Quem é mais anti-Lula

Alckmin patina e as forças de centro estão se guardando para quando o carnaval chegar

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2017 | 03h00

Ao mesmo tempo em que viabiliza sua candidatura à Presidência da República, Geraldo Alckmin patina nas pesquisas e atrai pressões e ataques especulativos de dentro e de fora do PSDB e até mesmo de adversários. Isso significa fraqueza, mas também pode significar força.

Se Alckmin não empolga, está em quarto lugar e não consegue criar a expectativa de vitória, por que ele incomoda tanto, preocupa tanto, mobiliza tanto os adversários? Porque, em uma política polarizada como continua sendo a brasileira, um candidato do PSDB, qualquer que seja, ainda é um fator relevante na eleição. Especialmente se o PT é quem lidera.

Ao dizer que os antilulistas estão migrando para Jair Bolsonaro, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, não faz uma mera constatação e sim exercita uma estratégia: insuflar Bolsonaro e minimizar Alckmin. Apesar dos pesares, para Lula é melhor Bolsonaro do que Alckmin no segundo turno.

Bolsonaro se consolidou e não faltam relatos de como é recebido em festa pelo País afora e estimula anônimos a lançarem camisetas para ele no Aeroporto de Brasília, outdoors em Criciúma (SC) e adesivos de carro em Natal, para ficar em poucos exemplos. Mas Bolsonaro não tem a estrutura partidária, as alianças, o tempo de TV, os recursos e a experiência de Alckmin. E, ao contrário de quem é governador de São Paulo, também não tem muito o que mostrar em uma campanha.

Logo, o tucano Alckmin é “mais perigoso” para um candidato petista do que um deputado que vive há 25 anos da política, mas se diz antipolítico. Por isso, os petistas vão martelar o oposto: que Bolsonaro é o anti-Lula e Alckmin não está com nada. Para bom entendedor, basta: eles temem Alckmin.

A vida do tucano, porém, não está nada fácil e a cobrança sistemática é de que Alckmin tem prazo: ou encorpa nas pesquisas até fevereiro, ou vai enfrentar competição interna. Ali ao lado, na espreita, estarão João Doria e Luciano Huck. Eles estão praticamente fora do páreo, mas “praticamente” não quer dizer “totalmente”.

Hoje, é surpreendente que Alckmin esteja empatado com Ciro Gomes, apesar das gritantes diferenças de condições entre eles, a começar do óbvio: um tem a exibição de governador do principal Estado, o outro está sem mandato. Mas nem os mais críticos a Alckmin creem que isso se manterá assim.

O foco das articulações é aglutinar forças políticas, mas as forças disponíveis estão com o pé atrás. Bolsonaro não agrega, Lula está vendo o PSOL, a Rede e até o PCdoB lançarem candidatos próprios e Alckmin tenta uma articulação malandra: quer que o governo e o PMDB o apoiem, mas sem ele e o PSDB apoiarem o governo e o PMDB. Ou seja: ele quer usufruir das facilidades do governo, mas sem dividir o desgaste de popularidade. A política não costuma funcionar assim. Aliás, nem as relações comerciais e pessoais.

As mexidas no tabuleiro de 2018, onde já estão colocados Lula (na dependência da Justiça) e Bolsonaro, são o lançamento de Marina Silva em uma cerimônia simplória, o anúncio de que o PCdoB vai de Manuela D’Ávila e a expectativa do PSOL de trocar Luciana Genro por Guilherme Boulos na cabeça de chapa.

Henrique Meirelles? Ex-presidente do BC nos oito anos de Lula, ele não tem um só voto no PT. Ministro da Fazenda de Temer, nunca teve uma só palavra de apoio público à sua candidatura. Filiado ao PSD, vê Gilberto Kassab, presidente do partido, se guardando para quando o carnaval chegar. Meirelles diz que o governo terá candidato, mas não será Alckmin. Pode até não ser, mas depende do cenário em fevereiro. Ou melhor: depende da capacidade de Alckmin empolgar e se afirmar como “o cara” para unir o centro contra “a ameaça” Lula versus Bolsonaro.

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