Joédson Alves/EFE
Joédson Alves/EFE

Sem Previdência, Temer faz aposta de risco para mudar agenda em ano eleitoral

Decreto que coloca as Forças Armadas no centro da segurança do Rio é tentativa para ofuscar crise política e colocar nova marca em seu governo

Vera Rosa, Brasília

16 Fevereiro 2018 | 20h40

A intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro virou a última cartada do presidente Michel Temer na tentativa de encontrar uma agenda com respaldo popular para substituir a iminente derrota do governo na votação da reforma da Previdência. A sete meses e meio das eleições, com planos de disputar um novo mandato e a bandeira reformista sob ameaça, Temer procura uma marca que possa ofuscar a crise política.

Embora o presidente diga que revogará o decreto da intervenção quando tiver apoio para votar a Previdência - uma vez que, enquanto durar a medida, a Constituição não pode ser alterada -, até aliados admitem, nos bastidores, o naufrágio da reforma.

Desde o ano passado o Palácio do Planalto tenta, sem sucesso, conquistar o aval de 308 dos 513 deputados para aprovar novas regras do INSS. Sem qualquer perspectiva de obter esses votos, Temer vai apostar agora na pauta do combate à violência e ao crime organizado como uma espécie de tábua se salvação para os últimos meses de mandato.

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O plano vem sendo costurado há alguns dias, mas somente saiu do papel ontem, 15, à noite, em reunião no Palácio da Alvorada, depois que os ministros Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência) e Raul Jungmann (Defesa) foram ao Rio convencer o governador Luiz Fernando Pezão.

Pesquisas encomendadas pelo Planalto mostram que a segurança é uma das principais preocupações da população, ao lado da saúde. Os dados coincidem com os últimos levantamentos feitos pela cúpula do MDB, em busca dos principais temas para tratar na campanha eleitoral.

+++ Sobre a intervenção federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro

O decreto da intervenção, porém, é considerado uma aposta arriscada. “É um salto triplo sem rede. Não dá para errar”, resumiu o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). “Estamos vivendo o momento das consequências. Não se tomaria uma decisão tão grave nem um caminho tão difícil sem saber as consequências. É fundamental que a população entenda o que estamos fazendo”, afirmou o ministro do Gabinete de Segurança Institucional(GSI), Sérgio Etchegoyen.

Pré-candidato à Presidência, Maia foi inicialmente contra o decreto pelo qual as Forças Armadas assumirão o controle da segurança no Rio. Queixou-se de não ter sido consultado antes, irritou-se com o ministro da Justiça, Torquato Jardim, mas, ao fim da reunião no Alvorada -- que terminou na madrugada desta sexta -- acabou aceitando a medida.

+++ Perguntas e respostas sobre a intervenção federal no Rio

Maia é um dos aliados que mais incomodam o Planalto. Em conversas reservadas, auxiliares de Temer dizem que ele agiu o tempo todo para "sabotar" a reforma da Previdência, contrapondo-se ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, também presidenciável. O deputado, por sua vez, afirma que a culpa pelo fiasco observado até agora foi da "desarticulação" do próprio governo.

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