Temer 2

Vislumbrando a vacância da Turma do Pudim, Aécio e FHC redobraram os préstimos

O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2016 | 02h30

Há um retrofit em andamento no governo de Michel Temer. Nessa obra, sai a Turma do Pudim e entra o PSDB, ou similar. A pá de cal foi a queda de Geddel Vieira Lima – o terceiro confrade de Temer a ir ladeira abaixo, após Henrique Alves e Romero Jucá. Sobraram Eliseu Padilha no Planalto e Renan Calheiros no Senado. Por enquanto.

O remodelamento segue um traçado na qual o governo Temer 1 aparece fragilizado ao ponto de arriscar o ajuste fiscal e as reformas que o empresariado pretende ver aprovadas. Risco multiplicado pela iminente homologação da delação da Odebrecht, pela perspectiva de Renan deixar a presidência do Senado e, eventualmente, virar réu no Supremo. Na planta, o Temer 2 resolveria isso (futuro do pretérito é o único tempo cabível).

Vislumbrando a vacância da Turma do Pudim, Aécio Neves e FHC redobraram os préstimos tucanos. Quem sabe um ministro do PSDB no Planejamento, para dividir a área econômica com Henrique Meirelles. Seria um refil de confiança, que já escasseia. E, em caso de sucesso, dividiria também os créditos com o banqueiro. Tal intervenção pressupõe que a delação odebrechtniana não citará bicos compridos.

Não é só isso que a arquitetura do Temer 2 deixa de fora. Pode ser “2”, mas ainda é Temer. As perguntas enviadas por Eduardo Cunha – inclusive as vetadas pelo juiz Moro – lembraram ao presidente fatos que talvez ele preferisse esquecer. Referem-se ao preenchimento de cargos na Petrobrás, ao papel de amigos íntimos de Temer e à arrecadação para o PMDB.

Sobre esse último item, ainda há pendente a delação de um antigo senador tucano, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que disse ter encontrado com Temer em um hangar de Brasília para tratar do pagamento de propina na forma de doação eleitoral à campanha do candidato do PMDB a prefeito de São Paulo em 2012. Temer nega tudo, obviamente.

Surgiu agora, descoberto pelo jornalista Fernando Rodrigues, o contrato do carro alugado por Machado na Localiza e o nome do motorista que o teria levado ao hangar. Não prova com quem ele se encontrou, mas reforça a narrativa do delator. Junto com o questionário de Cunha, lembra que a turma era unida em torno do pudim, e que é impossível separar parte do todo.

São esses abalos e sobressaltos quase diários que criam a sensação em Brasília de que um grande terremoto está por vir. Um sismo que solaparia o condomínio do PMDB – com PSDB e tudo.

Como animais que pressentem o movimento das placas tectônicas, os congressistas estão alvoroçados, em revoada, procurando um galho para se aninhar. Na sua preparação, perpetraram aquilo que os procuradores da República chamaram de “esfacelamento das 10 medidas contra a corrupção” – outro retrofit, desta vez promovido pela Câmara na madrugada seguinte à maior tragédia do esporte brasileiro.

Na percepção popular, o que os parlamentares aprontaram na calada não se separa – não como o governo gostaria – das ações do Executivo. Acabam entrando todos no mesmo desgastado barco.

Temer está em rota similar a antecessores que, acuados, promoveram “faxinas”, na esperança de aliviar a carga e evitar o naufrágio. Têm o mesmo problema: a rota é de colisão com a opinião pública. Cedo ou tarde, a insatisfação de uma parte da população vai à rua, enfrenta spray de pimenta, bala de borracha e bomba de gás. Mas quem sai esculachado é o governante de plantão.

Aí, sobra a opção de nova reforma. Pode chamar Temer 3 – ou recomeçar a contagem, com outro nome na frente do algarismo. Mais um retrofit, outra decoração, uma nova pintura do mesmo imóvel. Reformar para não mudar.

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