Reeleger governador é novo tabu dos gaúchos

Poucos Estados preservam tanto suas tradições quanto o Rio Grande do Sul, e a política não fica alheia a essa característica. Mudar de partido é quase tão grave quanto mudar de time de futebol, e isso raramente passa incólume pelo exigente eleitorado gaúcho, que desde os anos 90 vem cultivando uma espécie de tabu. Desde que foi instituída a reeleição, em 1997, nenhum governador foi reeleito - uma curiosidade no Estado que, no início da República, criou caudilhos como Borges de Medeiros, um dos mais longevos governadores na história do País.

LUCIANA NUNES LEAL, ENVIADA ESPECIAL, Agência Estado

07 Junho 2014 | 09h09

Eleito em 2010 para o Palácio Piratini, o petista Tarso Genro tenta romper essa nova tradição. Na semana passada, reforçou a chapa da reeleição com a candidatura do ex-governador Olívio Dutra (PT) para o Senado. No 5.º maior colégio eleitoral do País, quatro partidos da base da presidente Dilma Rousseff - PT, PP, PMDB e PDT - disputam o governo do Estado. Apesar de evitarem mudar de partido, os pré-candidatos gaúchos não são necessariamente fiéis às alianças das direções nacionais. Tanto que, dos quatro partidos acima, só o PT está com Dilma, mineira que passou a maior parte da vida em Porto Alegre.

O principal adversário do governador é a senadora Ana Amélia Lemos (PP), aliada do pré-candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves. O embate entre Dilma e o tucano se reproduz na disputa local. Ana Amélia se alia a Aécio no discurso de enxugamento da máquina e racionalização de gastos. Tarso, como a presidente, põe em dúvida a disposição dos adversários de manterem os investimentos em programas sociais. "Não há descontrole das finanças do Estado, o que há é um controle para sair de uma crise herdada. Choque de gestão é o discurso do Aécio repetido pela Ana Amélia, que é uma figura respeitável, mas que nunca foi gestora e não conhece a estrutura do Estado. É preciso dizer que os gastos que aumentamos são sociais", diz o governador.

Tarso defende a estratégia do PT de difundir o medo ante o risco de vitória da oposição. "Não se faz choque de gestão sem que se cortem recursos. Como o pagamento da dívida não pode ser cortado, o corte só pode ser no arrocho salarial e nos programas sociais. Isso é um equívoco. É apostar na recessão e no aumento do desemprego", ataca o petista, que ocupou três ministérios (Educação, Relações Institucionais e Justiça) no governo Luiz Inácio Lula da Silva.

O petista conta com a aprovação pelo Senado, esperada para novembro, do projeto de lei que muda o indexador da dívida de Estados e municípios para reduzir o déficit orçamentário. Em 2013, o déficit foi de R$ 1,4 bilhão, agravado, segundo o governo, pelo rombo previdenciário e pelos pagamentos da dívida e de precatórios. Ana Amélia critica o "pouco compromisso dos governantes com o controle de gastos". "Terei de assumir um Estado com gravíssimos problemas financeiros e estruturais. Meu mantra é trabalhar muito e economizar o máximo para o Estado", diz. "Sou uma pessoa pé no chão e vejo as coisas com simplicidade. Quando uma família está endividada, todos entram em processo de comprometimento para sair do vermelho." A senadora admite que disputar o governo não estava nos planos, mas o interesse do PP gaúcho falou mais alto. "De um lado me alegra e, de outro, me atemoriza, pelo tamanho do desafio."

Neutralidade

Embora a direção nacional do PP tenha declarado apoio à reeleição de Dilma, líderes estaduais aliados de Aécio se esforçam para aprovar na convenção nacional a neutralidade do partido, a fim de garantir a presença do tucano no material de campanha e no programa de rádio e TV. "Não adianta liberar o partido regionalmente se eu não puder colocar o Aécio na minha propaganda", diz Ana Amélia. Antes do acerto com o PSDB, a senadora se aproximou do pré-candidato do PSB, Eduardo Campos, mas a Rede Sustentabilidade, grupo da ex-ministra Marina Silva, reagiu por causa da ligação de Ana Amélia com o agronegócio.

Pesquisa Ibope/RBS realizada entre 27 e 31 de março e divulgada em 5 de abril aponta Ana Amélia na liderança, com 38%, seguida por Tarso, com 31%. Pré-candidato do PMDB, o dissidente José Ivo Sartori, que se aliou a Eduardo Campos na disputa presidencial, tem 5% dos votos. Com 3% aparece Vieira da Cunha (PDT), aliado ao DEM e ao PSD, que deverá abrir o palanque a vários presidenciáveis. Roberto Robaina, do PSOL, ficou com 1%. A pesquisa registrada no Tribunal Regional Eleitoral sob o número RS-00003/2014 teve 812 entrevistados. A margem de erro é de três pontos porcentuais.

"Tradicionalmente as eleições no Rio Grande do Sul são muito polarizadas. O PP tem crescido, tem força no agronegócio e militância na juventude. As coisas estão marcadas, com Tarso à esquerda e Ana Amélia à direita. Mas não se pode desprezar a força do PMDB, que sempre pegou um eleitorado de centro", diz o cientista político Benedito Tadeu César, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O governador usa o discurso polarizado não só na busca pela reeleição, mas para defender suas posições dentro do PT - Tarso faz parte da corrente que prega mudanças no partido, com alianças no campo da esquerda e reaproximação dos movimentos sociais. "O PT, com a sua condição de partido de governo, se aproxima de um pragmatismo perigoso. No futuro, tem de assumir novamente uma função transformadora na sociedade", diz. "Se não o fizer, o campo popular, de esquerda, vai se fragmentar em milhares de micro-organizações e a direita e a centro-direita vão reinar por muito tempo."

Nas questões do cotidiano dos gaúchos, um dos flancos em que Tarso é mais atacado pelos adversários está no fato de não aplicar o piso nacional dos professores, instituído por ele próprio no Ministério da Educação. O petista alega que o Congresso, ao votar a lei, mudou o indexador, o que inviabilizou o pagamento. O Estado paga um complemento mensal aos professores fora do salário oficial. Além desse tema, para Benedito César a campanha gaúcha também discutirá a própria concepção de Estado e infraestrutura. "O Rio Grande do Sul depende da produção agrícola, mas não tem como escoar a produção." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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