Temer evita imprensa, exalta feitos do governo e critica abuso de autoridade

Presidente participa de cerimônia em Tocantins

Carla Araújo, enviada especial, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2017 | 13h34

XAMBIOÁ - Um dia depois de pedir que aliados não deixem nada sem resposta e rebatam as acusações contra o seu governo, em sua estreia em visitas oficiais na Região Norte, o presidente Michel Temer não quis falar com a imprensa na saída de uma cerimônia de assinatura para construção da Ponte Xambioá-São Geraldo e, num discurso protocolar, disse que faria propaganda do governo, que conseguiu unir o Brasil e fez criticas ao abuso de autoridade.

Sem citar os imbróglios judiciais, Temer apenas repetiu o raciocínio que já disse outras vezes e criticou o “abuso de autoridade”. “Nós não somos autoridades, somos autoridades constituídas. A única autoridade existente no sistema é a lei, e a constituição. Então , quando se fala em abuso de autoridade, eu costumo dizer que não é abuso de autoridade contra o presidente, contra o governador, contra o deputado, é quando alguém ultrapassa o limite da lei, daí é que há violação da autoridade, uma coisa que devemos evitar no Brasil”, disse.  

 Na quarta-feira, 13, a defesa do presidente tentou suspender a atuação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que deixa o cargo no dia 17 e deve apresentar uma nova denúncia contra o presidente. O Supremo Tribunal Federal, entretanto, indeferiu o pedido por 9 a 0. 

Temer assinou o termo ao lado do governador do Estado, Marcelo Miranda (PMDB-TO), que é investigado e foi obrigado a depor no mês passado no âmbito da Operação Convergência, da Polícia Federal, que apura pagamentos indevidos em obras de infraestrutura no Estado.

Na cerimônia, bem-humorado, Temer brincou com o ministro do Planejamento, que é de Tocantins, e disse que ouviu no avião a caminho de Xambioá que a demanda pela ponte era algo de mais de 30 anos. “Mas, se o Dyogo (Oliveira) espera desde criança, já são mais de 60 anos”, brincou. “Volto para Brasília com a alma incendiada para continuar a dirigir o País com apoio do povo”, disse o presidente no fim do seu discurso.

Em sua fala, Temer usou várias analogias com a palavra ponte, disse que o mote e o fio condutor de seu discurso seria esse. “Desde que assumi o governo, vi que tínhamos que estabelecer várias pontes e a primeira foi com o Congresso Nacional”, afirmou. “Nós conseguimos com apoio do Congresso vencer uma recessão extraordinária”, completou.

Temer disse ainda que estabeleceu muitas pontes no País, “entre elas a pacificação entre os brasileiros”, e repetiu que os anos na política já o fizeram identificar os aplausos que “vêm do coração”. “De todas as pontes que eu construí, eu levo daqui a sensação que a ponte mais importante que eu vou construir é a que liga Xambioá a São Geraldo”, afirmou o presidente ressaltando que iria falar com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para ele não deixar faltar recursos para ponte.

Sem citar que a previsão de duração da obra, que deve ser iniciada apenas em janeiro, é de três anos, Temer falou que tinha o desejo de inaugurar a ponte antes do fim do seu governo, “Mas acho difícil”, ponderou.

Como tem feito em todas oportunidades, Temer exaltou os números da economia, a inflação,  os juros em queda e disse que a tendência é que eles caiam ainda mais.

OBRA 

A cidade, que tem 11.645 habitantes, fica ao norte do Estado de Tocantins. A ponte vai ligar Xambioá a São Geraldo, no Pará. O governo anunciou um investimento total na obra de R$ 132 milhões, sendo que, segundo a assessoria do Palácio do Planalto, R$ 25 milhões para dar início às obras já estarão empenhados a partir da assinatura do presidente. O Ministério dos Transportes prevê oficialmente como montante total de investimento para a ponte e entorno R$ 280 milhões.

Para que o trajeto de 1.700 metros entre as duas cidades possa ser feito por meio da ponte, entretanto, a população ainda terá que esperar ate 2021, já que a previsão é de que as obras comecem apenas em janeiro do ano que vem e durem pelo menos três anos. 

O senador Ataíde Oliveira (PSDB-TO), que é o presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da JBS, não participou da cerimônia.

PROMESSA ANTIGA 

O projeto faz parte da modernização da BR 153 e vai ser mais uma ligação entre os Estados de Tocantins e Pará. Atualmente, o trajeto é feito por caminhões e carros por meio de duas balsas que pertencem a uma mesma empresa. A obra integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e já estava prevista desde 2014, ainda no governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

Em maio daquele ano, o governo lançou um pacote de investimento para obras no valor de R$ 8 bilhões e a ponte já era uma das previstas.

A senadora Kátia Abreu, que é do Tocantins e é uma voz dissonante no partido do presidente, o PMDB, e foi afastada por 60 dias, também já usou a obra como palanque. Em setembro de 2014, durante um evento na cidade, a senadora garantiu recursos e disse que os, na época R$ 150 milhões, já estariam integrados na rubrica PAC 2.

LENDA URBANA 

A rotina da pequena Xambioá sofreu alterações por conta da esperada visita de Temer. Policiais e homens do Exército tomaram as ruas. Na quarta-feira, 13, nos arredores, helicópteros do Exército fizeram testes que chamaram a atenção da população local. Questionados sobre a expectativa da visita do presidente e da possível construção da ponte, muitos se mostraram descrentes de ver a situação mudar.

A estrada que liga Marabá, cidade que recebe voos de algumas capitais, a Xambioá é praticamente toda sem acostamento. Ao passar por alguns dos trechos com asfalto novo, um motorista presente na comitiva, que preferiu não se identificar, afirmou que a ação foi feita há pouco tempo justamente por causa de um político local. “Eles fazem assim, arrumam um trecho e esse pedaço todo ate lá não tem sinalização, nem marca pra dividir as pistas no asfalto”, disse o motorista.

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