Wilson Pedrosa/Estadão
Wilson Pedrosa/Estadão

Sé volta a ser palco de lutas entre famílias

No século 17, os Pires e os Camargos se enfrentavam com adagas; hoje, rixa é entre os Alves de Mesquita e os Batista de Mesquita

O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2013 | 16h00

Praça da Sé, no centro de São Paulo, é cenário de duas lutas sangrentas de famílias, separadas pelo tempo e aproximadas pela barbárie. No século 17, Pires e Camargos, clãs tradicionais da então Capitania de São Vicente, duelavam de punhais na Rua São Gonçalo, engolida em 1913 para a ampliação da Praça da Matriz. Hoje, a rixa é entre os Alves de Mesquita e os Batista de Mesquita, famílias de migrantes paraibanos que disputam o controle dos pontos de venda de coco da área.

No tempo dos Pires e Camargos, a vila de São Paulo do Campo tinha 1.500 moradores, escreveu o historiador Luiz de Aguiar Costa Pinto, no livro Lutas de Famílias no Brasil, em 1949. A origem da briga que se tornou uma violenta disputa política pelo controle da Câmara, da Ouvidoria e da Magistratura foi um caso passional. Por volta de 1640, Alberto Pires foi acusado de matar a mulher, Leonor Camargo, e um parente chamado Antonio Pedroso. Numa das versões, Pires estava sendo traído pelos dois. Em outra, teria matado acidentalmente Leonor e, com medo da família da mulher, matou Pedroso, forçando a versão do crime de honra.

Pires foi preso. Na viagem de navio para ser julgado em Salvador, homens da escolta amarraram uma pedra no pescoço dele e o jogaram no mar. Começava a maior luta de famílias da história do Brasil Colônia. O combate mais marcante ocorreu na Praça da Matriz, em 1641, quando os homens das duas famílias duelaram com espadas e adagas. A partir daí, a rixa foi para a Câmara Municipal da Vila de São Paulo, onde os grupos se revezavam no poder e mantiveram, por duas décadas, debates alimentados por homicídios.

Um dos tipos mais comuns dessas lutas começa numa divergência pelo poder e se transforma, com o tempo e a morte dos chefes políticos, numa briga passional e de vingança, próxima da criminalidade comum. Nos sertões paraibano e potiguar, a longevidade da luta das famílias Maia e Suassuna, de meados do século 19 à década de 1950, criou a cultura de rixa entre grupos familiares e a indústria de pistolagem e do crime de mando que ainda desafiam o Estado.

O epicentro da briga entre os clãs era Catolé do Rocha (PB), onde viviam as famílias. Um dos episódios mais emblemáticos da disputa entre os Maia e os Suassuna - nomes tradicionais da política nordestina - ocorreu em 9 de setembro de 1956, durante os festejos da padroeira, Nossa Senhora dos Remédios. O médico Lavoisier Maia, tio do atual senador Agripino Maia (DEM-RN), mandou avisar que Jandhuyr Suassuna não poderia entrar no clube da cidade. Alcoolizado, Lavoisier empurrou o amigo Chiquinho Suassuna, que foi interceder por Jandhuyr. Na confusão, Lavoisier atirou em Chiquinho, atingindo mortalmente outra pessoa, Cantidiano de Andrade. Chiquinho acertou um tiro em Lavoisier, que ficou com sequelas, mas seguiu na vida pública - foi indicado governador do Rio Grande do Norte, em 1978. "Hoje, está tudo entrosado. Mas antes era uma encrenca danada", diz Chiquinho, 85 anos.

Novo round. Quatro décadas depois, uma nova luta surgia, naquele clima de pistolagem e desavenças, entre os Suassuna "ilegítimos" - como eram chamados os peões das fazendas e abastados pobres do clã - e outra família, os Mesquita. Desta vez, a luta logo virou caso de criminalidade comum - as mortes não foram incluídas no levantamento deste caderno.

Em 1995, Silvino Alves de Mesquita, delegado e líder político em Brejo dos Santos, município paraibano vizinho de Catolé do Rocha, foi morto por Pedro Veras - cuja família era aliada dos Suassuna "ilegítimos". Ameaçado pelos Mesquita, Francisco Veras, irmão de Pedro, matou um filho de Silvino, o cabo Grimalcy Alves de Mesquita.

Para escapar da morte, Geneton, filho de Silvino e irmão de Grimalcy, aceitou convite de primos para trabalhar na venda de coco em São Paulo. Instalado na Sé, Geneton Alves de Mesquita passou a juntar dinheiro para contratar pistoleiros e vingar as mortes do pai e do irmão. A princípio, os Veras e os Suassuna eram os alvos. Mas Geneton envolveu-se numa briga com os primos, o ramo Batista de Mesquita, por causa dos pontos de venda de coco. A luta ganhou novos contornos: os Alves de Mesquita se aliaram aos Suassuna para combater os Batista de Mesquita em duas frentes, Catolé do Rocha e São Paulo.

Uma das cenas mais bárbaras da luta ocorreu em 2009 no velório de Ednilson Batista de Mesquita. Parentes do morto mataram ali mesmo, diante do caixão, Helber Suassuna - que apesar de sobrenome era amigo de Ednilson -, como vingança.

Numa casa centenária de pé-direito alto, telhas soltas e paredes descascadas, no centro de Catolé do Rocha, mora Maria Batista de Mesquita, a Maria Bahia, 76 anos, mãe de Ednilson, Erivan e Marcelo, mortos, segundo a polícia, a mando de Geneton. Diferentemente dos homens do clã, a matriarca não demonstra temor de ser morta. "Dizem que vão matar eu. Ah, morta já sou. Quem perde um filho está morta. Meus filhos eram minha vida", diz. Ela quer vingança. "Ninguém no mundo gosta daquele povo."

Geneton é procurado pelas polícias da Paraíba e de São Paulo. "Ninguém consegue prendê-lo", afirma Silvio Rabelo, delegado de Catolé do Rocha. Rabelo diz que a luta de famílias passa de pai para filho. A questão política, segundo ele, ficou no passado. A luta se move agora graças à economia da pistolagem. "O assassinato de pistolagem é o homicídio mediante pagamento com promessa", diz. "Se está na lista para morrer, vai morrer."

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