A loteria para ser atendido nos convênios

Marcelo Moreira

10 de maio de 2011 | 08h15

Carolina Dall’Olio e Carolina Marcelino

Mais consumidores, porém com menos locais de atendimento. Essa é a realidade atual do mercado privado de saúde no Brasil. Nos últimos cinco anos, os planos de saúde ganharam quase 9 milhões de clientes mas, em vez de ampliar a rede para atender o novo público, as operadoras reduziram o número de clínicas credenciadas em 40% desde 2009 – e também diminuíram a quantidade de consultórios, hospitais e prontos-socorros que constam em sua lista de prestadores de serviços .

“O resultado deste processo pode ser notado pelos consumidores, que enfrentam uma grande demora para agendar consultas e filas em clínicas e hospitais”, diz Juliana Ferreira, advogada do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Para Juliana, isso ajuda a explicar porque as operadoras aparecem entre as empresas com mais reclamações nos rankings dos órgãos de defesa do consumidor.

Hoje há, por exemplo, 949.375 usuários para cada pronto-socorro conveniado às operadoras do País. Mas a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) afirma que não pode definir se a proporção entre equipamentos de saúde e números de usuários é ou não satisfatória.

Por isso, acha mais eficaz instituir um prazo máximo para que o cliente da operadora seja atendido. O assunto foi discutido em consulta pública, encerrada em março. Agora a ANS analisa as sugestões para só depois editar uma instrução normativa sobre o tema.

Para José Cechin, diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (Fenasaúde), a rede atual é satisfatória. Ele usa como argumento a pesquisa do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (Iess), em que 80% dos usuários de planos de saúde se disseram satisfeitos com os serviços das operadoras. “A proporção de hospitais, leitos, clínicas, laboratórios e profissionais credenciados é maior do que a de beneficiários na população.”

Mas por que então a rede credenciada das operadoras brasileiras está ficando mais enxuta, como mostram os dados da ANS? Para Florisval Meinão, diretor da Associação Médica Brasileira (AMB), os motivos são financeiros.

 “Uma rede enxuta reduz custos das operadoras e dá a elas mais controle sobre seus fornecedores.  Se por acaso as empresas quisessem ampliar a rede credenciada, haveria uma grande quantidade de profissionais dispostos a atender os usuários do sistema de saúde suplementar.”

Meinão é um dos líderes do protesto que a classe médica fez no início de abril para reivindicar aumentos nos honorários pagos pelos convênios.

É bom lembrar que muitas operadoras estão hoje com problemas de caixa. “A ANS faz uma série de exigências financeiras que são inviáveis para as operadoras, em especial para as de pequeno e médio porte. Elas dificilmente suportam todos os custos”, afirma Arlindo Almeida, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge).

Contatada pela reportagem do JT, a ANS não informou quantas empresas deixam de apresentar as garantias financeiras exigidas e sofrem hoje intervenção administrativa da agência.

Só que, na última avaliação feita pela própria agência sobre o desempenho das operadoras, o quesito em que elas tiveram a pior performance foi justamente o econômico-financeiro.

Além disso, 449 operadoras brasileiras fecharam as portas nos últimos cinco anos. Um sinal que as empresas emitem quando as finanças não vão bem é o descredenciamento de prestadores de serviço em massa. Foi o caso da Samcil, que recebeu um ultimato da ANS para repassar sua carteira de clientes a outra operadora.

Com 82 anos, a dona de casa Maria Belmonte Bello é cliente da Samcil desde 2002, quando a empresa ficou com parte dos clientes da Transmontano, que havia falido. “Comecei a notar a crise da Samcil, pois todos os médicos que nos atendiam deixaram de aceitar nosso convênio.”

Maria e o marido, o aposentado Nelson Rodrigues Bello, 86, gastam juntos R$ 800 por mês com o convênio médico. Com problemas no rim, o geriatra de Bello pediu alguns exames, que foram autorizados pela Samcil.

Porém, no laboratório, o aposentado teve o atendimento negado, pois eles alegaram que não eram mais credenciados a Samcil. “Como os exames eram urgentes, paguei R$ 700 por eles”, conta Maria, que agora espera ser ressarcida pela Samcil.