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Terrenos na lua

Depois de encerrar 2015 fazendo um balanço do ano completamente distante da realidade, a presidente Dilma Rousseff inicia 2016 com projeções cujas realizações estão muito acima de suas reais possibilidades. Dilma fala como se ainda tivesse cacife suficiente para fazer e acontecer, e não fosse uma governante desprovida de apoio até entre seus aliados formais. 

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Dora Kramer

10 Janeiro 2016 | 03h00

Na entrevista que deu na última quinta-feira, a presidente vendeu terrenos na lua: decretou o fim de uma crise que ganha fôlego a cada revelação da Operação Lava Jato, prometeu reduzir uma inflação de trajetória ascendente, manifestou confiança na volta de um imposto (CPMF) repudiado no Congresso e na sociedade e, por fim, anunciou que vai “encarar” a reforma da Previdência, coisa que nem Lula conseguiu no auge da popularidade e da força política.

Isso tudo sem levar em conta o ano eleitoral em que a tendência é o aumento dos conflitos políticos e uma considerável redução na disposição dos partidos de confrontarem o eleitorado dando sustentação a medidas que não sejam do gosto popular. O PT, os movimentos sociais e os sindicatos se contrapõem abertamente a Dilma nas ações necessárias na busca do equilíbrio fiscal. 

E se os representantes do que ainda restaria de sustentação ao governo não têm intenção de contribuir para a realização das projeções presidenciais, muito menos o farão seus adversários oficiais. De onde seria conveniente que Dilma desviasse a cabeça do mundo da lua e pusesse os pés no chão. 

Pior a emenda. Na já notória entrevista em que o ministro Jaques Wagner disse que o PT “se lambuzou” no poder, ele atribuiu a voracidade transgressora ao fato de o partido não ter sido “treinado para isso”, referindo-se ao uso de velhas ferramentas da política brasileira. “Quem é treinado erra menos, talvez”, supôs. 

Dessa suposição chega-se à seguinte conclusão: na visão do ministro o problema não foram os malfeitos, mas o fato de não terem sido suficientemente bem feitos a fim de ficarem convenientemente escondidos.

Declarações feitas na mesma ocasião pelo ministro do Desenvolvimento Agrário não provocou reação alguma nos petistas que se revoltaram com as palavras de Wagner. Isso a despeito de Patrus Ananias ter apontado a necessidade de o partido fazer um “exame de consciência” diante do, segundo ele, previsto desastre eleitoral neste ano. Manifestou também seu temor de que só se elejam petistas usuários de “canais” menos ortodoxos, indicando que a prática continua. 

Meia sola. Presos nos respectivos labirintos, os presidentes da Câmara e do Senado tiveram uma ideia: ressuscitar o parlamentarismo como solução para a crise política. Eduardo Cunha examina a possibilidade de incluir na pauta alguma das várias propostas em tramitação sobre a alteração do regime e Renan Calheiros encomendou um “estudo” a respeito do tema para a assessoria jurídica.

Sem dúvida alguma, um casuísmo. De longe a pior forma de se reintroduzir no debate uma questão importante, já objeto de plebiscitos no País, cujo resultado foi favorável ao presidencialismo. Os dois realizados sob a égide das circunstâncias e não à luz de uma reflexão detalhada, aprofundada e bem explicada ao público sobre seu funcionamento e significado.

A retomada do assunto como “atalho” para a redução de poder da presidente Dilma Rousseff não faria jus às convicções parlamentaristas e imprimiriam distorção aos objetivos do tema posto ao exame dos brasileiros.

DORA KRAMER ESCREVE ÀS QUARTAS-FEIRAS E AOS DOMINGOS 

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