Saída negociada

Diretor-geral da PF entrou no cargo no início do governo Dilma e já viu seis ministros passarem pelo ministério da Justiça

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2017 | 03h00

A troca do diretor-geral da Polícia Federal nunca é simples, mas se tornou particularmente delicada com o avanço da Lava Jato sobre o Executivo e o Legislativo e a gritaria, dia sim e outro também, sobre supostos golpes contra a maior operação de combate à corrupção da história. Foi assim que Leandro Daiello foi se tornando “imexível”, mas ele pode estar se cansando.

Daiello assumiu a direção-geral em janeiro de 2011, no início do governo Dilma Rousseff, foi mantido no de Michel Temer e já está no sexto ministro da Justiça. Desde a Olimpíada do Rio, em agosto de 2016, ele já pediu para sair pelo menos três vezes, mas um ministro atrás do outro recusa a demissão.

Agora, ele estaria sendo irredutível, mas acertando algumas condições. As duas principais delas seriam: escolher o sucessor junto com o ministro da Justiça, Torquato Jardim, e ele próprio anunciar o escolhido à opinião pública. Isso seria importante para Daiello, como demonstração de prestígio e de liderança na “tropa”, e também para o governo, como forma de esvaziar ataques.

O mais temido deles seria a acusação, ou mesmo suspeita, de que a troca no comando da PF faria parte de uma grande manobra para esvaziar a Lava Jato e reduzir o papel da Federal nas investigações e operações especiais. O outro, uma consequência direta disso: a tentativa, equivocada, diga-se, de se juntar num mesmo saco a troca na PF e a nomeação de Raquel Dodge para a Procuradoria-Geral da República como parte dessa “manobra”.

Enquanto não há decisão, nem previsão de data, Daiello e Jardim vão acertando medidas para a PF, inclusive um processo de modernização tecnológica e um novo software conjunto de órgãos da Justiça, abrangendo a Federal. Outra medida seria a realização de concursos e a oferta de treinamento internacional para novos quadros da PF.

Há conversas, também, para retirar da PF a atribuição de emitir passaportes em 192 postos espalhados pelo País inteiro, o que não passa de mera burocracia e ocupa agentes que poderiam ser muito mais úteis em operações de campo, ou na inteligência, ou em outras funções diretamente vinculadas a ações policiais. Só se fala na Lava Jato, mas, neste exato momento, a PF tem 473 operações especiais a pedido da Justiça Federal.

As relações entre Daiello e Jardim, ou entre PF e Justiça, parece caminhar, portanto, dentro da normalidade e dos limites institucionais. Aliás, como o diretor-geral manteve com os ministros anteriores, desde que nomeado na gestão de José Eduardo Cardozo, no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Apesar disso, a Polícia Federal nunca deixou de fazer tudo o que tinha de fazer e de tocar as operações da Lava Jato com autonomia. “Doa a quem doer”, como se diz na corporação. Que assim continue...

Geddel. Preso ontem por tentar evitar a delação premiada de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro, Geddel Vieira Lima é envolvido em falcatruas numa vice-presidência da CEF no governo Dilma, mas, politica e midiaticamente, o que vale é que ele é do “PMDB da Câmara”, grupo político de Temer, e foi ministro no atual governo com assento no Planalto. Depois de Henrique Alves, Eduardo Cunha, Rocha Loures e Tadeu Filippelli, é mais um a piorar a imagem de Temer e mais uma ameaça de delação. Sem contar quem ainda não foi preso...

Goiás. A nova PGR, Raquel Dodge, é de Morrinhos. A presidente do STJ, Laurita Vaz, é de Trindade. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, é de Anápolis. E, do outro lado, estão os irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS, que são de Formosa e investiram em Anápolis. Goiás no centro do País e da crise.

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