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Entrevista. Márcio Adriano Anselmo

Delegado da PF diz que investigação vai continuar e que um dos méritos da Operação Lava Jato foi ‘escancarar’ a corrupção

‘Quem achava que o crime compensa, hoje talvez repense’

Ricardo Brandt e Fausto Macedo

- Atualizado:19 Março 2016 | 16h 50

Em julho de 2013 começava a apuração da Operação Lava Jato, em Curitiba. Um inquérito sobre uma operação suspeita de lavagem de dinheiro colocou no radar uma empresa de Londrina ligada à família do deputado federal José Janene (PP-PR), morto em 2010, e o Posto da Torre, conhecido por vender, além de combustível, dólar no mercado negro.

Defesa. Para delegado da PF Márcio Anselmo, trabalho da Lava Jato não se sustenta apenas em delações

Defesa. Para delegado da PF Márcio Anselmo, trabalho da Lava Jato não se sustenta apenas em delações

O delegado Márcio Adriano Anselmo, que começou as apurações com a delegada Erika Mialik Marena, só percebeu estar diante de esquema complexo de corrupção no início de 2014, quando surgiu o nome “Beto” nos monitoramentos telefônicos. Era Alberto Youssef, doleiro condenado no caso Banestado. Dois anos depois - completados na quinta-feira, a apuração de ocultação de R$ 4 milhões virou o maior caso de corrupção do País, com R$ 6,2 bilhões de propinas já apurados em desvios na Petrobrás.

DELAÇÕES PREMIADAS

Para o delegado, as delações tiveram papel fundamental nas investigações até aqui. Ele diz, no entanto, que a colaboração não funciona sozinha. “Se você não tiver uma investigação bem feita, o colaborador não vai se ver motivado.” O delegado nega que a operação esteja sustentada apenas em delações. “A primeira fase não teve colaboração, a 23.ª (Acarajé, que teve o marqueteiro João Santana como alvo) não teve. E talvez seja uma das mais bem instruídas. São alguns pilares que sustentam a investigação: a apuração bem feita com material probatório, desde quebra de sigilo bancário, fiscal, interceptação telefônica, de e-mail, cooperação internacional e a colaboração. Não dá para falar que a Lava Jato é feita só na base da colaboração. Isso é totalmente errado.”

FUTURO E PRESSÃO

“Enquanto tiver equipe, enquanto tiver condições de trabalhar sem interferência, acho que esse trabalho vai continuar”, diz o delegado. Ele cita a recente troca de ministro da Justiça. “Muitas pessoas têm defendido que deveria ter alguém para controlar a polícia. Qualquer pessoa que assumir aquela cadeira deve ter em mente que isso, em um estado democrático de direito, não é mais possível. Não adianta trocar ministro. O trabalho vai continuar.” 

‘VAZAMENTOS’

Sobre críticas referentes a “vazamentos seletivos” da operação, Anselmo diz que o que é chamado de “vazamento” é, na verdade”, processo que teve o sigilo levantado. “Tem situações pontuais de vazamento, principalmente em casos de colaboração, que estão sendo investigadas. Mas a maioria do que se fala ‘vazamento’ é processo que foi levantado sigilo.”

CORRUPÇÃO

O delegado cita um advogado que disse que não se colocava um paralelepípedo no País sem pagar para alguém. “A Lava Jato conseguiu escancarar isso de maneira indiscutível e talvez a grande lição é que é possível ter uma persecução criminal para esses crimes e que essas pessoas estão começando a responder por eles. Quem tinha a expectativa de que o crime compensa, talvez hoje repense.”

INVESTIGAÇÃO ABERTA E APOIO POPULAR

“Talvez exista uma relação direta (do envolvimento e apoio da população à Lava Jato) com a posição do doutor Sérgio Moro de afastar o sigilo nesses casos de corrupção para que se tenha um controle social efetivo. O que acontecia nessas investigações ficava encoberto em escaninhos do Judiciário e ninguém tinha a noção da gravidade dos fatos. Isso foi fundamental para que a população tomasse conhecimento do que estava acontecendo e de que isso não vai mais ser admitido. Acho que isso deve ser um legado da Lava Jato.”

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