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Veto a publicidade ofusca políticos na Lavagem do Bonfim

Tiago Décimo - O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2014 | 20h 10

Proibição a faixas e balões publicitários imposta pela prefeitura retira visibilidade de candidatos que costumavam testar a popularidade na tradicional festa de rua baiana

Salvador - Alterações impostas este ano pela prefeitura de Salvador ofuscaram a ação de políticos na tradicional Lavagem do Bonfim - festejo que recebeu na última quarta-feira o título de Patrimônio Imaterial Nacional do governo federal. Em ano eleitoral, a maior festa religiosa da Bahia costumava se transformar na principal vitrine para os prováveis candidatos a cargos eletivos, que costumam testar a popularidade nas ruas, em contato direto com o povo.

Para este ano, a prefeitura criou um cortejo católico que desfilou antes do início do tradicional, composto pelas baianas com suas rosas e potes de água-de-cheiro com os quais fazem efetivamente a lavagem das escadarias da igreja. Com isso, o "cortejo" de políticos, que nos anos anteriores desfilavam logo após o principal, ficou para trás, distante do foco da festa.

Na segunda alteração, a prefeitura fez valer um decreto assinado em 2000, mas que nunca foi efetivamente cumprido, e manteve rigorosa fiscalização da proibição de faixas, painéis, placas e balões publicitários no cortejo.

A medida evitou o que vinha acontecendo nos últimos anos: após o cortejo tradicional, desfilavam os "blocos" de cada partido político com seus principais representantes, candidatos e a militância equipada de faixas e peças publicitárias.

O trajeto de cerca de oito quilômetros entre as Basílicas de Nossa Senhora da Conceição da Praia e do Senhor do Bonfim, na Cidade Baixa de Salvador, por onde passam cerca de 1 milhão de pessoas, costumava ser uma boa oportunidade para políticos fazerem corpo-a-corpo com os eleitores e tentar colher aplausos e cumprimentos - apesar de, rotineiramente, receberem vaias. Os partidos aproveitavam a exposição para definir posições políticas e, por vezes, lançar ou firmar candidaturas.

Foi observando a reação da população no cortejo de dois anos atrás, por exemplo que as oposições ao governo do Estado fecharam questão em torno da candidatura do então deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM) à prefeitura de Salvador. ACM Neto foi eleito, ao fim de 2012, vencendo a disputa contra o petista Nelson Pelegrino no segundo turno.

Sem faixas e balões de partidos e coligações ao redor, os políticos que participaram do evento este ano acabaram sendo "camuflados" no cortejo. Só quem estava perto e notava a movimentação dos seguranças conseguia percebia a presença deles. "Acho que ficou melhor assim, sem as faixas e os cartazes", comentou o governador Jaques Wagner. "A campanha de verdade começa em junho ou julho."

Candidatos. Com uma fissura no tornozelo, Wagner, que já não havia participado do cortejo no ano passado, não cumpriu os oito quilômetros este ano. Acompanhado da ministra Marta Suplicy, Wagner deixou o trajeto pouco depois do início e seguiu, de carro, até a Colina Sagrada, onde fica a basílica do Bonfim.

Coube ao nome indicado por ele para ser o candidato petista ao governo do Estado, Rui Costa, e ao vice-governador - e virtual candidato da coligação ao Senado -, Otto Alencar (PSD), puxar o bloco governista. "O médico recomendou que ele (Wagner) não caminhasse todo o trajeto", justificou Alencar.

Desfilaram também outros prováveis candidatos ao governo da Bahia, como a senadora Lídice da Mata (PSB), o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) e o ex-governador Paulo Souto (DEM), além de prefeitos, deputados e até pré-candidato à presidência. O senador do Amapá Randolfe Rodrigues (Psol) escolheu a tradicional festa de rua baiana para testar a popularidade de sua recém lançada candidatura.

Responsável pelas alterações, o prefeito ACM Neto (DEM) liderou o bloco de oposição e caminhou ao lado de Geddel e Souto. Apesar de seguirem juntos no cortejo, os oposicionistas não firmaram posição, sobre se marcharão unidos em torno de um representante ou se lançarão múltiplos candidatos na eleição. "A festa não é momento de escolher candidato", disse o prefeito. "Aqui, está todo mundo mais motivado pela fé que pela política", esquivou-se.