Suape é símbolo do avanço do Nordeste na Era Lula

Complexo industrial portuário é considerado chave no desenvolvimento de Pernambuco, mas provoca polêmicas ambientais.

Paulo Cabral, BBC

31 Dezembro 2010 | 10h00

Investimento no porto de Suape é considerado chave para o desenvolvimento do Nordeste

A Ilha de Tatuoca, no litoral sul de Pernambuco, não é mais uma ilha de verdade. Os manguezais que a separavam do continente foram aterrados por conta da expansão do Complexo Industrial Portuário de Suape e agora dá pra chegar de carro, por uma estradinha de terra, até a vila de pescadores.

São cerca de 50 famílias vivendo em casas de taipa, cercadas por árvores frutíferas e passarinhos, mas sem água encanada. A eletricidade chegou há apenas três anos.

Dentro da casa de taipa de José Gustavo a geladeira novinha, de aço inox, parece enorme e um tanto deslocada. "Quando chove pinga água e lama pra todo lado", reclama.

A casa não tem divisórias internas: é um guarda-roupa (também novo) que separa sala e quarto. De um lado, o velho colchão e do outro lado, mais algumas das aquisições recentes da família: uma televisão, um aparelho de DVD e um videogame para o filho de 2 anos de idade.

Gustavo comprou tudo a prestações ao longo dos últimos dois anos, desde que conseguiu no Estaleiro Atlântico Sul - parte do complexo de Suape - seu primeiro emprego com carteira assinada, aos 23 anos de idade, depois de uma vida na pesca de caranguejo e na agricultura de subsistência.

Para conseguir o emprego, Gustavo - e outros 50 moradores da ilha - foram treinados pelo estaleiro. "Estou feliz com o jeito como minha vida está mudando. Acho que vou poder dar ao meu filho muito mais do que eu tive," diz o operador de maçarico.

Impulso econômico

O investimento na expansão de Suape - porto inaugurado em 1979 - é considerado uma das peças fundamentais nas estratégias de desenvolvimento de Pernambuco e do Nordeste.

Além do forte impulso à economia local, Suape oferecerá uma saída para a crescente produção do nordeste.

A economia brasileira deverá crescer 7% em 2010, enquanto no Nordeste a expansão deve chegar a 9,5%. Pernambuco vai liderar o crescimento, com cerca de 11%.

"O presidente Lula da Silva colocou o Nordeste do Brasil de volta no mapa do desenvolvimento e os investidores encontraram a região. O nordeste não é mais visto como um problema para o Brasil, mas como parte da solução para o país ", diz o presidente do porto de Pernambuco e secretário estadual de Desenvolvimento, Fernando Bezerra Coelho.

Atualmente há mais de cem empresas no distrito industrial - com área de 140 mil metros quadrados - e outras 35 estão em instalação. A Petrobras encabeça a lista das empresas se instalando no complexo, com investimento US$ 13 bilhões na construção de uma refinaria. Cerca de 14 mil operários estão trabalhando nas obras de construção civil. "Suape movimentou 15 milhões de toneladas de carga no ano passado. Em 2015, quando os novos terminais e a ferrovia Transnordestina estiverem prontos, o porto ira estar movimentar 45 milhões de toneladas de carga por ano. Nossas projeções indicam que vamos chegar a 75 milhões de toneladas até 2030 ", diz Coelho.

Indústria naval Até agora, o maior investimento produtivo em Suape é do estaleiro Atlântico Sul - uma parceria de grandes empreiteiras brasileiras e sul-coreanas - que investiu US$ 1 bilhão para desenvolver, a partir do zero, um centro de indústria naval na região. "Sabíamos que seria difícil criar um projeto tão grande em uma região com infraestrutura muito deficiente, mas decidimos que o potencial deste local valeria a pena", explicou o diretor administrativo do Atlântico Sul, Gerson Miguel. "Nosso principal problema é a falta de mão de obra qualificada para a indústria naval." Para resolver o problema, o estaleiro teve de criar suas próprias escolas técnicas para ser capaz de cumprir seu compromisso de contratar mais de metade da mão de obra total de cinco mil pessoas nas cidades da região. Os estudantes têm de suar muito, por até nove meses, sob o pesado equipamento de segurança - tão essenciais como desconfortáveis no calor do litoral nordestino - para aprender uma profissão do mundo da construção naval. Josenilda Maria da Silva fez um curso de soldadora na escola técnica e após três anos de trabalho na construção do petroleiro João Cândido - o primeiro construído no estaleiro - ela foi escolhida para ser a madrinha do navio. "Eu estava sem trabalho tinha cinco anos quando consegui o treinamento e o emprego aqui. Agora eu ganho mais dinheiro do que meu marido, que trabalha de (motorista de) moto-táxi", diz a operária. "Quero continuar estudando para me tornar um inspetora de solda.

Impacto ambiental

Mas entre os ambientalistas há preocupação com os impactos da instalação de um projeto com as dimensões de Suape em uma delicada área de mangue. "Os manguezais são uma parte essencial do ecossistema, porque eles funcionam como berçários de vida marinha", diz a urbanista e ambientalista Fátima Furtado, da Universidade Federal de Pernambuco. A professora concorda que a expansão de Suape é importante para o desenvolvimento do Nordeste, mas acredita que mais poderia ter sido feito para a conservação dos mangues. "A decisão das autoridades foi a de concentrar porto e complexo industrial numa mesma área, porque isso obviamente reduz muito os custos de logística. Mas de um ponto de vista ambiental poderia haver menos impacto se o distrito industrial ficasse mais distante dos mangues", diz o ambientalista. Mas o secretário Fernando Bezerra Coelho afirma que as autoridades estão atentas aos impactos ambientais de Suape e fazendo tudo para mitigá-los. "Todas as licenças ambientais e planos de compensação foram devidamente apresentados e aprovados", diz Bezerra. Mas ele observa que o Estado não pode esquecer de sua estratégia de desenvolvimento. A Ilha de Tatuoca, por exemplo, está prestes a desaparecer para sempre, para dar espaço para a expansão do estaleiro Atlântico Sul. A realocação das famílias que lá vivem e as indenizações que serão pagas ainda estão em discussão.

Caranguejo

A empresa contratou 50 moradores da Ilha - como José Gustavo - mas muitos outros ainda vivem da pesca do caranguejo tradicional. "Eu não me importo em me mudar mas eu sei que muitas pessoas aqui estão preocupadas. Eles não sabem o que fazer ", diz ele. O pescador Ricardo Ferreira está mais preocupado com as mudanças que animado com elas. "Voltei para Tatuoca recentemente depois de um tempo longe. Agora está bem mais difícil pegar caranguejo." "Eu vejo que a ilha melhorou, que agora tem até eletricidade, mas pra quem vive do mar que nem eu piorou muito. O jeito vai ser tentar um emprego em Suape também." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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