Suíça quer lutar contra corrupção, não importa quem seja o suspeito, diz presidente do país

Berna congelou dados de Eduardo Cunha e possui cerca de mais cem contas bloqueadas que estão sendo investigadas

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2015 | 08h56

GENEBRA - A presidente da Suíça, Simonetta Sommaruga , alerta: Berna vai ajudar o Ministério Público brasileiro a lutar contra a corrupção, seja quem for a pessoa sob suspeita ou o tamanho da empresa envolvida.

Em resposta ao Estado sobre a ação de Berna em relação ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, Sommaruga preferiu não entrar em detalhes. Mas garante que o cargo de uma pessoa não influencia. 

"Queremos lutar contra corrupção, independente de quem sejam a pessoa ou empresa sob suspeita ", afirmou Sommaruga, que acumula o cargo de ministra da Justiça. Ela insiste que não pode entrar em detalhes sobre a investigação, por estar sendo liderada pelo Ministério Público da Suíça. 

Berna congelou no início do ano mais de US$ 400 milhões em contas relacionadas com a Lava Jato. Na semana passada, o Ministério Público da Suíça transferiu ao Brasil a investigação relacionada com Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados. Os suíços encontraram quatro contas em seu nome no banco Julius Baer e a suspeita é de que eram alimentadas por um esquema envolvendo a Petrobras e projetos na África. Cerca de US$ 2,3 milhões foram congelados. 

Em sua edição desta segunda-feira, o Estado revelou que dados sobre mais cem contas bloqueadas podem em breve seguir para o Brasil. 

Para pessoas próximas à investigação, o processo e envio de dados ao Brasil vai continuar em 2016. No mês que vem, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deve fazer uma viagem para Berna, no que acarretaria em novos anúncios sobre os resultados da cooperação entre os dois Ministérios Públicos. 

Os suíços iniciaram a investigação sobre os ex-diretores da Petrobrás ainda no final de 2013. Uma intensa colaboração foi iniciada com o Brasil e centenas de páginas de extratos bancários e informações começaram a ser enviadas ao País. Em novembro de 2014, os procuradores Orlando Martello, Deltan Dallagnol e Eduardo Pelella estiveram na Suíça à procura de documentos para as investigações da Operação Lava Jato. Para pessoas próximas ao caso, foi a capacidade de confiscar as movimentações de milhões de dólares nas principais praças financeiras suíças que permitiu a Lava Jato a caminhar. 

Do lado do Brasil, a delação premiada de diferentes atores também alimentou a busca na Suíça. A cada nova revelação, os investigadores brasileiros acionavam os suíços que, então, ampliavam as buscas. Fontes do MP do país europeu confirmaram ao Estado que a dimensão da investigação ganhou tal dimensão que o "dossiê Petrobrás" foi dividido em mais de uma dezena de subcasos. 

Apuração. Para os suíços, a constatação é de que a onda de revelações não vai se secar por enquanto. Se muitos dos nomes dos envolvidos já são conhecidos, os investigadores garantem que mais de cem contas já bloqueadas ainda não tiveram seus detalhes revelados e que a apuração ainda continua para traçar a origem do dinheiro e seu destino final. Segundo as investigações, diversos operadores criaram uma rede complexa de empresas de fachada, fundos abertos em paraísos fiscais e camuflaram seus nomes para dificultar a busca de informações. 

Ainda assim, uma parte substancial desse volume inicial de dinheiro congelado já começou a ser devolvido ao País - valores em contas de suspeitos que concordaram em fechar acordos de delação premiada. Até o momento, cerca de R$ 390 milhões foram repatriados ao Brasil, incluindo cerca de R$ 189 milhões pertencentes ao ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco e outros R$ 89 milhões de Paulo Roberto Costa (ex-diretor de Abastecimento). No total, porém, os suíços confiscaram cerca de US$ 400 milhões (R$ 1,5 bilhão, ainda que nem todo o dinheiro tenha o direito de retornar ao Brasil, mesmo com as condenações).

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