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ENTREVISTA: Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais

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'Se você está num paiol de pólvora, não acende um fósforo'

Assessor de Dilma condena 'proselitismo' da iniciativa de senadores da oposição no País vizinho 

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Vera Rosa

19 Junho 2015 | 21h15

Brasília - O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, repudiou nesta sexta-feira, 19, a "tentativa" de senadores da oposição, liderados por Aécio Neves (PSDB-MG), de transformar a frustrada visita a líderes políticos presos na Venezuela num "embate político-ideológico".

Garcia comparou a situação da Venezuela a um "paiol de pólvora" e afirmou que, diante da crise, é necessário mediação, e não "proselitismo". "Se você está num paiol de pólvora, não entra fumando e, menos ainda, acende um fósforo", disse ele.

Estado -- Os senadores de oposição, hostilizados no aeroporto de Caracas, exigem do governo uma posição mais dura. O governo vai reagir?

Garcia - Em primeiro lugar, o governo brasileiro criou as condições materiais para que a delegação pudesse ir lá. Fiquei preocupado porque era interferência num assunto interno de outro país. Além disso, a agenda dos senadores era parcial. Não estava programado, por exemplo, nenhum contato com Capriles (Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda, principal líder de oposição, mais moderada, ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro).

Estado -- Isso teria provocado o incidente?

Garcia - Todas as informações que temos é que houve certa agressividade por parte de 30 manifestantes, mas ninguém saiu ferido. O veículo em que os senadores estavam foi alugado pela embaixada. O problema adicional foi o megaengarrafamento de Caracas. Houve personalidades muito mais relevantes que estiveram lá, como o ex-primeiro ministro da Espanha, Felipe González, e não sofreram nenhum tipo de constrangimento.

Estado -- O senhor acha que os senadores estão tentando criar um fato político contra o governo Dilma?

Garcia - Eu não acho nada, porque, como diria Noel Rosa, quem acha vive se perdendo. Nós nos opomos a que esse episódio se transforme num incidente diplomático. Os que querem fazer isso cometem um equívoco. Estamos preocupados com a situação da Venezuela, que é complexa, mas não queremos fazer disso um embate político-ideológico. Se você está num paiol de pólvora, não entra fumando e, menos ainda, acende um fósforo. Quem conhece a vida política da Venezuela sabe que lá as coisas não são fáceis. Os santos estão nas igrejas... Não se chega a uma solução pacífica apoiando um dos lados, mas, sim, negociando com as duas partes.

Estado - Quais podem ser as consequências dessa crise para o Brasil?

Garcia - Tentamos resolver a situação de tensão via Unasul. Mas precisamos ter cuidado. Há risco de conflito para o povo venezuelano, com muitas mortes e sofrimento. Uma crise assim afetaria o Brasil, que tem significativa relação de comércio com a Venezuela, teria efeito desastroso sobre a Colômbia, porque o governo venezuelano ajuda muito no processo de negociação com as Farc e com o Exército de Libertação Nacional, e comprometeria o funcionamento do Mercosul e da Unasul. São fatores importantes para que todos trabalhem com tranquilidade, sem fazer proselitismo nem para o governo nem para a oposição. Para nós interessa a preservação da democracia, a paz e uma solução negociada.

Estado - O governo vai chamar o embaixador do Brasil na Venezuela para se explicar?

Garcia - Isso não está em cogitação. O governo brasileiro já se manifestou contra atos extremados e não é o caso de dar mais extensão a esse episódio.

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