Adriana Carranca/AE
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'Somos um povo ingovernável', diz ex-líder do Taleban

Em entrevista ao 'Estado', Sayed Mohamed Akbar Agha diz que figura de Bin Laden ainda inspira militantes

Adriana Carranca, enviada especial a Cabul - O Estado de S.Paulo,

01 Maio 2012 | 15h45

Sayed Mohamed Akbar Agha tem saudades do velho Osama bin Laden. Não do homem de corpo frágil enrolado em um cobertor vendo TV, escondido em Abbottabad, no Paquistão, onde viveu os últimos dias antes de ser morto em uma operação americana há um ano, mas do jovem jihadista destemido que deixou a vida confortável de milionário na Arábia Saudita para se juntar aos mujahedin afegãos contra os soviéticos nos anos 80.

"Nós o conhecíamos como o príncipe saudita", disse ao Estado o ex-comandante do Taleban, que vive em prisão domiciliar em Cabul. Agha ainda tem terras em Kandahar, berço do Taleban e onde diz ter lutado lado a lado com Bin Laden. "Estávamos juntos no front em Kandahar e lutamos contra os soviéticos até o último homem".

'Vivo na mente'

Após a vitória sobre os soviéticos, Bin Laden vislumbrou um mundo islâmico unido contra o Ocidente. Nesse sentido, sua morte não mudou em nada a guerra no Afeganistão. "Ele continua vivo na mente dos que se sentem oprimidos", afirma Agha. "É o grande jihadista de nossos tempos."

Um ano após a morte de Bin Laden, o secretário americano de Defesa, Leon Panetta, diz que o país está mais seguro. A declaração pode ter peso político nos EUA, mas não no Afeganistão, onde a insurgência continua fora de controle e a guerra parece não ter fim. "Os EUA não têm outra alternativa a não ser negociar", diz Agha.

'Não preciso de emprego'

Mesmo depois de morto, Bin Laden ainda encoraja militantes islâmicos a agir por conta própria em várias partes do mundo. Seus seguidores são acusados de ataques na Nigéria, organizados pelo grupo Boko Haram, no Iraque e no Iêmen. Na Síria e no Egito, teme-se que a Primavera Árabe leve ao poder grupos extremistas em sintonia com a ideologia de Bin Laden.

No Afeganistão, Agha diz que não quer se associar ao governo, como outros ex-comandantes do Taleban fizeram, pois isso acabaria com sua reputação. "Há pessoas que me respeitam. Se eu me associar a esse governo, elas param de me respeitar. Não preciso de emprego", diz.

Sua influência, no entanto, é visível. Agha diz que o mulá Omar está vivo e continua "atravessando a fronteira entre Paquistão e Afeganistão quando bem entende". Assim como outros líderes de médio escalão do Taleban, ele espera a conclusão dos acontecimentos para saber se as tropas estrangeiras vão ou não sair do país para, então, decidir de que lado ficará.

No fim, um homem carregando uma Kalashnikov entra na sala e o avisa a respeito de um novo compromisso. Entrevista encerrada. "Se você olha para a história", lembra Agha antes de sair, "verá que os britânicos tentaram, os soviéticos também e, agora, os americanos, mas nenhum deles venceu nesse território. Nós somos um povo ingovernável".

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