Sob chuva, avião de Campos arremete e cai no meio de casas

Sob chuva, avião de Campos arremete e cai no meio de casas

Aeronave ficou destruída; testemunhas afirmam que avião estava em chamas antes da queda, o que não foi confirmado pelas autoridades

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2014 | 23h45

SANTOS - O avião que transportava Eduardo Campos e mais seis pessoas caiu às 10h desta quarta-feira, 13, no bairro do Boqueirão, em Santos, no litoral paulista. Segundo testemunhas, a aeronave vinha em baixa altitude desde a Praça Mauá, no centro da cidade, depois de tentar pousar na Base Aérea de Santos, que fica no Guarujá, e arremeter. Chovia fraco no momento do acidente.

O Cessna 560 XL, prefixo PR-AFA caiu no meio do quarteirão de uma vila residencial, cercada de prédios. De acordo com as equipes de socorro, partes da aeronave atingiram 13 imóveis - uma casa ficou totalmente destruída. “Não foi igual ao acidente da TAM (em 2007, em São Paulo), em que havia corpos carbonizados perto do avião. Nesse acidente não dá para achar nem as asas do avião. Foi difícil saber onde estavam os pedaços dos corpos”, disse na tarde desta quarta-feira o capitão do Corpo de Bombeiros Marcos Palumbo.

 

O avião decolou 8 minutos antes do previsto do Aeroporto Santos Dumont, no Rio. O plano de voo apresentado por um dos pilotos à Sala de Informações Aeroportuárias, às 22h26 de terça-feira, previa que o jato partiria às 9h29. O voo decolou às 9h21, com previsão de chegada à Base Aérea de Santos por volta das 10h. Campos tinha compromisso de campanha em Santos e no Guarujá.

A Infraero, por meio de sua assessoria, informou que essas pequenas variações de horário são rotineiras. Funcionários do aeroporto contaram que Campos, os assessores Carlos Percol e Pedro Valadares, o fotógrafo Alexandre Severo e o cinegrafista Marcelo Lyra não circularam pelo aeroporto. Seguiram direto para a sala vip da Líder Aviação, empresa contratada para fazer as operações aeroportuárias (embarque dos passageiros e envio de bagagens). 

A aeronave era conduzida por Geraldo da Cunha e Marcos Martins, ambos pilotos contratados pela coordenação de campanha do PSB.

Todas as licenças operacionais da aeronave estavam regularizadas, segundo a agência. A última inspeção foi feita em janeiro, com validade até fevereiro de 2015. Também o certificado de aeronavegabilidade, que confirma as condições operacionais do avião, estava válido até 2017. 

Em terra. Dez pessoas ficaram feridas em terra. “Elas inalaram gás ou tiveram ferimentos em decorrência do calor do acidente”, disse o coordenador da Defesa Civil de Santos, Daniel Onias. Nenhuma corria risco de morrer.

Testemunhas relataram um forte barulho de aceleração de turbina instantes antes da queda. Moradores da Rua Alexandre Herculano, uma das que cercam o quarteirão do acidente, afirmaram ainda terem visto o avião em chamas antes de cair - informação não confirmada pelas autoridades.

“Eu tinha acabado de chegar em casa. Ouvi um tremendo estrondo e um tranco na janela, imagino que tenha sido o golpe de ar da explosão. Desci do meu prédio correndo. Começamos a ajudar. Quando percebi, já estava no local da queda. Foi arrasador”, contou o estivador Donizete Maguila Júnior, de 37 anos.

De acordo com o delegado Aldo Galiano, o piloto do Cessna estava consciente no momento do acidente. Por isso, ele acredita que a aeronave explodiu em solo. Segundo Galiano, é provável que o piloto tenha procurado uma área aberta para pousar.

O voo baixo da aeronave já havia chamado a atenção de moradores, que viram o avião dar um rasante próximo do local do acidente. “Poucos instantes depois (do rasante), alguém falou que o avião tinha caído na academia Mahatma. Gelei. Minha mãe mora nos fundos. Cheguei e ainda havia muito fogo, mas ela estava bem”, afirma o empresário Fabrício Rodrigues Simões, de 39 anos.

Quarenta e cinco bombeiros trabalharam no combate às chamas, em um raio de 500 metros. O fogo só foi extinto por volta do meio-dia. No início da noite, o capitão Marcos Palumbo, dos bombeiros, disse ter descoberto a cabine da aeronave, enterrada cerca de 3 metros abaixo da terra. Os bombeiros trabalhavam para remover os destroços que caíram sobre o buraco, na esperança de achar mais fragmentos de corpos. Não havia previsão para o término dos trabalhos. / COLABORARAM ANTONIO PITA, CLARISSA THOMÉ, FABIO LEITE e DIEGO ZANCHETTA

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'Pedaços de avião ficaram no meu quintal', diz moradora de Santos

Vizinhos relatam como foi o momento do acidente; moradores terão de passar a noite fora para a conclusão da perícia

Bruno Ribeiro, Fabio Leite e Zuleide de Barros, O Estado de S. Paulo

14 Agosto 2014 | 00h00

SANTOS - Com um terço nas mãos e ainda assustada com o que tinha presenciado, a psicóloga Maria Ester Petimatti contou que estava em sua casa quando um forte estrondo fez tudo ao redor tremer. “Os lustres balançaram, alguma coisa caiu, fazendo muito barulho. Me assustei demais”, afirmou nesta quarta-feira, 13, momentos depois do acidente, próximo de sua casa, no bairro do Boqueirão, em Santos.

Religiosa, a primeira reação dela foi se abaixar. Neste momento, afirmou, a porta da casa voou em sua direção, arrancada pelo impacto da explosão do avião. “Se estivesse em pé, teria morrido.”

A casa onde a psicóloga vive com o pai foi uma das mais danificadas pelo acidente - no total, ao menos 13 imóveis foram atingidos pelos destroços.

“Não vi nada, não ouvi barulho de turbina, avião caindo, nada. Só depois entendi o que tinha acontecido”, disse Maria. Ela foi impedida de voltar para casa durante os trabalhos dos peritos, que duraram todo o dia e não tinham horário para terminar. “Muita gente veio aqui oferecer ajuda, lugar para ficar, tomar banho, comer. Ainda vamos ver como vão ficar as coisas. Mas estamos bem.”

Segundo o prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), seis imóveis vizinhos do acidente, os mais atingidos pelos destroços, continuarão interditados pela Defesa Civil. Cerca de 50 moradores deveriam passar a noite fora, para que o trabalho da perícia no local não fosse prejudicado.

A funcionária pública Flávia Capp, de 49 anos, estava em casa, na Rua Alexandre Herculano, quando ouviu forte barulho e olhou para o céu. “Parecia que o avião estava fazendo uma curva. Mas, de repente, caiu”, contou ela.

Flávia especula se o avião estava com problemas e teria procurado a praia para tentar aterrissar. “Quando liguei para contar para o meu filho, que trabalha no centro, ele disse que o avião tinha passado por lá também, bem baixo”, afirmou. “Como ele vinha do outro lado da cidade, acho que o piloto estava tentando pousar na praia.”

A funcionária pública descreveu o impacto como a “explosão de um míssil”. Conta que, depois, uma onda de impacto pressionou vidros por toda a rua. “Tem fuligem e pedaço de coisa queimada no meio do meu quintal. Foi uma explosão muito forte. Só isso nos teria deixado em choque. Só bem depois é que disseram quem estava dentro”, disse.

Funcionários de uma escola próxima do local da queda do avião também relataram um grande estrondo após o acidente. A cozinheira Roseli Andréia de Lima contou que teve de tomar um calmante para se controlar. Logo depois da tragédia, as funcionárias da escola avisaram os pais das crianças sobre a ocorrência e pediram para que fossem buscar seus filhos, porque ainda havia o risco de eventuais explosões.

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Adriana Ferraz, Fábio Brandt, O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2014 | 22h45

Os pilotos do Cessna prefixo PR-AFA decidiram pousar no limite da visibilidade operacional determinado pelas normas da Aeronáutica para a operação da Base Aérea de Santos, em Guarujá, no litoral paulista. Documentos obtidos pelo Estado mostram a evolução meteorológica na manhã de ontem na região da base – a visibilidade chegou a ficar em 800 pés (cerca de 260 metros), quando a regra admite pousos naquela pista com um mínimo de 700 pés (233 metros) de visibilidade. 

A carta de aproximação por instrumentos para a pista 35 da base aérea demonstra ainda que, em caso de arremetida, o piloto devia fazer uma curva para a esquerda – o que ocorreu com o avião que transportava o candidato à Presidência pelo PSB, Eduardo Campos.

Os boletins meteorológicos de Santos são registrados na Redemet, o site meteorológico do Comando da Aeronáutica. Eles registram que a visibilidade ontem na região da base aérea foi reduzida de forma constante das 6 horas ao meio-dia. O vento vinha de nordeste e norte, com baixa intensidade. Havia restrição de visibilidade e chuva fraca. As nuvens estavam perto de 2 mil pés (660 metros)

A partir das 9 horas até o meio-dia, a visibilidade piorou. Às 10 horas, quando a aeronave caiu, o teto estava perto de 800 pés. A baixa visibilidade levou os pilotos a optar por arremeter o avião, conforme avisado, via rádio, ao controle da pista.

Segundo informações obtidas pelo Estado, o piloto do avião entrou em contato com a estação rádio da base aérea informando que ia fazer procedimento de pouso. Em seguida, o piloto se comunicou novamente com a base e avisou que não tinha encontrado visualmente a pista de pouso e arremeteu.

A gravação mostra um dos pilotos do Cessna (ainda não se sabe qual deles) com voz calma. Ele usa linguagem técnica de aviação para informar que iria realizar o “bloqueio de Santos e o rebloqueio”, o que indica o plano de arremeter e, em seguida, tentar pousar novamente na pista 35. De acordo com a carta com as regras da pista, o procedimento de pouso deve ser iniciado com 4 mil pés, via instrumentos. A partir dos 700 pés, caso não haja visualização direta, a ordem é arremeter.

“Foi o que os pilotos fizeram, e na direção certa, pela esquerda, conforme a determinação”, disse o comandante Humberto Branco, vice-presidente da Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves (Appa).

A manobra foi feita, segundo os boletins meteorológicos, com clima desfavorável. Além da névoa úmida, que provocou o teto baixo para pouso, ventava na região. “O tempo não estava bom, mas ainda era considerado praticável para a execução do procedimento”, completa Branco. Após a arremetida, não houve mais comunicação e ocorreu o choque.

Caixas-pretas. O gravador de voz do Cessna 560XL, prefixo PR-AFA foi localizada por volta das 12 horas e está em mãos da equipe do Centro Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, Ceripa, de São Paulo. O gravador de voz traz os 30 últimos minutos de conversa na cabine, assim como as conversas com o funcionário de terra da base aérea. 

Não há prazo para conclusão dos trabalhos dos peritos. Eles querem saber se o piloto seguiu as instruções da torre de controle ao arremeter e se os equipamentos responderam aos comandos do piloto. Também precisará ficar claro se o avião estava em chamas antes de cair, como afirmam testemunhas.

Os corpos das vítimas seguiram ontem para o Instituto Médico-Legal de São Paulo. Segundo o delegado Aldo Galiano Junior, diretor da Polícia Civil em Santos, 90% dos restos mortais das vítimas já foram levados para São Paulo. De acordo com ele, em até três dias os corpos serão liberados. As Polícias Civil e Federal abriram inquéritos. / COLABORARAM BRUNO RIBEIRO e WLADIMIR D'ANDRADE

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ROBERTO GODOY, O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2014 | 23h16

A tela do computador da sala de operações da Base Aérea de Santos indicava que o dia seria “chuvoso e nublado”, com a temperatura oscilando entre 13 e 20 graus. Na segunda resolução, a informação adicional – nevoeiro súbito, vento forte. Nada, porém, capaz de impedir as operações de pouso e decolagem. Passava pouco das 9 horas. 

O experiente piloto Geraldo Cunha, ex-comandante comercial da TAM, tinha sob comando um notável jato executivo de até 12 lugares – o modelo usado por Eduardo Campos era configurado para nove passageiros, com mais um assento dobrável, adicional –, o Cessna 560 XL, Citation. No mundo há cerca de 580 unidades desse bimotor de médio porte.

Robusto, com poderosos motores Pratt & Whitney 500 e recursos eletrônicos de última geração, ele podia cobrir 3.900 quilômetros sem escalas na velocidade de cruzeiro de 850 km/h. A Força Aérea Brasileira emprega versões eletrônicas do Citation para calibragem de seus sistemas de orientação do tráfego.

Segundo dois oficiais da aviação militar ouvidos pelo Estado, o comandante Cunha tomou a decisão de abortar o pouso e de arremeter, provavelmente ao não localizar visualmente o eixo da pista de 1.400 metros, talvez em meio à chuva fina e à névoa rasteira. O que houve depois, acreditam os militares, será conhecido só por meio da investigação e da perícia.

A hipótese de que tenha havido esforço excessivo das turbinas, exigidas ao máximo durante a arremetida, era considerada pouco provável entre prestadores de serviços de manutenção de aeronaves da mesma classe do Citation. O fenômeno, raro, ocorre quando o motor supera seu limite e perde potência, em vez de ganhar força de empuxo.

Ontem mesmo o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos (Cenipa) começou a trabalhar. O levantamento é protegido por sigilo de Justiça. Nos termos da lei assinada pela presidente Dilma Rousseff, a polícia e o Ministério Público precisam de autorização judicial para ter acesso ao processo, ouvindo, antes, o próprio Cenipa. O cuidado é justificado como forma de preservar a investigação da causa e de aprender com ela, sem necessariamente apurar as responsabilidades. 

Registros. O PR-AFA tinha caixas-pretas. O dispositivo acumula dados em uma espécie de disco rígido. O sistema terá armazenado a conversa entre os pilotos e os contatos com os controladores. Informações a respeito dos freios, asas, fuselagem, dos motores e dos movimentos realizados são reunidos do Módulo de Captação. A unidade resiste a impactos de 15 toneladas.

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