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Serra Talhada já vive clima de disputa eleitoral

ANGELA LACERDA - Agência Estado

14 Abril 2014 | 14h 21

O clima de disputa política entre a presidente Dilma Rousseff (PT) e o ex-governador de Pernambuco e presidenciável Eduardo Campos (PSB) é expresso logo na entrada de Serra Talhada, município sertanejo a 415 quilômetros do Recife, onde a presidente inaugura nesta tarde de segunda-feira, 14, primeira etapa da Adutora do Pajeú - obra que já havia sido parcialmente inaugurada por ela e pelo agora opositor Campos, em março do ano passado.

Quase lado a lado, dois outdoors expressam feitos dos dois governos: "Dilma é apoio aos agricultores, obrigado pelos equipamentos", diz um, enquanto o outro fala de "mais uma ação do governo do Estado na saúde", com a chegada de medicamentos excepcionais.

"O clima está acirrado", reconhece o prefeito do PT, Luciano Duque, que disse ter pago, do próprio bolso, três outdoors para recepcionar a presidente. Cada um custou R$ 800,00. O outro aborda o programa Minha Casa, Minha Vida, com 899 casas já construídas, e o terceiro, a atenção ao ensino infantil e fundamental.

Duque providenciou os outdoors na última sexta-feira, quando a vinda da presidente foi confirmada. "É uma forma de gratidão". Ele admitiu que não havia agenda prévia da visita presidencial e garantiu que um protesto de professores, realizado na porta da prefeitura pela manhã, nada tinha a ver com a presença da presidente. Um dos cartazes dos manifestantes que dizia "Presidente Dilma, aqui professor ganha R$ 1 mil" foi logo retirado com a chegada da reportagem. Os professores querem aumento de 15% no salário que é 7,7% acima do piso nacional.

"O protesto já estava agendado, foi uma coincidência", explicou ele, ao negar que a primeira etapa da adutora do Pajeú já houvesse sido inaugurada. Ele frisou que somente com a inauguração, hoje, do terceiro trecho, é que a primeira etapa estará realmente concluída.

O primeiro trecho - que vai de Floresta a Serra Talhada, com extensão de 118 quilômetros - foi inaugurado no dia 25 de março do ano passado, em um evento com a presença de Dilma e do ex-governador Eduardo Campos, no seu município. O segundo, em setembro, de Carnaíba a Flores, de 18 quilômetros, foi inaugurado por Campos e pelo ex-ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho (PSB), ainda na base aliada. O terceiro trecho a ser inaugurado nesta tarde tem 60 quilômetros e vai de Carnaíba a Afogados da Ingazeira.

O prefeito de Afogados da Ingazeira e também presidente da Associação dos Municípios de Pernambuco, José Patriota (PSB), agora também na oposição, estranhou o fato da inauguração não ser no seu município. "Seria o mais lógico". Ele observou ser "raro" um presidente ir duas vezes ao mesmo lugar para uma inauguração.

A chegada da presidente no Estado do provável adversário no mesmo dia em que Campos anuncia Marina Silva como candidata a vice na chapa PSB-Rede, em Brasília, é avaliada como uma forma de dividir as atenções e já mostrar força do governo federal em Pernambuco.

Desencontros

A disputa política em Serra Talhada se manifesta também em informações desencontradas. O prefeito destacou ter vencido as eleições municipais contra Campos, o grupo do deputado Federal Inocêncio Oliveira (PR) e do senador Armando Monteiro Neto (PTB) - agora pré-candidato ao governo de Pernambuco com apoio do PT.

Nos seus cálculos, 11 dos 15 vereadores apoiam seu governo, que tem ampla maioria na Câmara Municipal. O vereador Leirson Magalhães, do PSB, assegura que a oposição tem nove vereadores ao lado da candidatura de Campos e contra a reeleição de Dilma.

O fato de a adutora do Pajeú não ter resolvido completamente a falta de água no município, que ainda enfrenta racionamento, é outro ponto de conflito. "Água tem, o que falta é a Compesa (empresa estadual de abastecimento) adequar a infraestrutura para as pessoas poderem receber a água", acusa o prefeito. "Há dois anos a Compesa vem trabalhando na expansão da rede de distribuição, o problema é que Serra Talhada recebe penas 30% da água da adutora", rebate Magalhães.

A população ainda se mostra indiferente à disputa eleitoral. "Isso é coisa entre eles, político é engraçado", disse o ex-locutor de rádio Roberto Claudio, ao lembrar que até pouco tempo, todos que agora se criticam estavam juntos.