Wagner é Lula. Lula é Wagner

Dilma joga as fichas que lhe restam diante de um desafio duplo: afastar a possibilidade do impeachment e aprovar o ajuste fiscal

Adriano Ceolin, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2015 | 09h17

A nomeação de Jaques Wagner como chefe da Casa Civil sela de vez a terceirização da presidência de Dilma Rousseff para Luiz Inácio Lula da Silva e o PMDB. O político baiano sempre foi o primeiro nome do ex-presidente para assumir a coordenação geral do governo. E também jamais deixou de contar com a torcida dos peemedebistas, que nunca engoliram Aloizio Mercadante dando expediente no Palácio do Planalto.

A mudança ocorre agora por extrema necessidade e zero por vontade. Dilma joga as poucas fichas que lhe restam para reconstruir sua base de sustentação porque tem um desafio duplo: afastar a possibilidade do impeachment e aprovar o pacote de ajuste fiscal para reconquistar alguma credibilidade no mercado financeiro. Com trânsito em todos os partidos, Wagner é uma aposta alta, mas significa uma enorme derrota pessoal da presidente.

Reeleita, Dilma fez questão de afastar lulistas da sua órbita e atuou para esvaziar o poder do PMDB. No começo do segundo mandato, tirou do Planalto Gilberto Carvalho e Ricardo Berzoini, ambos ligadíssimos a Lula. No lugar deles, assumiram Miguel Rossetto na Secretaria- Geral e Pepe Vargas nas Relações Institucionais, ambos da seção gaúcha do PT, a mesma de Dilma.

A reconquista de Lula começou numa pasta mais técnica que política: a Secretaria de Comunicação Social (Secom). Em março, Edinho Silva, ex-presidente do PT paulista e ex-tesoureiro da campanha de Dilma indicado por Lula, assumiu o lugar do jornalista Thomas Traumann.

Em abril, também aconselhada pelo ex-presidente, Dilma rifou Pepe Vargas e delegou a articulação política ao vice-presidente Michel Temer (PMDB). À época, Lula já defendia a saída de Mercadante da Casa Civil, mas Dilma teimou. Em agosto, Temer deixou a função alegando a aliados ter sido boicotado por Mercadante.

Apesar tudo, o auge da fritura de Mercadante só ocorreu quando ele bateu de frente com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Eles se desentenderam quando o então chefe da Casa Civil convenceu a presidente a enviar ao Congresso o Orçamento de 2015 com um déficit de R$ 30,5 bilhões. A medida resultou no rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência de risco Standard&Poor’s.

A partir daí, ganhou força descomunal a substituição de Mercadante por Wagner. Casada com esse movimento, ocorreu a volta de Berzoini à articulação política, agora na nova Secretaria de Governo - fusão da Secretaria-Geral e com as Relações Institucionais. Mais do que salvar Dilma, Wagner e Berzoini farão de tudo para viabilizar a volta do verdadeiro chefe, Lula, ao Palácio do Planalto em 2018.

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