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Tudo ou nada a Temer

Vice precisa dar a ideia de ‘rolo compressor’ para forçar Dilma a renunciar

José Roberto de Toledo

Esta é a semana decisiva. Pelo roteiro montado por Michel Temer, o PMDB rompe formalmente com Dilma Rousseff amanhã, provocando a desarticulação da base governista. Partidos oportunistas que incharam na janela da infidelidade partidária, como o PP e o PR, esperam a dica peemedebista para deixarem o PT falando sozinho. Tentarão, assim, criar uma sensação de inevitabilidade do impeachment. Têm pressa. O objetivo final não é só impedir a presidente, mas convencê-la a renunciar.

Daqui para frente, Temer e seus parceiros do PSDB dependem da sua capacidade de projetar a impressão de que controlam todos os movimentos do Congresso e que, ao contrário de setembro do ano passado, não deixarão a oportunidade escapar. Tentam montar um rolo compressor para aprovar o parecer contra Dilma na comissão especial do impeachment até 11 de abril. Daí, vão ao plenário com a obrigação de somar 342 votos para impedir a presidente.

Hoje, formalmente, faltam 190 votos à oposição, sem contar com os vira-casacas do PMDB. Mas, se Temer tiver êxito no rompimento previsto para terça – e este for seguido por PP (49 deputados) e PR (40 deputados) – esse número deve cair rapidamente.

Para simplificar a conta e ilustrar o tamanho da missão dos oposicionistas: eles precisam de uma taxa de traição de 75% dos 69 deputados do PMDB. E, a partir daí, replicar essa taxa nas bancadas dos demais partidos que compõem o “centrão” da Câmara: PP, PR, PTB, PSD, PV, PTN, PSC, PHS, PT do B, PSL, PEN e PMB. Somadas todas essas defecções, a oposição juntaria 191 votos aos 152 que já tem. Total: 343 – um a mais do que precisa para aprovar o impeachment na Câmara.

Política não é matemática, porém. A taxa de traição vai variar entre partidos e, principalmente, ao longo do tempo. Seja de quem for a vitória, a margem não deve ser tão apertada assim.

Quem entrar em vantagem no dia da votação em plenário tende a arrebanhar defecções de última hora. A votação é aberta, nominal e por ordem alfabética. Os votos vão sendo contados um a um. No momento em que ficar claro qual lado vencerá, as traições explodirão. Ninguém quer ficar mal com o vencedor.

Por isso, controlar a narrativa dessa contabilidade é vital desde já. Temer e companhia precisam convencer os outros partidos do “centrão” que têm o controle do jogo e que não perderão o “momentum”. Por isso, sua maioria na reunião da cúpula do PMDB nesta terça precisa ser cabal. Qualquer sinal de dubiedade pode levar o “centrão” de volta para cima do muro.

Há uma outra razão não declarada para Temer buscar passar uma sensação de invencibilidade: o julgamento de Dilma pelo Senado. Em 1992, a Câmara aprovou a abertura do processo de impeachment de Fernando Collor no dia 29 de setembro. Dois dias depois, o processo foi instaurado no Senado e, em 2 de outubro, o presidente foi afastado da Presidência. O julgamento no Senado só começou em 29 de dezembro, mas Collor renunciou no mesmo dia.

Desta vez, tudo leva a crer que o processo demorará mais. O Senado tende a referendar o afastamento da presidente, mas, enquanto não concluir o julgamento de Dilma, Temer será menos presidente do que interino. A transitoriedade será um empecilho a mais para o novo governo superar, além da crise econômica.

Ao contrário de Collor, o PT e a presidente ainda têm – por menor que seja – uma base social e parlamentar. Enquanto não houver sentença definitiva, o julgamento de Dilma será uma tribuna para os petistas tentarem desestabilizar o governo interino. Se ela não renunciar, eles podem estendê-lo por até seis meses: greves, protestos, obstruindo votações no Congresso.

Temer precisa da renúncia de Dilma para elevar sua chance de sucesso. Prisões, perdões e indultos virarão moeda de troca. Para fechar um acordo, a Lava Jato pode virar esguicho.

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