Testemunha da Xeque-Mate confirma que houve vazamento

Cunha conta à PF que compadre de Lula era sócio de suposto chefe da máfia

Agencia Estado

15 Junho 2007 | 02h40

O homem-bomba das investigações da Operação Xeque-Mate, Andrey Galileu Cunha, confirmou em depoimento que Dario Morelli Filho, amigo e compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, era sócio do suposto chefe da máfia dos caça-níqueis, Nilton Servo, numa casa de videobingo em Ilhabela (SP). A testemunha-chave do caso admitiu também que as informações sobre a ação da Operação Xeque-Mate vazaram antes de ela ser deflagrada. Os depoimentos de Cunha eram mantidos sob sigilo. Ele aceitou o benefício da delação premiada e diz que vai ajudar nas apurações. Nas oito páginas do interrogatório, às quais o Estado teve acesso, a única recusa dele foi em relação aos casos de corrupção de policiais. Recluso em lugar desconhecido, sob a forte proteção de policiais federais, Cunha virou o inimigo nº 1 da quadrilha e declarou que tem medo de ser morto. Por ter concordado em contribuir com a PF, Cunha foi um dos poucos entre os 78 presos na operação a prestar dois depoimentos. O primeiro, no dia 8, tem duas páginas e poucas informações. O segundo, feito dia 4, após o acordo de delação premiada, tem sete páginas e indicações de que Cunha é o elo que faltava para associar a quadrilha aos homens que circulam na órbita do presidente e do governo federal. A partir desse relatório da PF, Cunha deve ser novamente chamado pela Procuradoria da República para dar declarações que subsidiem a denúncia. "Nilton possui uma casa de bingo em Ilhabela, tendo como sócio Dario Morelli Filho", diz ele na página 3 de seu segundo depoimento. O advogado do compadre de Lula, Milton Talzi, sustenta que eles não são sócios, apenas conhecidos. Para a PF, Servo e Morelli tinham sociedade na casa Deck Vídeo Bingos, em Ilhabela, mas o negócio estava registrado em nome de um "laranja" chamado Renato Prata. O delator confirmou que Prata era o dono do negócio apenas no papel. A PF dispõe de muitas conversas gravadas entre Servo e Morelli discutindo negócios, falando sobre lucros das máquinas, monitorando as ações de repressão da polícia e até corrompendo policiais. Cunha é considerado peça-chave para entender como atuava o grupo liderado por Servo. Desde os 12 anos de idade tem relações com a família do empresário. Ele conheceu um dos filhos de Servo na escola, ainda no Paraná. Em 2002, 2004 e 2006, trabalhou nas campanhas eleitorais do empresário. Em 2005 foi contratado como seu homem de confiança para atuar nos negócios de caça-níqueis. A casa de jogos Dalas Vídeo Bingos, em Campo Grande, chegou a ser registrada em seu nome, apesar de pertencer a Servo. Era ele também quem acompanhava o empresário nas viagens, como motorista. Após uma suspeita de desvio de dinheiro nos negócios, os dois acabaram brigando em março deste ano e Cunha abriu negócio próprio com outros sócios. Os dois chegam a se jurar de morte em conversas interceptadas pela PF. A testemunha também pode ajudar a Procuradoria da República a identificar a origem do vazamento de informações sobre a Operação Xeque-Mate. O delegado Aldo Brandão, chefe da Delegacia de Crimes contra o Patrimônio da PF em Mato Grosso do Sul, teve o nome citado no caso. As interceptações telefônicas indicam também que o vazamento de informações pode ter saído de Brasília por meio de Morelli. Numa das conversas, Servo relata que o compadre de Lula havia sido avisado de problemas e era para tomar cuidado com o telefone, pois havia informações de grampos vindas de Brasília. Libertação Morelli e outros 19 investigados presos pela Operação Xeque-Mate foram soltos no início da noite de quarta-feira. "O bom senso prevaleceu, ainda que de forma tardia", declarou o advogado Milton Talzi, que defende o compadre de Lula. Morelli reclamou das condições a que foi submetido. "Nem animal é tratado desse jeito", disse. Os suspeitos estavam detidos no Presídio Federal de Campo Grande desde o dia 4, quando foi deflagrada a operação. Permanecem presos, em regime preventivo, nove suspeitos, inclusive Nilton Servo. (Com Fausto Macedo, Ricardo Brandt e João Naves)

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