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André Dusek/Estadão

Teori desistiu da batina para vestir a toga na ‘bucha’

Filho de italiana com um polonês, ministro do STF é considerado um linha-dura constitucional habituado com obstáculos

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Pablo Pereira,
O Estado de S.Paulo

27 Março 2016 | 03h00

FAXINAL DOS GUEDES (SC) E PORTO ALEGRE - “Que bucha pegou o Teori”, disse na quinta-feira passada um amigo do ministro Teori Albino Zavascki, de 68 anos, do Supremo Tribunal Federal, que na semana passada enquadrou o juiz federal Sérgio Moro, chefe da Lava Jato, chamando para si o caso da investigação sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Traduzindo a expressão de espanto do interior catarinense, onde Teori nasceu e se criou, entende-se que na longa carreira de mais de 40 anos do magistrado o caso em tela é, para quem o conhece bem, de longe a decisão judicial mais impactante já adotada por ele.

Procurado em Porto Alegre, onde passa o feriado de Páscoa, o ministro não quis falar sobre o assunto. Mandou dizer, pelo interfone, somente que não estava interessado em entrevistas. Teori (pronuncia-se Teorí, embora os mais íntimos da família prefiram Têori) não é mesmo de falar muito.

Em tempos de folgas ou férias ele gosta de ficar tomando chimarrão na varanda da casa da família em Faxinal dos Guedes, a 75 quilômetros de Chapecó, em Santa Catarina, em silêncio, apreciando a bucólica paisagem do laguinho com patos e as lavouras ao fundo. É capaz de ficar horas sem dizer uma única palavra. Pelo menos até ser servida a saborosa polenta de fogão de lenha – que, para seu deleite, costuma ir à mesa com frango ao molho. Ele gosta também de ouvir boa música, como clássicos, que curte em Porto Alegre e Brasília. Mas não desdenha o som de uma “gaita” bem tocada quando está na terra natal, ainda mais se ela for dedilhada por jovens músicos filhos de vizinhos – gaita, no Sul, é o nome usado para acordeão.

Alvo. Nos últimos dias, com o clima nervoso da política brasileira, manifestantes de Porto Alegre, contrários ao PT, Lula e Dilma Rousseff, foram até o prédio onde o ministro do STF mora, no bairro Mont Serrat, zona nobre da capital gaúcha, fazer barulho e protestar contra a decisão dele de meter freios jurídicos em Moro.

Pelo menos uma faixa de protesto acusava: “Teori traidor”. Outra dizia: “Deixa o Moro trabalhar”. As faixas foram retiradas e os militantes do grupo Banda Loka Liberal, puxadores da aglomeração, foram embora da entrada do prédio. Mas permanecem acampados a poucas quadras dali em vigília “pela saída de Dilma”.

Segundo Antonio Gomatti, do movimento Vem Pra Rua, a vizinhança de Teori terá mais visitas hoje. Cavaleiros do Sangue Farrapo, grupo de 70 pessoas, vão protestar no Palácio Piratini e seguirão pela Avenida Duque de Caxias até o acampamento no Parcão, área pública que fica no bairro vizinho da casa do ministro e local dos protestos pelo impeachment na capital gaúcha.

Mas não são somente os manifestantes de Porto Alegre que criticam Teori. Entre as decisões dele apontadas como tomadas em favor de petistas, opositores de Dilma relacionam o habeas corpus que permitiu ao ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto permanecer em silêncio durante acareação com Renato Duque, ex-diretor da Petrobrás. Foi também o ministro quem decidiu que a parte do processo sobre a senadora Gleisi Hoffman (PT-PR) fosse desmembrada da Lava Jato. Ele ainda teria “barrado o rito do impeachment” estabelecido pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), além de decisões em favor de petistas no caso de penas por formação de quadrilha no mensalão.

Essa tensão em torno da decisão no STF chegou aos amigos de Teori até em Faxinal. “É preocupante”, resumiu Flávio Boff, ex-prefeito do município, que é do PSDB, mas salienta que considera Teori preparado para encarar a “bucha” político-judicial em questão.

“Teori é um orgulho para as pessoas da região”, afirmou Boff, dizendo-se contrariado com o clima de ataques ao ministro na rua e “nas redes sociais”. Para o ex-prefeito, que foi à posse do ministro no Supremo em 2012, “Teori e Moro têm de se entender para a Lava Jato continuar investigando quem quer que seja”, disse. “O Teori olha para a Constituição, é um técnico”, emendou um comerciante da cidade que pediu anonimato.

Seminarista. Tido por colegas da magistratura e do direito, amigos e familiares como um julgador rigoroso na observância da vontade do legislador, um linha-dura constitucional, enfrentar “buchas” é com ele mesmo. Filho de Pia Maria Fontana Zavascki, uma italiana de Encantado, no Rio Grande do Sul, que se casou com Severino, descendente de poloneses, Teori saiu de casa ainda menino, aos 11 anos, como lembrou dona Pia, a matriarca que vai completar 101 anos em maio. Foi estudar no seminário de Chapecó para ser padre, já ajudava na igreja local, gostava dos livros e era sempre muito concentrado nos estudos.

Deixou o sítio de 10 alqueires da família para viver no colégio religioso e só voltava nos finais de semana para Faxinal, bucólico lugar das caçadas de passarinho com amigos. Um deles, o ex-prefeito da cidade Edegar Giordani (PSD), é até hoje um fiel companheiro de churrascos, gaita e polenta quando o ministro visita os familiares. Mas no aconchego dos parentes e amigos, garantem todos, ele não toca em assuntos de togas e arrazoados.

Ainda um adolescente, Teori já teve de tomar uma decisão que mudaria o rumo de sua vida para sempre. A bucha: deixar o seminário católico. Ele abandonou a ideia de ser padre, “mas eu não queria”, confidenciou dona Pia Maria na quinta-feira passada.

Enfrentando a vontade da mãe, o jovem Teori foi então para Porto Alegre, a cerca de 500 quilômetros, onde fez vestibular para direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, formando-se em 1972. Depois foi advogado do Banco Central do Brasil, casou-se, teve três filhos – Alexandre, o médico que teve o endereço dedurado pelo cantor Lobão no Twitter na semana passada como um dos locais nos quais os militantes deveriam ir protestar, e Francisco e Liliana, advogados que dividem escritório com a mãe, a ex-procuradora do Estado Liana Maria Prehn Zavascki.

Em segundo casamento, o ministro se uniu a Maria Helena Marques de Castro, juíza federal que morreu em agosto de 2013, aos 50 anos, vítima de um câncer.

‘Retidão’. A convivência com momentos decisivos na vida vem de longe também na magistratura. Foi aprovado em concurso para juiz federal em 1979, mas somente tomou posse dez anos depois. Foi presidente do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região de 2001 a 2003, quando operou a construção da nova sede do tribunal bem na época do escândalo dos desvios de dinheiro do fórum trabalhista de São Paulo.

Amigo de constitucionalistas como Nelson Jobim, ex-ministro da Justiça e ex-membro do STF, assim como de Ellen Gracie Northfleet, também ex-ministra do Supremo, considerado por colegas do Superior Tribunal de Justiça (STJ), para onde foi em 2003, como julgador duro e reto, gestor da lei, Teori foi indicado pela presidente Dilma Rousseff para a Suprema Corte em setembro de 2012. A nomeação ocorreu em outubro e a posse em 29 de novembro do mesmo ano, na vaga de Antonio Cezar Peluso, que se aposentou.

Amigo do advogado Paulo Odone, ex-deputado do PPS e ex-presidente do Grêmio, hoje trabalhando na equipe do governador José Ivo Sartori (PMDB), o discreto Teori só não concede mesmo no futebol e se a bucha é vermelha – dos colorados do Beira-Rio. Teori gosta é do azul, tem cadeira cativa no estádio e, contam amigos, chega a se emocionar nas conquistas do tricolor gaúcho. Se Moro vestisse camisas azuis, quem sabe o caminho não ficasse mais fácil.

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