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Quem com ferro fere

Dora Kramer

Numa coisa o PT está certo: as manifestações contra o governo em geral, o partido de modo específico e a presidente Dilma Rousseff em particular refletem mesmo um sentimento de forte rancor.

Uma espécie de reverso daquele amor que explodiu em 2002, resistiu às intempéries dos escândalos de 2005/2006, renovou-se de modo mais ameno em 2010 e agora vai ao extremo oposto em forma de exaustão captada pelas pesquisas.

Nada disso torna aceitáveis os insultos dirigidos à presidente na abertura da Copa. Leitores escrevem para dizer que a rudeza vocabular faz parte do espetáculo futebolístico e que ao criticá-la demonstro ausência de familiaridade com o ambiente dos estádios.

De fato. Além disso, nutro especial ojeriza por palavras chulas, talvez por extremo apreço ao idioma de tão variadas e belas possibilidades.

Poderíamos ir em frente considerando o episódio chuva que já choveu se o ex-presidente Lula da Silva não tivesse visto nele uma oportunidade para tentar mais um daqueles contra-ataques em que aponta defeitos no outro sem olhar para o espelho.

O uso de palavrões e termos grosseiros para se referir aos adversários em público sempre foi marca de Lula na oposição e no governo. Fez isso contra presidentes da República, inclusive. E também quando investido na Presidência. Não é, portanto, o professor mais credenciado a dar aulas de etiqueta e civilidade a quem quer que seja.

No tocante ao "ódio de classes" ao qual se referiu para dizer que ali naquele estádio estavam ricos atacando a única pessoa com "cara de pobre" (desde quando?) que havia no ambiente, tampouco é locutor autorizado.

Pois foi ele quem desde o início do governo fez do bordão "nós contra eles" uma hipotética arena de luta de classes mediante a qual haveria uma divisão no Brasil, sendo que o nós" eram todos os que apoiavam o governo (ricos, pobres, conservadores, progressistas) e "eles" os que ousavam discordar.

Foi o PT que adotou durante todo o tempo em que seus governos obtiveram alta aprovação popular um tom francamente agressivo e zombeteiro em relação aos críticos.

Uma palavrinha a mais para encerrar, por ora, o caso do estádio: o ex-presidente no dia seguinte prestou solidariedade à presidente entregando a ela uma rosa branca. Bonito gesto. Mais corajoso e solidário, porém, teria sido se tivesse ido ao jogo de estreia da Copa de que foi o maior patrono para dividir com a criatura os ônus do conjunto de uma obra à qual o País dá fortes sinais de rejeição.

Quanto às maneiras rancorosas, Lula as escolheu como armas de combate. Nem por isso se deve considerar aceitável que população e candidatos de oposição se utilizem de igual falta de modos.

Há mesmo, como dizia no início, uma sensação de repulsa latente no ar. O PT captou isso, fez de conta que o sentimento é coisa da "zelite" mancomunada com a oposição e incentivada pela imprensa e repaginou o slogan do "a esperança venceu o medo", substituindo-o por "a esperança vencerá o ódio".

Bem sacado. Faltando apenas adaptar a segunda parte do roteiro. Lá atrás havia de fato uma esperança, de "mudança". Agora, para dar certo o eleitorado que, segundo as pesquisas, vem perdendo a confiança no governo, precisa ser convencido de que vale a pena ter fé. A questão é: fé em quê?

Por um triz. Houve um momento especialmente tenso na convenção do PSDB, no último sábado. Foi quando o deputado e presidente do partido Solidariedade, Paulinho da Força, em sua conhecida deselegância referiu-se ao coro de insultos no jogo de abertura da Copa contra a presidente Dilma Rousseff.

No discurso de saudação a Aécio Neves mostrou-se tão animado com a grosseria, que por alguns instantes os tucanos temeram que ele pudesse puxar refrão "Ei, Dilma, vai...". O que levaria, na avaliação do PSDB, a convenção a um desastre irreparável.