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José Roberto de Toledo

16 Março 2017 | 03h00

Expungir referência a um político em um processo no meio da avalanche de pedidos de investigação da nova lista do Janot é como tarjar mamilos numa suruba. Está todo mundo vendo tudo, com direito a closes proctológicos, mas há quem ache que se salvará apagando as menções a seu nome em um pedaço de papel. Faltou apagar a memória de todos que já haviam conhecido seu conteúdo.

Cobrir palavras de preto não encobre a história que elas contam. Pior: reforça na opinião pública a ideia de que estão a lhe ocultar a verdade. A atitude não é só do expungido. A tentativa de anistiar o caixa 2 e chamar isso de reforma política revela como capos de todos os partidos encaram a Lava Jato. Como se fosse da conta só de quem frequenta a praça dos Três Poderes.

Que todos eles sejam expungidos de todos os depoimentos, extratos, planilhas e caderninhos de empreiteiros. Que até seus apelidos odebrechtianos sejam censurados. Ainda assim o expungir nunca será completo. Farão desaparecer as citações, mas, aos olhos do público, nunca se tornarão limpos, isentos, livres – que é o segundo significado de “expungir” no dicionário Houaiss.

A insistirem nesse comportamento autocentrado, congressistas, magistrados e governantes se arriscam a transferir a reforma da política para as urnas ou, mais grave, para as ruas. Na melhor das hipóteses, estão alimentando o discurso da antipolítica, aumentando o apelo dos populistas de esquerda e de direita e cultivando uma crise de representação ainda mais profunda.

Os políticos brasileiros parecem se espelhar no que aconteceu na Itália após anos de investigação das conexões mafiosas com a política: os que sobreviveram à Justiça saíram mais fortes. Mas o expurgo também abriu espaço para um empresário autofinanciado criar seu próprio partido e mandar no país por uma década.

É típico do homo sapiens crer que será ele o sobrevivente, por menores que sejam suas chances. Talvez por julgar-se mais sapiens do que o resto da espécie. Basta ver o plano para 2018 dos partidos que monopolizam a eleição presidencial desde 1994.

O PT nem cogitou uma alternativa a Lula. Se o ex-presidente se tornar inelegível pela Justiça, importa pouco sua crescente intenção de voto nas pesquisas. O partido não tem um nome sequer com apelo para substituí-lo. Ainda acredita em poste. Corre risco de rachar e uma parte apoiar Ciro Gomes – que, depois de passear por seis legendas, está no PDT.

Entre os tucanos, as bicadas estão cada vez mais selvagens. Depois do descarte, por problemas de saúde, de José Serra, sobraram dois presidenciáveis que admitem ser pré-candidatos. Apesar da lista do Janot em comum, Aécio Neves e Geraldo Alckmin têm timings diferentes. O governador paulista quer disputar prévias em 2017 e o senador mineiro quer adiar tudo para 2018.

Se o calendário não sair como ele deseja, Alckmin teria uma justificativa e tempo para mudar de partido e tentar se viabilizar como candidato a presidente por outra legenda. Todas essas estratégias tucanas e petistas ignoram o desalento crescente do eleitor com a política e a rejeição aos partidos.

A popularização de Jair Bolsonaro não se deve apenas ao grupo autoritário que achou brecha para sair do armário. Há também entre seus admiradores aqueles que simplesmente se encheram da política como ela é. Em eleições passadas, eleitores com esse perfil votaram em Cacareco e Enéas. É um grupo crescente.

Por isso, mesmo que não queiram hoje, políticos tradicionais podem acabar surfando a onda antipolítica. O grupo de Alckmin já tem seu empresário autofinanciado que é político, mas nega. Falta fundar um partido sem nome de partido. Tipo “Acelera Brasil”.

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