André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Temer diz que vai examinar possível candidatura própria em junho

Presidente disse ainda que pesquisas de intenção de voto feitas nesse momento 'não querem dizer absolutamente nada'

André Ítalo Rocha e Marcelo Osakabe, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2018 | 20h36

Em entrevista exibida há pouco pela RedeTV!, o presidente Michel Temer evitou dizer se será ou não candidato a reeleição este ano e limitou-se a afirmar que vai examinar essa questão em junho, às vésperas do início do prazo para registro de candidaturas. "Podemos dizer que o meu papel hoje é fazer o melhor governo possível", declarou.

Em outro momento da entrevista, ao ser questionado sobre se o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), seria o melhor nome para defender as reformas de seu governo, Temer disse que o tucano é um "bom candidato", mas repetiu que qualquer decisão relacionada à eleição só será tomada em junho. "Só digo quem será o candidato [do meu governo] se me convidarem para uma outra entrevista em junho", disse.

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O presidente declarou também que as pesquisas de intenção de voto que são feitas hoje "não valem absolutamente nada". "Temos inúmeros exemplos de candidatos a governador e prefeito que tinham 1% ou 2% nas pesquisas e ganharam a eleição. A pesquisa que vale é a da véspera da eleição. Quem tem 1% hoje pode ter 30% no final da campanha", disse.

 

Alguns dos nomes que podem ser apoiados pelo presidente aparecem mal posicionados nas últimas pesquisas, como o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O governador Geraldo Alckmin aparece um pouco melhor, mas ainda assim longe de chegar ao segundo turno.

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"As pesquisas de hoje são um mero indicativo, nada mais do que isso", disse Temer. Além disso, ele argumentou, todos os nomes que aparecem como possíveis defensores do seu governo ainda não se apresentaram como candidatos, o que, para o presidente, tem influência na resposta dos eleitores nas pesquisas. "Fala-se que [eles vão ser candidatos], mas ninguém ainda disse que é candidato", afirmou. 

'Sem radicalismo'. Temer também defendeu que haja um candidato a sua sucessão que defenda as medidas aprovadas pelo seu governo, como o teto dos gastos, a reforma trabalhista e a reforma do ensino médio. "Vou estar de olho nisso", avisou.

Além disso, ele ressaltou que todos os políticos que são a favor dessas medidas devem se unir em torno de uma única candidatura, para que a chance de vitória seja maior. "É preciso ter um candidato que represente uma ultrafacção", disse o presidente. "Muitas candidaturas vão diversificar a opinião atenta do eleitor", alertou.

Temer disse ainda que duvida que alguma candidatura de oposição ao seu governo, seja o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou outro nome apoiado pelo petista, faça uma campanha contra as suas reformas.

"Quem for de oposição e quiser combate o nosso governo terá de dizer que é contra o teto dos gatos, que vai gastar à vontade, que é contra a reforma do ensino médio, que é contra a modernização trabalhista, contra a queda da inflação e a queda dos juros. Terá de dizer que é contra uma porção de coisas que nós fizemos. Duvido que alguém venha a assumir uma candidatura dizendo isso, porque isso se incorporou ao nosso sistema", disse.

Para o presidente, os nomes que podem defender o seu governo "estão se convencendo" de que é preciso ter uma candidatura única para enfrentar a esquerda. Disse também que será positivo para o Brasil que haja um candidato que defenda o seu governo e outra que seja contra, para simplificar a decisão do eleitor.

Temer reconheceu que Lula é um líder popular e que a última pesquisa de intenção de voto, que o mantém na liderança, mostrou que o petista, se for candidato, terá muitos votos, apesar da condenação em segunda instância pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. "São votos que se revelam hoje, mas que podem não se revelar amanhã", disse.

Sem citar o nome do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), outro pré-candidato à Presidência, Temer disse que o eleitor brasileiro "não gosta de radicalismos". "Todo e qualquer radicalismo o brasileiro sempre repudiou e vai continuar repudiando. Ele vai perguntar: qual é o programa? O que vai fazer por mim? Eu confio nele? Tem que ir com a cara do candidato", disse.

'Tratamento igualitário'.  Temer também comentou sobre a suspensão da sua aposentadoria por dois meses, em razão do fato de não ter feito a chamada prova de vida, lhe agradou por ter sido uma mostra de que foi tratado "como brasileiro", independentemente de ser o presidente da República. "É um tratamento igualitário que engrandece as instituições", disse.

Temer recebe aposentadoria por ter sido procurador do Estado de São Paulo e ficou sem receber o dinheiro nos meses de novembro e dezembro porque não fez a prova de vida, procedimento que obriga o aposentado a comparecer anualmente para provar que está vivo e continuar recebendo o benefício. "No meu caso, pode-se ver diariamente que continuo vivo", brincou o presidente.

O presidente disse que espera que esse tipo de burocracia mude, para que seja mais fácil ao aposentado provar que está vivo. "Quem sabe o meu exemplo possa servir para isso", disse. Em nota, o Palácio do Planalto explicou que Temer não fez a prova de vida por falta de tempo.

Os jornalistas que conduziram a entrevista aproveitaram o tema para perguntar sobre a saúde do presidente, que passou por três cirurgias no ano passado, uma no coração e duas na uretra. Ele garantiu que está muito bem e disse que os procedimentos cirúrgicos melhoraram muito a sua qualidade de vida. "Convivia com mal estar, mas hoje não tenho mais", afirmou.

Governo. Sem ter sido eleito pela população, Temer disse que está implementando um programa de governo que foi montado pelo PMDB ainda durante a gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, a chamada "Ponte para o futuro".

"Cheguei ao governo com um programa preestabelecido, um documento que nós produzimos como colaboração ao governo então vigente, mas que foi visto como um gesto de oposição", disse o presidente, citando que várias das medidas aprovadas durante sua gestão estavam previstas no programa, como o teto dos gastos, a reforma trabalhista e a reforma do ensino médio.

Ao comentar os baixos índices de popularidade que apresenta nas pesquisas de opinião, Temer minimizou a questão e disse que a impopularidade é "curiosa", pois "se quisesse ser popular, não faria as reformas que o Brasil precisa". Para Temer, seu governo está consertando o País porque não tem preocupação em ser popular. "A única coisa que quero é ser lembrado como presidente reformista".

Temer lembrou ainda que, apesar da sua impopularidade, não tem sido alvo de protestos. "Sempre que há algo contra o presidente, não tem uma pessoa na rua", disse. Também ressaltou que sobreviveu a duas denúncias enviadas pela procuradora-geral da República à Câmara dos Deputados. "Os meus detratores ou estão na cadeia ou estão desmoralizados", disse o presidente, sem citar nomes. Apesar disso, reconheceu que as denúncias atrapalharam o andamento da reforma da Previdência no Congresso.

O presidente repetiu que tem praticado uma espécie de semipresidencialismo no seu governo. "Não tomo o poder Legislativo como apêndice do Executivo, mas um parceiro, e isso deu certo", afirmou. "Semipresidencialismo é uma coisa que pode ser levada adiante", acrescentou, em referência à possibilidade de tornar oficial esse sistema no Brasil.

Temer voltou a falar ainda do seu projeto de aprovar no Congresso uma simplificação do sistema tributário. Sua ideia é levar isso adiante após a votação da reforma da Previdência, prevista para fevereiro. Segundo ele, com o alívio fiscal gerado pela reforma da Previdência, um dia também será possível não apenas simplificar os tributos, mas também reduzi-los. Com a simplificação, ele espera que o Brasil enfrente maior concorrência dos Estados Unidos.

Temer comentou também a Operação Lava Jato e disse que ela nem ajuda nem atrapalha o Brasil. "Cumpre a sua função", limitou-se a afirmar, reconhecendo em seguida que o País "está um pouco conflagrado". O presidente afirmou também que se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sair da disputa eleitoral para presidente, em razão da condenação em segunda instância na Justiça, isso "muda o cenário", sem dar mais detalhes. Para ele, o eleitor vai às urnas para eleger alguém que coloque o Brasil nos trilhos.

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