Domício Pinheiro/Estadão - 19/11/63
Domício Pinheiro/Estadão - 19/11/63

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

23 Março 2018 | 05h00

O expurgo de professores e alunos da Universidade de São Paulo (USP) no regime militar só não foi maior porque em duas oportunidades os pedidos de novas cassações foram paralisados no Serviço Nacional de Informações (SNI). Documentos encontrados pela Comissão da Verdade da USP mostram que o órgão de informações impediu que denúncias feitas por integrantes da universidade e pela Assessoria Especial de Segurança e Informações (AESI), ligada à reitoria da USP, atingissem novos alvos, suspeitos de oposição à ditadura.

+++‘Tornei-me o caso mais evidente de abuso do poder'

Mais de uma dezena de professores estavam entre os suspeitos, entre os quais Eurípides Simões de Paula, Fernando Novais e Eduardo D’Oliveira França. Os responsáveis pelo filtro ideológico na universidade também queriam uma devassa na Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), onde suspeitavam do zoólogo Paulo Vanzolini, do físico Oscar Sala e do médico e ex-reitor da USP Antonio Barros de Ulhôa Cintra. Fundamental para essas investidas, a AESI começou a funcionar nos anos 1970, instituída pelo reitor Miguel Reale. Era ela quem fazia, segundo o relatório da comissão, “a triagem ideológica de alunos, professores e funcionários”.

A assessoria produziu 2.895 documentos entre 1973 e 1979 enviados ao Departamento de Ordem Pública e Social (Dops), ao 2.º Exército e ao SNI. O número representa um aumento das informações produzidas então pela universidade sobre investigações internas. De fato, os arquivos do Dops registram 253 documentos enviados pela USP para o departamento entre 1948 e 1973, uma média de 16 por ano. Após a criação da AESI, esse número saltou para uma média de 413 por ano.

+++Relatório quis cassar ‘marxistas’ após atrito com professor

“A criação da AESI gerou uma prática de vigilância com vistas ao controle ideológico da comunidade acadêmica, dentro de um sistema de informações organizado e centralizado do qual a USP fazia parte”, disse a professora Janice Theodoro da Silva, do Departamento de História da USP. Ela presidiu a comissão, cujo relatório tem dez volumes e foi entregue anteontem ao reitor Vahan Agopyan.

SUBVERSÃO

Exemplo desse controle é o documento enviado em 13 de novembro de 1975 ao SNI, no qual a AESI afirmava que a Fapesp estava sendo usada em “aprimoramento subversivo de alto nível pelo ex-diretor científico Oscar Sala”.

Entre os “fatos” apontados pela AESI estavam o apoio da Fapesp à Sociedade Brasileira de Progresso da Ciência, a nomeação de “infiltrados”, o dinheiro dado a pesquisas “para deturpar fatos históricos” e “desmerecer o trabalho do governo revolucionário”. Para tanto, Sala disporia de “400 assessores científicos secretos para dinamizar o trabalho de infiltração marxista no País”. E apontava como idealizadores desse plano Vanzolini e Ulhôa Cintra.

+++'A direita da USP era mais feroz que os militares'

O SNI respondeu ao ofício dizendo que acusar Sala de aproveitar-se do cargo “é expressar-se de forma tendenciosa e pouco verdadeira”. O serviço de informações dizia que a AESI trazia sobre “educadores da USP dados nem sempre verdadeiros”. Para o SNI, o documento da AESI “insere-se num contexto de luta pelo controle administrativo da Fapesp e do manejo de suas vultosas verbas”. Por fim, os agentes concluíam: “Não é, em essência, documento válido e merecedor de crédito”.

Em outro caso, a comissão traz o relato do historiador Boris Fausto sobre como brigas internas na USP quase levaram a outra leva de cassações em 1972. Ali também tudo foi parar no SNI, onde o pedido de expurgo morreu em uma gaveta.

QUEDA

O artífice da AESI era Krikor Tcherkesian, funcionário nomeado por Reale e mantido pelo reitor Orlando Marques de Paiva (1973-1977). Tcherkesian, que se apresentava como amigo do cantor João Gilberto, visitava frequentemente o Dops. Foi ele quem comandou a ofensiva contra a Fapesp. Acabou enredado em uma trama na qual ele foi acusado pelo SNI de "ação de corrupção e intimidação de diretores e professores de faculdades. Acabaria afastado em março de 1976, após pressão do general Dilermando Gomes Monteiro, que assumira o 2.º Exército em substituição ao general Ednardo D'Ávila Mello, depois da morte do metalúrgico Manoel Fiel Filho, nas dependências do Destacamento de Operações de Informações (DOI). O Estado procurou Tcherkesian, mas não conseguiu localizá-lo.

PESQUISA RECUPERA DOCUMENTOS QUE FORAM QUEIMADOS

A Comissão da Verdade da USP recuperou cópias de milhares de documentos que haviam sido queimados em 1982. Os papéis estavam no arquivo do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Eles mostram que, dos 434 mortos na ditadura, 47 tinham relação com a universidade – 39 alunos e ex-alunos, seis professores e dois funcionários. 

A Comissão ouviu professores e alunos perseguidos. A USP foi atingida desde 1964 com o afastamento de professores como os sociólogos Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes, o físico Mário Schenberg, os arquitetos João Batista Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha, os médicos Luiz Hildebrando Pereira da Silva e Isaías Raw, a historiadora Emília Viotti da Costa e Caio Prado Junior e o filósofo José Arthur Gianotti.

Entre os documentos achados há listas de professores “ideologicamente suspeitos” cuja contratação foi vetada por reitores. Esse foi o caso dos arquitetos Ricardo Ohtake – ato do reitor Orlando Marques de Paiva – e do arquiteto Décio Tozzi, barrado por dois reitores – Miguel Reale, em 1972, e Salim Simão, em 1977. “Isso destruiu minha carreira acadêmica”, contou Tozzi, que projetou o parque Villa Lobos e se tornou professor da USP em 1982. O jurista Miguel Reale Junior diz que seu pai evitou perseguições maiores na USP quando foi reitor. O relatório, no entanto, mostra que foi de Reale a iniciativa de criar a AESI - a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, não tinha esse órgão.

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Boris Fausto*, O Estado de S.Paulo

23 Março 2018 | 05h00

O IPM (Inquérito Policial-Militar) da História e Geografia tinha marcas próprias, menos violentas em termos comparativos, embora tenha resultado na condenação de alguns estudantes e no exílio da professora Emília Viotti da Costa. O IPM em questão contrastava com outros inquéritos da mesma natureza abertos no período, que visaram organizações de esquerda em geral e, especialmente, os grupos de luta armada. Tanto quanto eu saiba, durante os interrogatórios do IPM, não houve o recurso à tortura física, ressalvado o caso de dois estudantes presos, por duas semanas, pela então recém-criada Operação Bandeirante, cuja prática sistemática da tortura é sobejamente sabida.

Houve, também, uma diferença de tratamento entre estudantes e professores, no desenrolar do IPM. O major Haroldo (responsável pelo IPM) demonstrou interesse em saber a opinião dos estudantes interrogados a respeito de seus professores, mas o foco de sua investigação voltou-se para "atos subversivos" praticados pelos alunos, como a publicação de panfletos contendo ataques ao regime militar. A maioria desses alunos era proveniente da classe média baixa, por vezes notada como "gente de pele escura, ou mulata". Uma das moças acusadas causou espanto ao juiz auditor da 1.ª Auditoria Militar, no curso do processo: "Maria do Socorro Santos é figura que chega a causar pasmo. Aparece no 14 processo com gestos destemidos e até temerários, invulgares em uma moça", a ponto de chefiar uma revolta contra oficiais da Força Pública.

No que diz respeito aos professores, a preocupação central se voltou para suas ideias; para seu papel nos cursos de férias organizados em conjunto com os alunos (inclusive um programado para o início do ano de 1969, que não chegou a se realizar por força do AI-5); para o suposto desvirtuamento de seu papel de professor, ao se tornarem "mediadores de debate" das Comissões Paritárias criadas ao longo de 1968; e para a possibilidade, enfim, de terem contribuído para "perverter" a mente dos alunos com uma pregação esquerdista. Convém ressaltar, em tudo isso, a tosca postura modernizante adotada pelo encarregado do inquérito - um reflexo, a meu ver, da postura reformista-autoritária empregada pelos quadros superiores do regime militar. (...)

Uma espécie de interrogatório cultural foi a tônica de vários depoimentos. Foi o caso do professor português Joaquim Barradas de Carvalho, que teve a má sorte de chegar ao Brasil a convite, vindo da França, exatamente no momento em que o golpe de 1964 se tornava vitorioso. A certa altura de seu depoimento, o professor Barradas declarou ter identidade intelectual com os professores Eduardo França e Carlos Guilherme porque os três haviam sido influenciados pela Escola de Altos Estudos de Paris e pelos criadores da revista Annales, Marc Bloch e Lucien Febvre, cujo principal objetivo era o trabalho interdisciplinar das diferentes ciências humanas. E lhe tocou explicar que esse objetivo levou à criação de várias disciplinas históricas, como a Geo-História, a História Econômica, a História Social e a História Política, a Psicologia Histórica, e por aí vai. (...)

À primeira vista, o IPM que estamos analisando parece ser uma tragicomédia em que há uma grande desproporção entre a fantasia dos inquisidores e os fatos reais. Essa é uma parte da história, mas não toda a história. Na realidade, o major Haroldo cumpriu, em microescala, seu dever de ajudar a desvendar e destruir a hegemonia das concepções de esquerda entre professores e estudantes, contrapondo a essas concepções as ideias do regime militar. Tentativa aliás fracassada, pois os governos militares sempre se legitimaram pelos êxitos econômicos, enquanto existiram, e não pela contraposição de uma nova ideologia, inexistente no sentido forte do termo.

Por fim, registro uma tentativa de dar prosseguimento, na prática, ao IPM da História e Geografia, como se o esforço para eliminar a subversão na área de História não estivesse concluído. Um expediente burocrático dava conta disso. Um atrito entre parte dos alunos e um professor gerou comportamentos distintos no corpo docente (1972-1973).

Os alunos negavam-se a assistir às aulas da disciplina História das Ideias, a cargo do Prof. Linneu Schutzer, cuja orientação política favorável ao regime militar era notória, e pleiteavam que se mantivesse outra disciplina, denominada Historiografia do Brasil. O caso foi parar na Comissão Estadual de Investigações (CEI), que, após várias diligências, emitiu um relatório assinado por seu presidente, o promotor Italo Bustamante Paolucci. Tratava-se de um documento curioso em que o relator traçava um perfil de vários professores do Departamento de História, segundo seu grau de proximidade com os professores ou as ideias de esquerda. Assim, "o Prof. França de personalidade dúbia, tido por alguns como esquerdista e, por outros, como inocente útil". O Prof. Eurípides Simões de Paula dava "total apoio às herdeiras de Emília Viotti, atingida pelo Ato nº 5, as docentes Maria de Lourdes Janotti e Maria Beatriz da Silva". (...)

A certa altura de seu relatório, o presidente da CEI se perguntou se "os professores marxistas não seriam os maiores responsáveis da subversão entre os jovens", acentuando que, "com a vitória do Peronismo na Argentina, por certo essa gente recrudescer a luta contra as atuais instituições". Ele constatou a "situação alarmante do Departamento de História", resultado da ação deletéria dos professores marxistas, vários deles investigados no IPM de 1968. Diante disso, propôs que se abrisse uma investigação, com o afastamento preliminar de tais professores. Mas o relator tomou certas cautelas e disse que a CEI poderia tomar essas medidas insertas na competência da Comissão, "porém não desejava entrar em uma área delicada sem a concordância dos demais órgãos de segurança". Daí o envio da matéria à consideração do ministro da Justiça, Prof. Alfredo Buzaid, que, por sua vez, encaminhou o expediente ao chefe do SNI, general Carlos Alberto da Fontoura. Embora, aparentemente, o caso não tenha chegado a um desfecho, ele serve para reforçar a constatação de que a narrativa histórica, conduzida por professores não enquadrados nos princípios do regime militar, era objeto de particular atenção dos órgãos repressivos. Mais ainda, o caso é um exemplo, entre tantos outros, de como questões cujo alcance não passaria do âmbito universitário no regime democrático podiam ser levadas às altas esferas de órgãos repressivos, como a CEI e o SNI, na dependência apenas de correias de transmissão influentes.

*Professor do Departamento de História

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Fernando Henrique Cardoso*, O Estado de S.Paulo

23 Março 2018 | 05h00

Como o senhor se tornou professor da USP?

Tornei-me professor da USP após o reitor Ernesto Leme ter me dado uma autorização especial para eu dar aula, porque não era formado. Eu fui professor da USP antes de terminar o curso de Sociologia. Não podia dar aulas porque não era formado, mas o Ernesto Leme me autorizou, sob o fundamento de que faltava apenas a licenciatura, que era o último ano da faculdade. Comecei a dar aulas de História Econômica da Europa, a pedido da professora Alice Canabrava. Era um assunto novo para mim, mas eu já tinha lido Weber, Marx, essas coisas. Li também uns livros em inglês sugeridos pela professora.

O senhor pode nos contar um pouco mais sobre o papel da Universidade na vida política brasileira?

A Universidade de São Paulo tinha um papel bastante expressivo na sociedade paulista. Veja que a USP foi fundada porque São Paulo perdeu a Revolução de 32 e a elite paulista voltou-se para a cultura, fazendo várias coisas importantes. A mais importante delas foi a fundação da USP. A ideia era formar uma elite ilustrada e, se possível, recuperar o poder. O primeiro a recuperar o poder fui eu, só que não foi do lado deles. Mas é interessante ver que a própria ideia da USP nasceu num contexto político-social. A USP tratou de recrutar professores europeus. Na Sociologia e Ciências Humanas, recrutaram-se professores franceses; na Química, eram alemães; na Física, italianos. Tiveram sorte de pegar gente jovem e precursora, como Lévi-Strauss e Braudel. Nas faculdades da USP, predominavam ideologias diferentes. A Filosofia era mais de esquerda, mais aberta. A Medicina era muito conservadora. O Junqueira, por exemplo. Mas tinha o pessoal de Parasitologia, que era da esquerda. A faculdade politicamente mais importante era a de Direito. Na Filosofia, também tinha gente bem conservadora. Sabe quem era bem conservador? Aziz Ab'Saber. Depois, mudou. Eu sei disso porque, quando veio o golpe, eu estava no Conselho Universitário.

A maior parte dos professores não tinha militância política; eu era dos raros que tinha tido, mas era raro. O Florestan Fernandes, que foi meu professor, naquela época não tinha militância. O Antonio Candido tinha. Tinha sido do Partido Socialista. O Schenberg era comunista e tinha sido deputado em certa altura. A Faculdade de Filosofia costumava se manifestar politicamente nos jornais por meio da Congregação da Faculdade. Fazia manifestos ao povo e ao governo. Isso, principalmente, no período de Jânio Quadros.

(...)

O Gama (e Silva) não tinha nada de autoritário, mas virou um ferrabrás quando ministro. Fez aquela coisa do AI-5. O Gama se recusou a me dar autorização para eu sair do Brasil. Então, eu perdi o lugar na USP porque saí sem autorização.

(..)

Esse pessoal da direita da USP é responsável direto por conivência, ação e omissão. Se você for ver a Comissão Interna da USP, eles eram mais ferozes que os militares, eles pediam a nossa cabeça. Quem mandava na USP era Medicina, Direito e Politécnica. O Direito, com proeminência nacional. A Economia era um apêndice da Faculdade de Direito, até que o Delfim fez uma mudança positiva. Virou uma coisa mais técnica, mas não tinha expressão maior. A Filosofia tinha expressão verbal, mais retórica. Nenhum deles tinha real noção das coisas políticas. Era tudo muito vago. Eu estava mais ligado à vida prática do País, mas era um acadêmico. Do grupo que estudou O capital , quem tinha experiência de política, militância, era eu e o Paulo Singer.

Já em 1968, com o Ato Institucional n° 5, o senhor foi cassado e, com isso, aposentado compulsoriamente. Qual foi o impacto sobre sua carreira, e mesmo sobre a Universidade?

Um pouco antes das cassações, veio o concurso de cátedra. Em seguida, me cassaram. Eu ganhei a cátedra em outubro e me cassaram em abril . Eu fui um professor catedrático que nunca pôde assumir o cargo. Mas, a essa altura, eu já tinha experiência internacional, no Chile, e já tinha sido professor da França. Eu tinha outra visão do mundo, tinha uma visão um pouco mais complicada do que estava acontecendo no mundo.

Era difícil... Quando eu fui aposentado compulsoriamente, pelo AI-5, perdi o direito de dar aulas, e havia uma série de restrições. Ao pé da letra, nem mesmo pesquisa a gente podia fazer. Isso tudo 52 era um absurdo. Qual foi a nossa posição? Primeiro, você resolve a solidariedade aos perseguidos. Aí nós tomamos a decisão, alguns de nós - como eu já tinha estado fora -, de não voltar para o exterior. Não podia. Fui convidado para Yale e para voltar pra Paris. Eu achei que não, que era melhor ficar aqui.

Qual papel político pode ser atribuído à Universidade hoje?

Em termos mais genéricos, é o seguinte: toda nossa visão, nossa cabeça, nossos conceitos estavam baseados num mundo que está mudando. Qual era o mundo nosso? Era o mundo da industrialização, das classes estruturadas, dos partidos que respondiam, grosso modo, às classes e às ideologias. Com o mundo de hoje, o mundo da globalização, você tem tanta mobilidade social, tanta ocupação nova que a expressão da classe trabalhadora, enquanto tal, diminuiu gradativamente. A coesão de classes não existe mais. E, no nosso caso atual, tem a fragmentação dos partidos. Tem a fragmentação da sociedade e a fragmentação dos partidos. E uma não bate com a outra. Então, estamos vivendo um momento em que você não tem centro de gravidade. É difícil entender qual a dinâmica dessa situação. Quando você não tem centro de gravidade, a narrativa ganha força. É preciso uma estrutura para suportar, mas não tem. Daí a ideologia prevalece sobre a realidade. A Universidade, hoje, não tem um discurso. Não é que a Universidade, em sua função técnica, não tenha importância e não tenha melhorado. Melhorou muito. A função do intelectual é que é o problema. A Universidade ficou para trás, ela não captou essas mudanças. É novo isso, e isso desorienta. É preciso teorizar sobre essa realidade.

*Ex-presidente da República

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Isaías Raw*, O Estado de S.Paulo

23 Março 2018 | 05h00

"Entrei para a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) com a meta de me tornar um pesquisador. Com a aposentadoria do Jayme Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque, professor da cátedra de Chimica Physiologica, apresentei-me como candidato à cátedra. Contava a meu favor os anos de pesquisas e aulas ministradas no Departamento, de maneira que não se apresentaram outros candidatos. Fui aprovado pela maioria dos professores mais destacados da faculdade, porém, minha candidatura foi recusada por alguns dos professores que representavam os mais conservadores.

Com a instalação do regime de exceção, eu morava no Alto de Pinheiros, naquela época uma área desabitada. Às 23 horas, quando voltava com minha esposa e filhos, de visita à minha sogra, em fase final de câncer, fui preso por uma dúzia de carros da polícia, com policiais armados e levado para o quartel onde permaneci em condições precárias: a cela sem porta, exposto à baixa temperatura, no período do inverno, alimentado por um prato e colher passado por debaixo da grade.

Fui acusado de ser um perigoso líder comunista que reunia sua célula em Washington - onde ia para reuniões da Organização dos Estados Americanos (OEA) e National Science Foundation, para discutir projetos de inovação do ensino de ciências -, uma acusação ridícula. O que não tinha sido previsto é que haveria um longo telegrama enviado ao Marechal Castelo Branco, assinado por vários prêmios Nobel, pedindo que eu fosse imediatamente libertado. Em poucos dias, fui libertado e me tornei o caso mais evidente de abuso do poder de alguns "notáveis" professores da Faculdade de Medicina que usaram a ignorância de coronéis escalados para eliminar os subversivos.

Tive de ir à Congregação da faculdade, como professor substituto, defender-me e mostrar o paradoxo de ter que explicar para minhas filhas que eu não era um perigoso subversivo e quem estava errado foram os oficiais que me prenderam. Como compatibilizar, na educação infantil, que um pai pode ser honesto e a polícia e o Exército errados?  Foi levada à Congregação a proposta de protelar o concurso até que eu provasse que não era comunista. A banca escolhida não foi convocada. Finalmente, quando os membros da Banca, vindos de outras Universidades, chegaram no Hotel, foram abordados por um professor da Faculdade de Medicina para que não aprovassem um judeu. Tive mais sorte que o Prof. Rocha e Silva, descobridor da bradicinina e merecedor de um prêmio Nobel, candidato à cátedra de farmacologia, que foi preterido.

Fui punido pelo AI-5, vedado meu acesso às atividades e recursos públicos nas áreas de ensino de ciência e da medicina, de pesquisas biomédicas e o Curso Experimental de Medicina foi fechado. Imediatamente decidi sair do país. A Unesco me ofereceu a atuação na inovação do ensino de Ciências em Israel. Por nove meses fiquei distante da família. Depois de um ano e meio, decidi procurar outro emprego e fui contratado pelo Massachussetts Institute of Technologypara o Centro de Ensino de Ciências, e lá permaneci por cinco anos, desenvolvendo um projeto de ensino de ciências baseado na amostra de alimentos do estudante, adotado em vários Community Colleges.

Fui convidado para um cargo no Departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública de Harvard, onde concluí um livro para curso médico que integra o ensino básico com noções clínicas. Evidentemente, havia um contraste entre minha dedicação pela coisa pública - muitas vezes abrindo mão da remuneração -, e aqueles funcionários que, incomodados pelo meu razoável sucesso, exigiram minha punição lançando mão da força do Exército.  A minha natureza inquieta de sempre buscar uma iniciativa de interesse do país e da população incomodou a inércia daqueles conservadores. Exemplo foram as palavras de um professor: "afinal, por que a Fundação Rockefeller nunca me ofereceu recursos se eu não sou comunista? " e continuou "nós o mandamos embora e ele vai para Universidades melhores!". São palavras que jamais esqueci e mostram as dificuldades que este país interpõe à iniciativa, à inovação e à experimentação para proteger a mediocridade - autoproteção -, impedindo o progresso. Ao contrário de outros colegas, não fui submetido à tortura, mas à pressão continua de, como subversivo, não aceitar jamais o status quo. Voltei acreditando no Brasil. Em 1952, quando era bolsista em Nova York, o Presidente da Merck apareceu na capa do Times afirmando "Medicine is for people not for profit". Foi banido da empresa, como serei mais uma vez por ter uma fantasia de trabalhar pelas necessidades sociais."

*Professor emérito da USP e foi professor visitante da Universidade Hebraica de Jerusalém, do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e da Harvard. Também dirigiu o Instituto Butantan

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