loja é furada”, acrescenta o professor.

Evite o susto

Rosana Alencar Gardel, professora de ensino infantil, costuma usar um cartão de loja virtual com frequência, mas só atrasou a fatura uma vez. “Não sabia exatamente quais eram os juros. Mas quando atrasei alguns dias uma fatura de R$ 80, paguei R$ 20 a mais”, conta. A multa representa 25% do valor original. Caso fosse essa a taxa cobrada ao mês, os encargos ao ano chegariam a incríveis 1.355%.

Rosana mantém o cartão, porém afirma que nunca mais atrasou um pagamento sequer. Para ela, as vantagens compensam. “Eu ganho pontos quando faço compras e posso trocá-los por produtos na loja virtual”, diz.

Cibele Marques, também professora de ensino primário, é fã de cartões private label e dos híbridos. Ela tem mais de dez plásticos na carteira, mas sabe aproveitar suas vantagens e organiza todos os gastos em uma agenda para não se perder. “Tendo vários, posso administrar as datas de pagamento, tenho descontos nas compras e posso até pegar filas preferenciais nas lojas. O que eu não faço é atrasar os pagamentos.”

Se Cibele deixasse de pagar os 10 cartões de crédito que tem, as consequências poderiam ser catastróficas para o bolso da consumidora. “As taxas estão para lá de abusivas. Não é possível uma economia, na qual a inflação está a 6% ao ano, empresas cobrarem uma taxa de 1.000%”, avalia Adriano Gomes, professor de finanças da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

A situação se complica mais quando o cliente entra no rotativo. “É como se uma pessoa que não tem dinheiro suficiente para comprar uma geladeira comprasse logo 11 delas”, diz Gomes. De acordo com a Abecs, cerca de 25% dos consumidores brasileiros pagam suas contas no rotativo, sujeitando-se a juros altíssimos. “Outro problema frequente é que as empresas não deixam claro que taxas são essas antes de o cliente assinar o contrato”, aponta Santos, da Fipe.

A própria Abecs não aconselha o uso do crédito rotativo. “Só em casos de emergências”, ressalta Abreu. “Não é interessante para o banco que um cliente fique endividado. Se usar o rotativo, saiba que, no próximo mês, além do valor da fatura terá de pagar os juros da operação”, afirma o executivo. Para orientar o consumidor e obter mais dicas financeiras, consulte o site da Abecs em www.abecs.org.br/dicas.