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Marcos de Paula|Estadão

Roberto Jefferson e mais seis são indiciados por lavagem em Furnas

Policia Civil do Rio apresentou conclusões ao Ministério Público quase dez anos após as primeiras denúncias sobre o caso

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Fernanda Nunes,
O Estado de S. Paulo

27 Fevereiro 2016 | 15h41

Rio - Delator do mensalão, o ex-deputado federal Roberto Jefferson, presidente de honra do PTB, foi indiciado pela Delegacia Fazendária (Delfaz) da Polícia Civil do Rio pelo suposto crime de lavagem de dinheiro na estatal Furnas Centrais Elétricas, do grupo Eletrobrás. O inquérito foi concluído na sexta feira, 26, pela delegada Renata Araújo, que também indiciou outros seis suspeitos do mesmo crime e também por corrupção ativa. Os autos foram enviados ao Ministério Público Estadual (MPE), mais de dez anos depois do surgimento das primeiras denúncias do esquema que ficou conhecido como "Lista de Furnas". 

Entre os suspeitos, estão empresários, lobistas e políticos. O grupo, segundo a delegada, teria desviado R$ 54,9 milhões na contratação de empresas para a construção de usinas térmicas nos munícipios fluminenses de São Gonçalo (região metropolitana) e Campos dos Goytacazes (norte do Estado). O suposto esquema teria atuado de 2000 a 2004, nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Seria chefiado pelo então diretor de Planejamento, Engenharia e Construção, Dimas Fabiano Toledo. Por ter mais de 70 anos e ser coberto pelo benefício de prescrição do crime, Dimas não foi indiciado.

O relatório da Delfaz contém 38 páginas. Foi mandado ao MPE com 28 caixas do inquérito, iniciado na Justiça Federal e que declinou da competência em favor do Judiciário fluminense. Em nota, a delegacia informa que "há provas (da existência) de um esquema de arrecadação de vantagens indevidas (propinas)." Obras e serviços contratados por Furnas teriam sido superfaturados para permitir "o financiamento de campanhas políticas" e também para promover o "enriquecimento ilícito de agentes públicos, políticos, empresários e lobistas".

Políticos no exercício de mandato, cujos nomes também surgiram no escândalo, não foram investigados pela Polícia Civil do Rio, porque têm foro privilegiado. Nesse caso, as investigações devem ser conduzidas pela Polícia Federal, sob supervisão da Procuradoria da República e com julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Até agora, porém, não há sinais de que essas averiguações tenham avançado.

História. Jefferson, que teve o mandato de deputado federal cassado em setembro de 2005 depois de denunciar o mensalão, não foi encontrado ontem para comentar seu indiciamento. Em entrevista anterior, disse ao Estado ter negociado, em 2005, com o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, o pagamento de R$ 1 milhão por mês ao PTB nacional com recursos que sairiam do esquema. Em troca, o PTB abriria mão de indicar o diretor de Engenharia da estatal e o cargo continuaria ocupado por Dimas, nomeado no governo FHC. 

O ex-deputado contou na ocasião que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamava da proximidade entre Dimas e o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB). Queria tirá-lo da estatal. Jefferson disse ter sido informado por Dirceu, que R$ 3 milhões mensais do esquema de Furnas eram distribuídos entre partidos, políticos e executivos da estatal. Então, foi feito um acordo com o ex-ministro para que o PTB nacional passasse a receber o R$ 1 milhão antes destinado ao PT nacional.

Em reunião no Palácio do Planalto, em abril de 2005, porém, Lula, que não saberia dos pagamentos, não gostou de saber do acordo. Com ele, o funcionário Francisco Spirandel, escolhido pelo PTB, não seria mais indicado para o cargo. De acordo com Jefferson, Lula teria dito não aceitar a mudança e dito que ou aceitavam a nomeação de Spirandel ou ele demitiria Dimas de qualquer forma.

O presidente do PTB, então, teria cedido. A discordância teria provocado o escândalo do mensalão. Segundo Jefferson, Dirceu se vingou, envolvendo-o no esquema de corrupção nos Correios revelado em maio de 2005. Em resposta, Jefferson denunciou o mensalão e acusou Dirceu de comandar o mensalão.

Depois da entrevista de Jefferson, a defesa de Dimas repudiou em as acusações de envolvimento no caso. A defesa de José Dirceu e o Instituto Lula não comentaram as declarações de Jefferson.

 

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