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Substituto de Cardozo na Justiça tem poder para indicar diretor-geral da PF

Escolha de comando da instituição é prerrogativa de titular do ministério; atual número 1 da Polícia Federal, Leandro Daiello foi nomeado em 2011

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Andreza Matais,
O Estado de S. Paulo

29 Fevereiro 2016 | 13h54

BRASÍLIA - A saída de José Eduardo Cardozo do Ministério da Justiça abre espaço também para mudanças no comando da Polícia Federal. A direção-geral da institutição é uma função diretamente subordinada ao titular da pasta - o diretor-geral da PF atua como um dos secretários do ministro. O atual número 1 da Polícia Federal, Leandro Daiello, ocupa o cargo desde 2011 por uma escolha de Cardozo. O Estado apurou que o Palácio do Planalto garantiu a Daiello a permanência dele no cargo neste momento até para evitar especulações de que haverá interferência do governo nos trabalhos da instituição. O pedido para que ele permanecesse partiu do Planalto e não do ministro Cardozo. Daiello aceitou continuar a princípio  por considerar que não é o momento apropriado para deixar a função.

Na gestão de Daiello, a PF deflagrou operações que atingiram o PT e seus dirigentes, como a Lava Jato, que investiga esquema de corrupção na Petrobrás; a Zelotes, que apura suposta vinculação de repasses a um filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com edição de medidas provisórias; e a Acrônimo, que investiga o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), por suposto recebimento de propina em troca de financiamento no BNDES. O número de ações cresceu substancialmente de 2011 para cá, quando Daiello implementou método para agilizar as operações. O número saltou de 252, em 2010 para 516 no ano passado.

Também foi na gestão de Daiello que foram deflagradas operações como a Porto Seguro, que teve como alvo Rosemary Noronha, então chefe de gabinete do escritório da presidência da República em São Paulo e amiga íntima do ex-presidente Lula; e a Monte Carlo, que investigou esquema envolvendo o empresário de jogos Carlinhos Cachoeira e atingiu vários políticos.

Com atuação discreta, Daiello não costuma se manifestar publicamente a respeito das investigações. Quebrou o silêncio no ano passado em entrevista ao Estado no momento em que Cardozo também ameaçava deixar o governo pelas pressões que vinha sofrendo do PT. O próprio Daiello também é alvo de ataques dos petistas que acusam a PF de perseguir o partido e seus dirigentes. Um episódio marcou a passagem do diretor da PF. Ele aguardava na ante-sala para ser recebido pelo ministro Cardozo quando um grupo de deputados no mesmo local conversava sobre o assunto que iriam tratar com o ministro na audiência. Eles combinavam pedir a saída de Daiello sem saber que o diretor estava na mesma sala acompanhando como um anônimo a conversa.

Na entrevista ao Estado, Daiello afirmou que uma eventual troca do ministro ou do diretor da PF não alteraria em nada o trabalho que está sendo realizado. “Se o ministro vai ou não ficar, é uma questão que afeta o Ministério da Justiça e a Presidência, não a PF. A PF é uma instituição sólida, seguirá sua vida com Cardozo ou sem Cardozo, com Daiello ou sem Daiello. Nós temos uma estrutura que se consolidou nos últimos anos, uma doutrina de polícia, de investigação, e uma cultura de polícia de Estado e de polícia legalista”, afirmou, em julho do ano passado. Para continuar: “A PF é controlada pela lei. Nós cumprimos a lei e ninguém vai aceitar ingerência política aqui. Pressionar o ministro da Justiça para influenciar, evitar, coibir qualquer ação da PF não é uma possibilidade. Pensar nesse sentido é premeditar o cometimento de um crime.”

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