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Trem descarrilado

Duas hipóteses poderiam explicar o comportamento de Lula da Silva na crise: ou o ex-presidente é portador daquele traço de personalidade que ignora o mundo ao redor do próprio umbigo ou a adversidade afetou-lhe o raciocínio. 

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Dora Kramer

02 Março 2016 | 05h59

Consideremos cenário alternativo já que tolo ele não é, embora esperteza não seja sinônimo de inteligência, e o narcisismo patológico dependeria de diagnóstico médico para justificar a conduta temerária adotada nos ataques que Lula escolheu como estratégia de defesa. Dele e do PT. 

Uma combinação das duas hipóteses como premissas de um encadeamento lógico, leva à tese bastante condizente com a realidade: o ex-presidente prepara terreno, em ambiente de radicalização, na expectativa de que o pior esteja por vir. 

No caso, uma ordem de prisão motivada por alguma das várias investigações que o envolvem. Bem assessorado por criminalistas de reconhecida competência, Lula já deve ter sido alertado a respeito de sua periclitante situação que, a cada fato revelado, torna-se ainda mais complicada. Não bastassem os inquéritos em curso nos ministérios públicos de São Paulo e do Distrito Federal, os investigadores da Lava Jato apuram se o ex-presidente obteve vantagens indevidas de empresas enquanto ocupava a Presidência. Se confirmado, o enquadramento seria no crime de corrupção passiva.

É nesse quadro desfavorável que o ex-presidente foi à festa de 36 anos do PT desancar o Ministério Público, acusando os procuradores que procuram mergulhar fundo no combate à corrupção de “fazer o jogo” dos meios de comunicação que, segundo ele, são a verdadeira oposição no País. Desqualifica, assim, dois pilares de regimes democráticos: a liberdade de imprensa e a independência do órgão defensor da sociedade. Além do mais, afronta a tudo e a todos ao se recusar a atender a convocações para prestar depoimentos na condição de investigado. Está dizendo com isso que está acima das instituições e dos demais cidadãos. 

Objetivamente, tal comportamento não contribui em nada para resolver nem para amenizar os problemas que lhe mordem os calcanhares. Resta a Lula da Silva, então, tentar transformar seus dissabores numa “causa” a ser abraçada pelos (ditos) fracos e (supostamente) oprimidos. Uma cruzada contra a perseguição política. Para isso, dispõe até de uma referência histórica: sua detenção, em 1980, pelo regime militar por 30 dias nas dependências do Dops de São Paulo em decorrência da intervenção do Ministério do Trabalho no sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo à frente do qual Lula liderara uma greve nas montadoras da região.

Não vai demorar a invocar o episódio, aderindo à falaciosa tese de que o Brasil de hoje é institucionalmente muito mais inseguro e injusto que o Brasil da ditadura. O ex-presidente entrou numa trajetória de trem descarrilado, sem freios. Busca movimentar suas tropas a qualquer preço. Derrubou o ministro da Fazenda Joaquim Levy para animar a torcida numa simulação de guinada à esquerda. Conseguiu produzir um substituto anódino que, uma vez no cargo, viu-se na impossibilidade de brigar com a realidade e sumiu de cena. 

Agora mesmo acaba de derrubar o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, por considerá-lo um mau zelador de suas conveniências. O sucessor, Wellington César, não poderá - a exemplo de Nelson Barbosa na Fazenda - fazer nada muito diferente sem provocar reação forte de procuradores, policiais federais e juízes. Ficará de mãos amarradas, impedido de evitar que o circo pegue fogo.

Para Lula pouco importa. Está com medo. Acionou o botão do “dane-se” na esperança (vã) de se distanciar dos danos do já bastante danificado governo da criatura que inventou. 

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