Agência Brasil
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‘Vai ser preciso dar um tranco no Congresso', diz ex-ministro de FHC

Para Brant, propostas econômicas do PMDB são impopulares e teriam pouco tempo para serem implantadas

Entrevista com

Roberto Brant, ex-ministro da Previdência Social

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

18 Abril 2016 | 08h21

Na avaliação de Roberto Brant, ex-ministro da Previdência do governo de Fernando Henrique Cardoso, para o País buscar uma saída para a crise econômica, num eventual governo liderado pelo PMDB, será preciso dar um choque de realidade no Congresso e na sociedade. “Se não, as pessoas vão achar que, votado o impeachment, podem voltar para casa e começar a gastar por conta. Elas precisam saber que o Estado está arruinado”, diz. Brandt coordenou a elaboração do Uma Ponte para o Futuro, documento que reúne as propostas do PMDB para a economia e devem sustentar uma nova política econômica em um eventual governo liderado por Michel. A seguir, os principais trechos de sua entrevista ao Estado

Quais medidas vai ser preciso priorizar na economia? 

É um exercício inútil produzir medidas instantâneas em busca de um superávit primário no curto prazo. O ajuste fiscal para valer precisa de horizonte de longo prazo. O desequilíbrio fiscal brasileiro está contratado nas leis, na Constituição, que precisam ser alteradas. Com as regras que o Estado precisa seguir hoje, você pode colocar qualquer um na presidente da República, pode colocar um Armínio Fraga, mas se não deixarem que ele mude as regras que estão aí, daqui a um ano estamos na mesma desgraça ou até pior. Não sei exatamente o que eles vão fazer, mas sei que Michel (Temer) leu várias vezes o Ponte para o Futuro. Mudou muitas coisas. Pediu para inverter a ordem de outras. 

Temer acompanhou tudo?

Leu todas as doze versões. 

Quais medidas deveriam ser privilegiadas na sua opinião?

Não dá para eleger duas ou três. Tudo que está lá precisa ser feito. O tamanho do desastre que o Brasil vive hoje é inédito na nossa história. 

O PMDB tem consciência de que as reformas são profundas e está pronto para fazê-las?

O Michel tem. O Moreira (Franco, ex-ministro do governo Dilma e presidente da Fundação Ulysses Guimarães) também. Não posso falar por todos. Esse documento não foi feito para enfrentar o voto popular. Com um programa desses não se vai para uma eleição.

O senhor está dizendo que as medidas são impopulares?

Claro. O conjunto da sociedade não tem obrigação de compreender essas questões herméticas de orçamento, Previdência, de relações Banco Central e Tesouro Nacional. Não tem noção do que seja a trajetória da dívida. E as pessoas querem mais. Elas não querem menos. Se perguntar os que elas esperam do Estado brasileiro, vão dizer que querem mais. Mais saúde, mais educação, mais segurança pública, mais infraestrutura e menos impostos. Os brasileiros são iguais a todos os homens da terra. Agora, as pessoas não sabem a violência da doença que tomou conta do Estado brasileiro. Na implantação desse programa, não se pode escolher duas ou três medidas. Precisamos de todas. 

Mas seria possível apresentar o plano inteiro ao Congresso e aprovar tudo de uma vez?

Eu fui deputado federal por 20 anos. Fui constituinte. A partir de certo ponto, a gente não conseguiu aprovar mais nada. No começo, há muita disposição. Depois, ela se esvai. O Brasil tem uma condição sui generis. No resto do mundo, as coisas são regidas por leis ordinárias. (No Brasil) Todas as reformas são constitucionais. É preciso três quintos dos deputados e duas votações na Câmara e no Senado - com essa Câmara e esse Senado. Eu não queria estar no lugar dele. Precisa fazer reforma na Previdência, e a turma que perder o governo vai para rua falar contra. Lula vai chorar em praça pública. Precisa desvincular benefício social do salário mínimo. Vai ser um Deus nos acuda. Agora, o sistema político brasileiro está preparado para fazer as mudanças?

Está?

Não. Nem sei se a sociedade está. Mas o Brasil chegou ao ponto tal que não há outro remédio do que dizer a verdade. Quando você está com uma doencinha, o médico pode embromar e ir levando. Mas se a doença é grave, e o médico não contar, o paciente (vai) morrer, feliz, mas vai morrer. O primeiro princípio da governança é dizer a verdade. Vai ser preciso pedir 15 a 20 minutos de rede nacional e dizer a verdade sobre o que vem pela frente. Se não, as pessoas vão achar que, votado o impeachment, podem voltar para casa e começar a gastar por conta. Elas precisam saber que o Estado está arruinado. 

Dizem que a lua de mel do mercado com um governo de transição seria curta e por isso as mudanças precisariam ser rápidas. O que o senhor acha?

Sim. Vai ser preciso ser rápido no Congresso. Dar um tranco. E veja bem: um governo breve, de 2 anos e meio, que não vai aspirar um futuro longo a não ser o reconhecimento da história. Não vai ser aplaudido hoje, porque medidas econômicas produzem efeitos não quando são tomadas, mas só lá na frente. E, veja bem, este governo não estava preparado para sair agora. Vai desalojar muitas pessoas, e a maioria não têm lugar no mercado de trabalho. Esse pessoal vai fazer um barulho muito grande. Se não tiver uma energia sobrenatural, uma força para dialogar e convencer o Congresso, não sei se vamos muito longe. Vai ser preciso agir muito rápido. E sem mandato da sociedade. Vai ter de ser meio na marra.

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