Reforma agrária é esquecida em carta do MST

Em documento que encerra Congresso do MST, reforma é citada apenas uma vez

Agencia Estado

18 Junho 2007 | 09h39

O 5º Congresso Nacional do Movimento dos Sem-Terra foi encerrado nesta sexta-feira, 15, após divulgação de uma carta de compromissos do movimento, composta por 18 itens tirados após cinco dias de discussões no congresso. Destes, apenas três dizem respeito direto à reforma agrária. O termo, que foi tema do congresso, é utilizado somente uma vez ao longo do enunciado da carta. O evento mobilizou 18 mil militantes de 24 Estados e 181 convidados internacionais de 31 países. No primeiro item, o MST se compromete a "articular com todos os setores sociais e suas formas de organização para construir um projeto popular que enfrente o neoliberalismo, o imperialismo e as causas estruturais dos problemas que afetam o povo brasileiro". A luta contra as privatizações e a transposição do Rio São Francisco estão à frente da questão que trata da desapropriação dos latifúndios e propriedades de bancos e de capital estrangeiro. As questões ambientais são abordadas em cinco itens, entre eles o combate ao uso de agrotóxicos, a defesa e não privatização da água, a preservação das matas e o fim das queimadas para expansão do agronegócio. O MST lutará também para combater as empresas transnacionais que controlam as sementes e o comércio agrícola e pedirá a expropriação sem indenização do latifúndio em que for constatado trabalho escravo. Apenas a partir do oitavo item o movimento passa a tratar de temas ligados à reforma agrária, como a violência no campo e a limitação no tamanho da propriedade. Propõe ainda a produção de agrocombustíveis sob o controle dos camponeses e a defesa das sementes nativas. A reforma agrária também depende dessas questões, segundo ele. "Não é uma luta dos sem-terra, mas da sociedade. É um projeto que depende de mudanças no modelo econômico que privilegia o agronegócio e o capital financeiro." O MST vai se articular com outros movimentos sociais campesinos e de setores urbanos para um combate "duro e forte" ao agronegócio, segundo Mauro. "Para isso, precisamos do apoio de outras forças sociais." Estão previstas jornadas unificadas de luta, como as ocorridas nos dias 1 e 23 de maio deste ano, com bloqueios de rodovias e invasões. Na Semana da Pátria, em setembro, além de um plebiscito sobre a reestatização da Companhia Vale do Rio Doce, haverá ações contra os transgênicos. A questão ambiental é uma das prioridades da carta, segundo ele, não apenas para buscar o apoio da sociedade, mas para alertar que a humanidade corre perigo com a destruição dos recursos naturais. Encontro com Lula Depois de cinco dias de críticas ao governo durante o congresso em Brasília, o MST quer agora uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir a retomada dos assentamentos. Segundo Gilmar Mauro, o MST vai pedir uma reunião para discutir, além de uma nova proposta para a reforma agrária, questões que já estavam pendentes, como mais crédito para os assentados e o assentamento de 140 mil famílias acampadas no País. Através de interlocutores, o presidente Lula havia manifestado interesse em ir ao encontro, mas a idéia foi vetada pelo MST, sob o argumento de que as discussões eram internas. Na ocasião, ficou acertado que o movimento se encontraria com o presidente depois do congresso. "Espero que seja logo", disse Mauro. "A partir de amanhã (sábado) estamos à disposição para sentar com o presidente." Nesta sexta, o ministro da Educação, Fernando Haddad, visitou a escola itinerante, antes que o acampamento montado em Brasília começasse a ser desmontado. Ele ouviu relatos de alunos sobre a situação do ensino nos acampamentos e ganhou uma mochila recheadas de reivindicações feitas pelas crianças. Haddad prometeu estender às escolas dos assentamentos do MST um programa de transporte escolar do governo e o Proinfo Rural, programa de inclusão digital no campo. Na sessão final do congresso, foi lida uma mensagem do Subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional Mexicano, expressando sua "admiração" pelo MST. O comandante Marcos, que em 1994 liderou um movimento guerrilheiro nas montanhas de Chiapas, no México, comparou a luta do MST com a do general Emiliano Zapata, que em 1910 liderou a revolução por "terra e liberdade". O MST já havia recebido mensagens de solidariedade do presidente cubano, Fidel Castro, e da Venezuela, Hugo Chavez.

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