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1964

SNI espionou jantar na estância de Jango no Uruguai

Marcelo de Moraes - O Estado de S.Paulo

28 Março 2014 | 15h 51

Relatório do Serviço Nacional de Informações, em 1975, falava dos contatos do ex-presidente para voltar ao Brasil

BRASÍLIA - Documentos secretos do Serviço Nacional de Informações (SNI), guardados no Arquivo Nacional, em Brasília, datados de março de 1975, mostram que o ex-presidente João Goulart estava bem menos isolado politicamente do que poderia se pensar. Além de sondar o terreno político para tentar sua anistia e o consequente retorno do exílio uruguaio para o Brasil - o que desejava intensamente -, ele também discutia a possibilidade de formação de um terceiro partido, como alternativa para Arena e MDB.

O informe produzido pela agência central do SNI, datado de 15 de abril de 1975, descreve as conversas e encontros políticos que o ex-presidente, deposto pelos militares em 1964, vinha tendo, especialmente na sua estância em Maldonado, no Uruguai.

Além de monitorar os passos de Jango no Uruguai, os agentes do SNI se infiltraram na sua festa de aniversário, em março de 1975, aproveitando a presença de muitas pessoas na casa. Segundo as estimativas do SNI, havia "mais ou menos 100 pessoas presentes".

Os informes, produzidos pelo SNI e classificados como confidenciais, descrevem vários encontros na casa de Jango durante o início de 1975. Dois temas foram sempre constantes: a questão da anistia e a discussão do terceiro partido, que serviria para reunir antigos companheiros trabalhistas do PTB. Segundo o relato do SNI, Jango não estava, naquele momento, "com perspectivas de volta a curto prazo ao Brasil, apesar de continuar nutrindo esperanças nesse sentido e desenvolvendo esforços para conseguir essa possibilidade". Na observação feita pelo documento secreto, Jango tinha "impressões pessimistas" em relação à anistia.

O SNI informa que "a cobertura em nível de governo para o retorno do Dr. João Goulart está sendo buscada por diversos amigos seus em várias áreas". Segundo o documento, o contato mais surpreendente teria sido feito por seu amigo Orpheu Santos Salles, que teria conversado com o general Golbery do Couto e Silva, ministro-chefe da Casa Civil, e com o então ministro da Educação, Ney Braga, sobre o assunto.

Impaciência. Apesar dessas movimentações, o relato mostra que o ex-presidente estava impaciente com a falta de perspectivas pela anistia. "Ainda agora em Maldonado (Jango) indagou: ‘Até quando a situação brasileira estará indefinida em relação à volta dos exilados? O que está impedindo a decisão governamental? Quem levanta o impedimento’", cita o arquivo, como sendo afirmações feitas pelo ex-presidente.

Sobre o terceiro partido, nem mesmo seus interlocutores conseguiam consenso acerca do melhor formato. O arquivo narra as reuniões do grupo com Jango e diz que "Orpheu desenvolveu uma tese de que o MDB oferecia poucas perspectivas na vida política brasileira". "A Arena, na sua interpretação, vive sob o impacto dos resultados do último pleito e sem condições de se recuperar a curto prazo, defrontando-se com um processo de esvaziamento."

Assim, continua a narrativa do relatório, "a solução política seria a criação de um terceiro partido, reaglutinando as antigas áreas do trabalhismo dentro da alternativa anticomunista, como preconizara Getúlio Vargas ao fundar em 1945 o PTB". Nessa conversa, feita na noite de 28 de fevereiro, Orpheu teria dito a Jango que apresentou as ideias a Golbery e Ney Braga. Segundo relato do SNI, Orpheu disse a Jango entender que "para conquistar a possibilidade de se criar um terceiro partido ter-se-ia que adotar uma posição de adesão ao sistema, apoio às Forças Armadas e não revolver o passado".

Na noite de 2 de março, nova rodada de conversas com Jango, com a defesa de alguns da criação de um partido independente e de centro "sem estar submetido aos extremismos da esquerda e de direita, que venha congregar as antigas áreas trabalhistas e getulistas, os trabalhadores, servidores públicos e estudantes. E também sem se constituir num movimento ostensivo e frontal contra o sistema".

Sem consenso, a proposta não avançou. O ex-presidente acabou morrendo em 1976 sem retornar do exílio, quando o plano de criação do terceiro partido já tinha congelado por falta de consenso.

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