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1964

Se houvesse confronto, seria um massacre

José Maria Mayrink - O Estado de S.Paulo

28 Março 2014 | 15h 25

1.º Exército, legalista, era mais forte que regimentos rebeldes, mas ambos se confraternizaram

Não houve um tiro sequer, mas a participação da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) foi fundamental para a rendição das unidades fiéis ao presidente João Goulart, na virada de 31 de março para 1.º de abril de 1964. Sob o comando do então general de brigada Emílio Garrastazu Médici, a escola de formação de oficiais mobilizou os cadetes, professores e pessoal de serviço, no total de mais de 2 mil homens, para bloquear o Vale do Paraíba, por onde as forças do 1.º Exército avançariam contra São Paulo.

 

"Na Academia, foi preso o general Euryale Jesus Zerbini, comandante da Infantaria Divisionária da 2ª Divisão de Infantaria, que tinha segurado nos quartéis dois regimentos, o 4.º e o 6.º, impedindo-os de marchar para a região de Resende", conta o general Geraldo Luiz Nery da Silva, na época tenente de artilharia em Itu (SP). "Somente o 5.º RI (Regimento de Infantaria), sediado em Lorena, conseguiu ir para a estrada." O general Zerbini, que apoiava Goulart, foi detido na Aman, na tarde de 1.º de abril. "Um tenente lhe disse que o general Médici o estava convidando para um cafezinho e o arrastou, pelo elevador, para a sala do comandante", lembra. A prisão significava não sair do prédio.

 

O general Nery, que presenciou a cena, havia chegado de Itu com uma bateria de obuses (canhões), escalada para dar cobertura aos regimentos de infantaria. "Saímos às 7 horas da manhã em direção a São Paulo, onde deveríamos acampar no Parque da Água Branca. A ordem era apoiar o deslocamento do 4.º RI, na Estrada São Paulo-Rio, atual Via Dutra, mas ele não estava lá. Avançamos para Resende e chegamos à Aman no meio da tarde", relata o general. "Deveríamos substituir os cadetes, às margens da rodovia. Não foi preciso, porque as forças do 1.º Exército não passaram da região da Serra das Araras. Os oficiais legalistas se renderam ou aderiram aos revoltosos.

O general Luiz Seldon Muniz, então tenente e instrutor de artilharia na Aman, acrescenta: "Duas baterias do Grupo Escola de Artilharia (GEsA) avançaram pela estrada, deixando para trás o comandante com uma terceira bateria, que ocupava um posto na vanguarda, e se juntaram aos cadetes". Quando ele viu os caminhões do GEsA apontarem numa reta da rodovia, imaginou que seria atacado. As baterias estavam se passando para o lado dos revoltosos, com os quais se confraternizaram, antes de se apresentarem ao general Médici.

 

Se houvesse um confronto, seria um massacre. "As forças do 1.º Exército eram muito superiores às nossas, teria sido uma luta desigual", afirma o general Muniz, mais tarde comandante dessa unidade, quando ela já se chamava Comando Leste do Exército, com sede no Rio. O 1.º Exército, compara o general, tinha uma organização igual às dos militares norte-americanos, com efetivos completos, muita munição e excelente armamento. "Os sargentos ficaram nervosos quando viram que teríamos de enfrentar o Regimento Escola de Infantaria (REI) e as baterias do Gesa, no Vale do Paraíba", lembra. "Os cadetes, na faixa de 20 anos de idade, eram bons soldados, mas ainda estavam no meio do curso de suas Armas - artilharia, infantaria, cavalaria, comunicações e material bélico."

 

Acordo. A paz se firmou na tarde de 1.º de abril, quando um avião C-47 da Força Aérea Brasileira desceu em Resende com o general Armando de Morais Âncora, comandante do 1.º Exército. Ele acumulava as funções de ministro da Guerra, porque o titular, general Jair Dantas Ribeiro, estava internado num hospital. Segundo as informações da Cadeia da Legalidade, montada pelo governador gaúcho Leonel Brizola para apoiar Goulart, o general comandaria a resistência às tropas rebeladas de Minas e de São Paulo. Essas informações caíram por terra algumas horas depois, quando a Cadeia da Liberdade entrou no ar com a notícia de que Goulart havia "fugido" de Brasília para Porto Alegre e dali para o Uruguai.

 

O general Âncora foi a Resende para se encontrar com o comandante do 2.º Exército, general Amaury Kruel, que na véspera havia declarado seu apoio ao movimento contra o presidente da República. A decisão de Kruel só foi transmitida aos quartéis no fim da noite de 31 de março, quando as tropas dos generais Olympio Mourão Filho e Carlos Luiz Guedes, em Minas, já marchavam contra o Rio.

 

Os oficiais que aguardavam ordens têm explicações para uma aparente indecisão de Kruel. "O comandante do 2.º Exército, que tinha sido ministro de Goulart, tentou convencê-lo a abandonar a aliança com a esquerda, para ter o apoio dos militares, mas não conseguiu falar com o presidente", revelou o general Anápio Gomes Filho, de 92 anos, na época do Estado-Maior da 2ª Região Militar, em São Paulo. "Eu conversava muito com o major Vinícius Kruel, sobrinho do comandante, e lhe disse, em nome dos oficiais, que, com exceção de dois ou três generais, todos ficariam com ele, se decidisse apoiar o movimento."

 

A decisão do general Kruel foi comunicada aos cadetes da Aman, durante o casamento de um tenente com a filha de um coronel. Antes de a noiva partir o bolo, o pai avisou aos convidados que, por ordem do general Médici, todos deveriam ir para casa vestir o uniforme de combate e pegar o armamento, porque o movimento revolucionário ia estourar. "Eu não sabia de nada, porque era um simples tenente e não participava da conspiração", disse o general Muniz.

 

Russo. No ano anterior, ele havia servido no Rio e, pelo que se lembra, não havia conspiração na caserna. "Tínhamos um coronel janguista e um capitão que estudava russo porque, conforme comentava, essa era a língua do futuro", recorda Muniz.

 

Em São Paulo, era diferente. O general Nery participou, como tenente em Itu, da conspiração de oficiais superiores na Capital. O líder era o major Rubens Resstel. Em 1963, o tenente Nery assistiu a uma reunião, de uns 60 militares, na casa do comandante do 2.º Exército, general Pery Bevillacqua. "Um coronel falou do descontentamento da tropa contra a situação do País, sob ameaça de uma revolução comunista, mas o general Pery ficou mudo num canto", lembra o general Nery. "Foi um filho dele, civil, que pediu a palavra para advertir que o pai não embarcaria na aventura que lhe propunham, ao pedir seu apoio contra Goulart." Os oficiais se retiraram e, na semana seguinte, quase todos foram transferidos para Mato Grosso.

 

A notícia da decisão do general Kruel chegou a Itu pouco antes da meia-noite de 31 de março. "Eu tinha vindo dois dias antes do Rio, onde fui fazer uma cirurgia de garganta no Hospital Central do Exército; fui chamado por um mensageiro de meu regimento, com o aviso de que o movimento estava por estourar", diz Nery. A bateria do então tenente Nery alcançou Resende, onde deveria substituir os cadetes na estrada, mas não tomou posição de combate, porque a paz foi negociada antes.

 

"Tive a emoção, no entanto, de assistir ao desfile dos alunos da Aman, que entraram no pátio cobertos de lama, porque havia chovido muito", lembrou. De volta a Itu, na semana seguinte, os soldados do Regimento Deodoro foram recebidos com festa. Empresários da cidade tinham emprestado oito caminhões e uma camionete Rural Willys para o deslocamento dos militares. O comandante do regimento era o coronel Benedito Maia de Almeida e o subcomandante, o homem que coordenava a conspiração, era o coronel Diwal Correia Rodrigues.

 

Orgulhosos de terem participado do movimento, os generais Muniz e Nery acham que o regime militar deveria ter durado menos tempo, com a convocação de eleições diretas para a escolha de um presidente civil no fim do governo Castelo Branco, em 1967, ou no máximo em 1973, quando o general Médici era muito popular e poderia fazer seu sucessor. O problema, disse o general Nery, foram as guerrilhas do Araguaia, quando os comunistas recorreram à luta armada.

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