Reforçar a pinguela

A ordem no governo é se segurar até 2018

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2016 | 05h00

A despeito do agravamento da crise política e da pesquisa Datafolha que mostra a queda vertiginosa da aprovação a Michel Temer, com apoio à sua renúncia e a realização de eleições diretas, a ordem no governo é se segurar até 2018.

Tragados junto com o PMDB de Temer para o olho do furacão da delação da Odebrecht, os partidos aliados, por ora, estão dispostos a “reforçar a pinguela”, adjetivo dado por Fernando Henrique Cardoso ao mandato-tampão do presidente, e reforçado pelas revelações da primeira de 77 delações da principal empreiteira do País.

O discurso uníssono é de que é necessário separar o “joio” (enriquecimento ilícito por meio de propina) do “trigo” (financiamento de campanha conforme a cultura política amplamente aceita).

Temer e Aécio Neves se reúnem nesta segunda-feira. Aliados do presidente apostam todas as fichas no discurso de que é preciso tocar a pauta econômica, e não ficar “refém” da agenda da Lava Jato. 

Auxiliares palacianos minimizam as revelações de Cláudio Melo Filho, o lobista cuja delação vazou. Dizem que fatos por ele narrados são “incongruentes” e que muitos pleitos (projetos no Congresso, ações do Executivo) pelos quais ele diz que a empreiteira pagou a aliados do governo não se concretizaram. 

Por fim, minimizam a importância de Romero Jucá, Eliseu Padilha e Moreira Franco nos últimos anos: o resolvedor de problemas na Câmara seria Eduardo Cunha – que, afinal, já é carta fora do baralho – , e não os fiéis escudeiros do presidente.

DIRETAS

Aliados de Temer veem tempo exíguo para eleição

Diante do crescimento do coro por “Diretas-Já” nas ruas e em setores do Congresso, aliados do governo ainda se mostram confiantes de que não haverá tempo hábil para se aprovar uma emenda constitucional para isso no ano que vem. Além disso, o fato de a cúpula do Legislativo também estar no glossário de apelidos da Odebrecht reforçaria a falta de legitimidade de deputados e senadores para fixarem eleições só para a Presidência.

TSE

Governo aposta em maioria anticassação

Em outra frente que inspira cuidados, o governo calcula que terá maioria entre os 11 ministros do Tribunal Superior Eleitoral para evitar que o tsunami da Odebrecht leve à cassação de Temer. Ainda que o relator, Herman Benjamin, esteja dando mostras de que pode votar pela perda do mandato, está no cálculo do Planalto o fim do mandato de dois ministros – Luciana Lóssio e Henrique Neves – até abril. O governo está seguro de que o julgamento não será marcado antes disso.

VAI FICANDO

Presidente não pensa em demitir Padilha

Alvejado na testa pela delação de Cláudio Melo Filho e alvo de investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, Eliseu Padilha não corre risco de demissão imediata da Casa Civil por ora, garantem interlocutores do presidente. Ele é considerado peça-chave na votação da reforma da Previdência e, mais que Geddel Vieira Lima e Moreira Franco, é visto como “quem fala em nome do presidente”.

TERMÔMETRO

Delação vazada seria ‘top 5’ no rol da Odebrecht

O abalo sísmico provocado pela primeira delação a vazar do acordo da principal empreiteira do País levou pânico às hostes políticas. Procuradores e advogados que acompanham a delação classificam Cláudio Melo Filho, o “homem de Brasília”, como um dos “top 5” em grau de octanagem das revelações. Um dos mais “tóxicos”, alertam os insiders, será Benedicto Junior, ex-presidente da construtora. O cálculo do número de políticos envolvidos na delação da empresa já passa de 200.

REFORMAS

Maioria dos brasileiros desconhece propostas

As principais propostas que estão em discussão no Congresso são desconhecidas pela população. É o que mostra a pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira, feita pelo Ibope Inteligência para a CNI (Confederação Nacional da Indústria). Só 43% dizem conhecer a reforma da Previdência e só 33% estão cientes da proposta que fixa o teto de gastos federais.

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