'Um dia é pouco para eu contar tudo o que vivi', diz Maria Trindade Martins

Sobrevivente da guerra, ela evita falar da experiência e não perdoa os líderes dos caboclos

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 Fevereiro 2012 | 18h32

Maria Trindade Martins, 105 anos, mora num barraco de madeira nos fundos da casa do filho Chico. Os mais novos a conhecem em Lebon Régis como a "mãe do Papai Noel" - o pedreiro Chico, construtor de capelinhas de túmulos de cemitério, se veste de bom velhinho para conseguir uma renda extra no final do ano. Já os moradores mais antigos lembram dela como a parteira da cidade. Maria diz que "pegou" mais de 200 meninos.

 

Maria foi descoberta pela reportagem do Estado por acaso. Depois de uma semana de pedidos de informações sobre o paradeiro de Virgílio Leão de Carvalho, um remanescente dos redutos rebeldes que estaria com 102 anos e morando em Lebon Régis. Um blogueiro, o jornalista Cícero Machado, informou que ele morrera havia uma semana. Machado e uma professora ajudaram a localizar outra sobrevivente da guerra que morava no município e estaria lúcida. Era Maria.

 

 

Ao lado de um fogão de lenha e na companhia da inseparável Linda, uma pequena cadela, Maria descreve os dias difíceis sofridos por crianças e adultos durante a "guerra dos jagunços". Ela relata que os caboclos chegaram a comer até couro de cintos para saciar a fome. Maria tinha seis anos quando a guerra começou e 10 quando o conflito terminou. "Eu passei fome no mundo. Sei o que é fome", relata. "Nossa, a gente sofreu muito. Um dia é pouco para eu contar tudo o que vivi."

 

Maria evita falar de sua experiência em redutos rebeldes. Não perdoa os líderes dos caboclos. Em seus relatos, Adeodato é tão vilão quanto os militares. Reclama tanto dos chefes rebeldes quanto dos homens do Exército. Ela acusa os dois lados. Quem ouve sua história tem dificuldade de saber se Maria acusa "pelados" ou "peludos". "Eles tiravam os seios das mulheres, matavam. Eram bandidos. Não eram maus, eram bandidos", ressalta. "Morreu muita gente matada, muita criança", completa. "Matavam os pobrezinhos dos anjos, pecado."

 

Falante e com olhos brilhantes, Maria está longe de parecer uma mulher centenária. É verdade que os olhos perderam a tonalidade castanha, ficando quase azuis. Ela, porém, mantém uma voz firme e uma expressão forte. Reclama que as vistas não "dão mais". Para mostrar sua fé em São João Maria, vai até o quarto e, depois de alguns segundos, volta com um pequeno quadro com o retrato do monge. "Meu santinho está se apagando", constata. "Antes, eu enxergava a panelinha na mão dele."

 

Ela diz que a fotografia de São João Maria pertencia à sogra. Depois, a imagem passou para o seu marido, Pedro Lins, morto há quase 20 anos. "Eu acendo até velinha para São João Maria, porque não sei se é vivo ou morto. Se não for, não tem problema", diz, sorrindo. Maria conta que o pai era alemão e a mãe era uma cabocla "bem morena". A mãe morreu quando ela ainda era criança, deixando cinco crianças menores. "Só durei até hoje porque tenho sangue de bugre", avalia. "Fui picada por cobra, apanhei de tapa, chinelo e vara de marmelo", conta. "Estou viva porque Deus não se lembrou de mim."

 

Do casamento com Pedro Lins, filho de rebeldes, Maria teve cinco filhos, três homens e duas mulheres. Ainda criou outros três meninos de uma relação anterior de Pedro. Reclama que, hoje, as crianças e jovens cumprimentam rapidamente os mais velhos. "Um afilhado nem louvado dá mais. Agora, é só boa tarde, bom dia, boa noite. Que esquisito", diz. "Não canso de dizer: que bonito dizer: Deus te abençoe. Vou achar um velho tão velho quanto eu para dizer: Deus te abençoe."

 

Leia abaixo o depoimento de Maria Trindade Martins:

"Nasci no dia 8 de maio de 1906, numa casa perto da coletoria velha, aqui em Lebon Régis. Não conheci meu pai, um alemão. Minha mãe era brasileira, bem morena, de cabelos compridos. A gente trabalhava na roça, com foice, machado. Já derrubei mata. Hoje, não presto. Mas não posso ficar parada. Tive cinco filhos, criei todos. Acendo sempre uma vela para São João Maria. Tenho muita fé. Tudo o que eu peço ele me dá. (Mostra um retrato antigo do monge). Muita gente virou crente. Eu não viro. Morro católica. Os jagunços eram todos devotos de São João Maria. Minha mãe me batizou na água sagrada. Aguentei até agora porque tenho fé em São João Maria e porque tenho sangue de bugre. Depois da guerra, passavam aquelas crianças famintas na estrada, eu ficava olhando. Elas não podiam comer tudo que estava na mesa, porque tinham passado muita fome na guerra e só conseguiram chupar osso e comer broto. Muitas morriam. É triste. Agora a minha cabeça não está mais prestando, não. As coisas fogem da minha cabeça. Eu me esqueço. Às vezes, eu penso: O que eu iria fazer? Não lembro mais. O juízo já não guarda mais."

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