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Triste fim do ‘dilmismo’

Com José Eduardo Cardozo, foi-se o último dilmista do governo de Dilma Rousseff, que começou o segundo mandato de nariz em pé, cheia de si pela vitória de 2014 e pela sensação de que se desvencilhava do seu criador Lula e ganhava vida política própria. Ledo (ou seja, ingênuo) engano. O tempo passou, Lula se impôs, os dilmistas evaporaram e Dilma foi-se isolando dentro do próprio isolamento.

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Eliane Cantanhêde

02 Março 2016 | 06h00

Janeiro de 2015 flagrou Dilma trancada no Planalto com os únicos dilmistas do planeta, achando que ela e eles se bastavam. A sete chaves, a presidente, Aloizio Mercadante, Ricardo Berzoini, Miguel Rossetto, às vezes Cardozo, pensavam e diziam as mesmas coisas, reproduzindo a autossuficiência e a aversão da chefe à política e aos políticos. O “núcleo duro” do governo voltava-se para o próprio umbigo, incapaz de ouvir a opinião pública, o mercado, a oposição, a base aliada, o PMDB, o PT e o próprio Lula. Para que o contraditório?

Porém, Lula é Lula. Com o poder que tem no PT e aquele ego que todos conhecem, não ia ficar quieto, ainda mais com a confirmação de que o primeiro mandato de Dilma implodiu a economia e que a casa estava caindo aos pedaços no segundo: a indústria e o comércio para um lado, os empregos para o outro. Lula partiu para cima de Dilma reunindo a esperteza, o traquejo político, a tropa petista e o ambiente econômico negativo.

Mais e mais isolada na sua teia de crises e de confrontos com Lula e o PT, Dilma foi obrigada a empurrar para fora do centro do poder os dilmistas que Lula nunca suportou. Aloizio Mercadante saiu da Casa Civil para a Educação e agora Cardozo troca a Justiça pela Advocacia-Geral da União. A troca agradou a Lula, mas desagradou a todo o resto.

Para a opinião pública, a versão fácil, óbvia, é de que Lula e o PT vão tentar fazer gato e sapato da Polícia Federal para esvaziar a Lava Jato, que é a única válvula de escape para uma população escandalizada e desanimada com a quebra da Petrobrás, a venda de medidas provisórias, o poder das empreiteiras, os bilhões de reais voando pelo mundo e virando tríplex e sítios por aí.

Para quem acompanha a política mais de perto, a conclusão também parece fácil, óbvia: o “núcleo duro” do governo Dilma foi reduzido a uma única pessoa, que, veja só, é mais lulista do que dilmista: Jaques Wagner, o chefe da Casa Civil. Foi ele quem indicou o novo ministro da Justiça, negociou o nome com Lula e fez Dilma engoli-lo calada.

Não à toa, o novo ministro é Wellington César Lima e Silva, que era o terceiro da listra tríplice para procurador-geral de Justiça da Bahia, mas foi o escolhido para o cargo por suas ligações com Wagner. Dizem que é do tipo “fará tudo o que seu mestre mandar”. O “mestre” é Jaques Wagner. Na prática, o ministro da Justiça também.

Além de isolada, Dilma está imobilizada. Precisa urgentemente mexer na economia, arregimentar conselheiros confiáveis e com conhecimento de causa, recuperar o fôlego na interlocução com o Congresso, mas não consegue fazer nada disso. Lula, o PT e os movimentos sociais não deixam. Vão abatendo, um a um, projetos, nomes, intenções. Não sobra nada e, agora, o alvo passa a ser outro: as investigações da Lava Jato. O que Dilma e Cardozo não fizeram (porque não quiseram ou não puderam) eles vão tentar fazer agora.

Jaques Wagner é considerado os olhos, ouvidos e a voz de Lula no gabinete de Dilma e ele tem de se equilibrar não só entre dois egos, mas também entre duas visões sobre a autonomia da Polícia Federal e do Ministério Público. Pode até ousar meter a mão na Lava Jato, mas não vai ajudar Lula, que se enrolou de tal forma que não tem volta, nem vai dobrar a PF e o MP, que desenrolaram a Lava Jato de tal forma que não tem volta. Se tentar, quem vai quebrar a cara é ele.

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