Wilton Jr/Estadão
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Saída de Graça Foster exige pensar com calma

Alvaro Martim Guedes, Especial para o Estado

04 Fevereiro 2015 | 16h07

O mercado de ações ao anúncio, mesmo que não confirmado, da saída de Graça Foster da Presidência da Petrobrás, reagiu com um movimento de alta nos papéis negociados na Bolsa de Valores. Para muitos esse foi um sinal positivo para ocorrer uma mudança e substituição na alta hierarquia da empresa. Porém, é obrigatório refletir para um pouco além do que a “sabedoria” do mercado nos indica.

Graça Foster é comprovadamente uma profissional competente e que vinha enfrentando, há anos, os problemas internos herdados da administração anterior. Não era protagonista das dificuldades. Era a solução. Mesmo assim, paradoxalmente, a sua saída é vista como alternativa necessária, dada a situação patrimonial declinante da empresa. Por que isso?

Estamos passando por um período de crise de governança e governabilidade generalizada no setor público federal. A eleição para a presidência do País foi marcada pela disputa acirrada e com um resultado numericamente aproximado, dado o tamanho do colégio eleitoral. Além disso, a nova mandatária federal está diante de uma crise econômica séria e obrigada a implementar medidas contrárias ao declarado durante sua campanha. Como resultado, além do descrédito, muitos dos que assumem os novos cargos agem em compasso de espera. As verbas estão mitigadas e as incertezas são muitas. Para piorar o cenário, dentro da enxurrada de denúncias de corrupção, pessoas dignas e de grande valor para os interesses soberanos de um País, como é o caso de Graça Foster, estão sendo levadas junto com todo o tipo de indivíduos funestos.

Objetivamente essa empresa agora deverá designar, por meio do seu Conselho de Administração – que representa o acionista majoritário e é composto pela equivalente maioria de membros – a nova Diretoria e Presidência. Essa troca deverá ser rápida, mas, obviamente, já vinha sendo articulada em algum prazo anterior. Não se coloca como dirigente de uma estatal, que monopoliza um setor estratégico, alguém desqualificado e que não tenha sido convidado há bom tempo. Não se trata de segundo escalão de Estado. Trata-se de uma parcela do PIB nacional.

O problema que enfrentamos é grave, amplo e de solução incerta. São tempos ruins os que se vive. Mesmo que os novos dirigentes da Petrobrás venham a recuperá-la quanto ao imaginário especulativo, ainda restam passivos elevados, incapacidade de investimento, preços fortemente defasados, patrimônio desvalorizado e um mercado internacional em baixa. A calamidade em que se encontra a Petrobrás é superável somente com a substituição de seus dirigentes ou está a exigir algo maior?

ALVARO MARTIM GUEDES É ESPECIALISTA EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E PROFESSOR DA UNESP DE ARARAQUARA. 

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