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Lava Jato faz Brasil despencar 7 posições em ranking de corrupção

Entre as 168 nações pesquisadas, País ocupa a 76ª colocação; Dinamarca é o menos corrupto, segundo aponta levantamento

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Jamil Chade,
correspondente de O Estado de S. Paulo

27 Janeiro 2016 | 07h17

GENEBRA - Sem medidas estruturais para evitar a continuação de subornos e propinas, o Brasil registrou a maior queda no mundo no ranking internacional da corrupção, compilado todos os anos pela Transparência Internacional. A entidade alertou que enquanto não houver uma reforma de fato no País, as punições adotadas contra ex-diretores da Petrobras não serão suficientes para acabar com a corrupção no Brasil e que "novas máfias" podem "se apoderar uma vez mais das estatais". 

No informe publicado hoje em Berlim, a ong coloca o Brasil na 76a posição no ranking de 168 países, uma queda de sete posições em comparação ao ano passado. A classificação avalia a percepção internacional da corrupção a partir de sondagens colhidas por diferentes entidades. A Dinamarca é, segundo o ranking, o país menos corrupto do mundo, sendo a Coreia do Norte e a Somália os piores casos.

O Brasil, segundo a pesquisa, está hoje empatado com Burkina Fasso e Zâmbia, abaixo de El Salvador, Bulgária e África do Sul. Com apenas 38 pontos de 100 possíveis no ranking, o Brasil ficou abaixo da média de pontuação do mundo ou das Américas e perdeu cinco pontos em um ano. A escala de 0 (considerado o mais corrupto) a 100 (considerado o menos corrupto) aponta ainda que o Brasil não atinge nem mesmo a média dos países árabes.

Na avaliação do diretor da TI para a América Latina, Alejandro Salas, a Operação Lava Jato, as prisões de executivos e políticos tem sido " ofuscado " pela falta de reformas reais no Brasil e pelo comportamento dos líderes políticos. "A corrupção sempre existiu no Brasil. Ela não é algo de 5 ou 20 anos ", disse em entrevista ao Estado.  " Mas a questão é como o País é hoje visto pelo mundo e a percepção é muito negativa ", afirmou.

"Dilma Rousseff venceu as eleições, mas suas reformas propostas na campanha não avançaram nem sequer um centímetro e, enquanto não houver uma reforma política, o Brasil não vai avançar na percepção internacional. Enquanto houver uma disputa política e o Brasil estiver paralisado nela, nada vai melhorar ", declarou.

Para Salas, apenas punir os responsáveis pelo atual escândalo não é o que o mundo espera do Brasil. " Isso é importante e precisa continuar. Mas (o juiz) Moro não é suficiente. Não se pode solucionar o problema estrutural da corrupção apenas com punições. Sem novas leis, o risco é de que, em cinco anos, veremos que uma nova máfia vai tomar conta uma vez mais da Petrobras ou de outras entidades, como o BNDES, e vão se apropriar uma vez mais das estatais ", alertou. 

Na opinião do especialista, seria justamente uma reforma que " mandaria um sinal forte ao mundo de que o Brasil está disposto a mudar ". " Hoje, não é o que vemos por parte da classe política ", disse.

Para ele, o argumento do governo Dilma de que as investigações só estão ocorrendo por que ela deu condições é " artificial e inválida ". "O governo não está fazendo mais que sua obrigação e isso não é um favor a ninguém ", disse. " Em nenhum lugar do mundo o Executivo deve impedir ou criar obstáculos para a Justiça ". 

Em sua avaliação, o " real teste ", viria se eventualmente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma ou um outro líder fosse investigado. " Seria importante tirar o véu de que Lula ou outros são intocáveis ", disse. " Também não é válido o argumento de que, por que isso geraria instabilidade, essas pessoas não devem enfrentar a Justiça. Se é uma investigação técnica e dentro da ordem jurídica, ninguém pode ficar acima da lei ", insistiu. 

Cunha. A TI também não poupa Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, de crítíicas e alerta que é justamente seu comportamento que " exemplifica " a desconfiança internacional com o Brasil. "O mundo se pergunta como Cunha pode ser um líder diante das acusações que pesam sobre ele ? Isso manda um sinal muito ruim e ofusca o que foi feito na Lava Jato. Cunha está fazendo o contrário do que o mundo esperava do Brasil" disse.

"O País não caiu no ranking por que se descobriu a corrupção. Mas porque a briga política, a insistência de políticos em se manter no poder e a falta de reformas ofuscam o que as investigações estão fazendo ", afirmou. 

Para a TI, existem três medidas que o Brasil deve adotar para voltar a subir no ranking. A primeira é de estabelecer novas regras para o financiamento de partidos. Outra medidas é a de ter um serviço público profissional, acabando com os milhares de cargos de confiança. " Isso é um desastre, pois muitos estão em determinadas posições para atender a seus interesses e de aliados ", disse Salas. 

Para completar, a Justiça precisaria ser reforçada para não depender de " bons indivíduos ". 

Popular. Para a TI, porém, existem pontos positivos no Brasil. " Juizes, parte da Polícia Federal, procuradores e o trabalho dos jornalistas tem sido fundamental ", completou Salas. Mas um dos principais é a força da pressão popular. 

A TI convoca a população a continuar a cobrar e lembra que é a sociedade a " maior vítima " da corrupção. "Diante da queda da economia, dezenas de milhares de brasileiros estão perdendo seus empregos. Eles não tomaram as decisões que conduziram ao escândalo. Mas são quem vivem com as consequências ", apontou o informe.

O mesmo recado é enviado ao restante do mundo. Para a entidade, 6 bilhões de pessoas no planeta moram em países com " sérios problemas de corrupção ".  "Se trabalharmos juntos, podemos vencer a corrupção. Para acabar com o abuso do poder, o suborno e revelar negociatas, os cidadãos devem se juntar e dizer aos seus governos que já chega" , declarou José Ugaz, Presidente da Transparência Internacional.

"O Índice de Percepção da Corrupção de 2015 mostra claramente que a corrupção continua a ser uma praga em todo o mundo. Mas 2015 foi também um ano em que as pessoas voltaram às ruas para protestar contra a corrupção. Pessoas de todo o mundo enviaram um sinal forte ao poder: chegou a hora de atacar a grande corrupção", insistiu.

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