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Eleições 2014

Sigla e Lula pressionam presidente a abrir o cofre

RICARDO GALHARDO, ENVIADO ESPECIAL, VERA ROSA / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

22 Junho 2014 | 02h 06

Economia abre divergências entre Dilma e antecessor e pauta estratégia de campanha

Quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas públicas ao secretário do Tesouro, Arno Augustin, há cerca de duas semanas, em Porto Alegre, deixou visível as divergências entre ele, o PT e a presidente Dilma Rousseff em torno da condução da política econômica neste ano eleitoral. A afilhada começou a atender à parte das pressões vindas do antecessor e do partido e, na campanha, será preparada para confrontar números dos 12 anos de gestões petistas com os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

Segundo fontes próximas de Lula e Dilma, embora mantenham uma relação estreita de parceria, são frequentes as discordâncias sobre os rumos da economia. Lula cobra que o governo abra o cofre para aumentar o crédito na praça, agradar setores do empresariado e do agronegócio e criar uma sensação de aquecimento da economia às vésperas da eleição, enquanto Dilma defende a política de rédea curta nos gastos, temendo o descontrole da inflação.

Embora a presidente seja a responsável pela chave do cofre, petistas apontam pelo menos três casos recentes nos quais Dilma cedeu às pressões de Lula e do PT e abriu o cofre.

Pressões. O primeiro caso foi a liberação do volume recorde de R$ 156 bilhões para o Plano Safra 2014/2015, anunciado em 18 de maio. No dia seguinte, Dilma sancionou a lei que cria o piso salarial nacional de R$ 1.040 para agentes comunitários de saúde. De acordo com pessoas próximas à presidente, integrantes da equipe econômica recomendaram veto ao projeto de lei aprovado pelo Congresso, alegando que a iniciativa teria impacto de R$ 3 bilhões anuais no Orçamento da União. Mas Dilma cedeu às pressões de Lula - e principalmente do PT - e acabou sancionando a lei.

O terceiro exemplo é o pacote de benefícios para a indústria, anunciado na quarta-feira em reunião do Fórum Nacional da Indústria, que inclui mudanças no Refis, extensão do Plano de Sustentação de Investimentos (PSI) e a desoneração da folha de pagamento para 56 setores, entre outras benesses. Lula foi um dos defensores dessas medidas, contrariando orientações da equipe econômica.

Lula e o PT já tem traçada a estratégia para debater economia na campanha. A principal mensagem do programa de governo será a de que o Brasil é o país de "oportunidades" para quem trabalha e investe aqui.

Para tentar desconstruir o discurso da oposição de que é possível fazer mais e melhor, Dilma adotará o mote de que só quem fez no passado pode promover mudanças sem sustos nem rupturas e melhorar o futuro.

Estratégia. Para inflar os indicadores sociais e econômicos, a propaganda do PT tratará o governo de Dilma e Lula como se fossem um só, desde 2003. A estratégia é considerada necessária porque vários índices caíram sob Dilma, que enfrentou uma crise financeira mundial.

De posse desses dados, a equipe da reeleição vai comparar o atual período com os oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Embora o Produto Interno Bruto tenha crescido pouco na gestão Dilma, a propaganda destacará que o PIB, em dólares, cresceu 4,4 vezes desde o primeiro ano da gestão FHC.

Para contornar o crescimento baixo do PIB no governo Dilma, a campanha também pretende ideologizar o debate econômico, dando mais destaque à redução do desemprego, que hoje é de 4,9% contra 12,6% do último ano da gestão presidencial tucana, para sustentar o argumento de que as oportunidades de trabalho têm mais impacto na vida da população do que o índice de crescimento econômico.

Além disso, o PT vai aproveitar todos os espaços possíveis para provocar o candidato do PSDB, Aécio Neves, a revelar suas propostas para a economia, explorando a declaração do tucano de que tomaria "decisões impopulares" na economia.

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