ANS não consegue controlar planos de saúde

A ANS não cnsegue controlar os planos de saúde, que estão prestando um serviço cada vez pior aos clientes, segundo o colunista do JT Josué Rios. Para aumentar rentabilidade, empresas diminuem custos que afetam os serviços prestados

Marcelo Moreira

10 de outubro de 2010 | 08h11

 O sr. Furtado, o Consumidor, está perplexo com a informação divulgada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) de que pretende obrigar as empresas de saúde a atender o consumidor em prazos curtos, como 10 dias para consultas ou 21 dias para procedimentos de alta complexidade.

Daí o sr. Furtado me pergunta: “Ou a informação é séria ou é mais uma piada em época eleitoral”. Fico com a segunda hipótese. Quem ler as reclamações publicadas na seção Advogado de Defesa do JT tem acompanhado o drama dos consumidores que reclamam da demora no atendimento dos planos de saúde.

Há casos em que uma simples consulta demora mais de três meses para ser marcada, prazo que é ainda maior para exames – e principalmente para cirurgias.

Anote, caro leitor: os planos de saúde, historicamente, sempre atormentaram os consumidores com três problemas crônicos e graves. Primeiro: reajustes abusivos das mensalidades e aumentos por mudança de faixa etária dos mais idosos. O segundo problema é a negativa e exclusão de cobertura de tratamento, a que o consumidor tem direito.

E em terceiro lugar, o atual e mais frequente desrespeito, que é a extrema e desavergonhada demora para a concessão de atendimento. Pior: quando o infeliz em situação de risco de vida precisa de um procedimento para ontem (como uma ressonância ou um cateterismo a pedido do médico), é comum ouvir da clínica especializada ou do hospital credenciado que o pedido não pode ser atendido de imediato, “porque o aparelho está em manutenção”, ou outra desculpa inventada.

O mesmo tipo de manobra – e mais grave ainda – ocorre com as cirurgias, mesmo aquelas de urgência. Como? Informo: mesmo marcada para muito tempo depois, quando chega às vésperas ou até mesmo no dia da cirurgia, esta é adiada e remarcada para nova data, que também não é obedecida. E as desculpas “fabricadas” são sempre as mesmas: houve problema com a agenda do médico ou com algum equipamento do hospital, ou houve falha na comunicação com o plano, etc.

A verdade é outra, leitor. Não existe equipamento em manutenção, não há problema de agenda, superlotação ou coisa parecida.

A verdade é que as empresas de saúde simplesmente estão gerenciando a redução de custos usando todas as formas possíveis de negativa ou adiamento do atendimento ao consumidor, transformando este em uma simples peça desse jogo perverso – inclusive nos casos de risco de vida do conveniado.

Ora, não é novidade que gestores atropelam direitos dos consumidores para reduzir custos e lucrar mais. Só que, nos últimos tempos, as empresas de saúde passaram a fazer isso de forma radical. E por quê? Resposta: o governo fechou com mãos fortes a torneira dos reajustes abusivos dos planos, que historicamente superavam 20% acima da inflação, e ainda acrescentou a obrigação de as empresas fazerem novas coberturas de atendimentos.

Resultado: as empresas de saúde não se insurgiram contra o governo, mas deram o troco impondo a referida gestão de custo em confronto com riscos à vida do consumidor.

Agora, a ANS quer intervir nessa perversidade dos planos, mas seu êxito será difícil. Mesmo que imponha uma certa decência nos prazos de atendimento, as empresas radicalizarão a gestão dos custos diretamente na qualidade dos serviços (o que já vem acontecendo), piorando cada vez mais o atendimento.

Resumo: burocratas e diretores da ANS com origem na iniciativa privada não serão capazes de compreender e gerir a complexidade do sistema de saúde privada de modo a harmonizar, de forma satisfatória, a relação entre empresas e consumidores.

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