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1964

Propaganda igualava a esquerda a Hitler

Wilson Tosta - O Estado de S.Paulo

28 Março 2014 | 14h 58

Sem menção direta ao governo João Goulart, filmes que incentivaram o golpe também atacavam ‘desordem’ e associavam reformas a suposta ação do ‘totalitarismo’ da URSS

RIO - Imagens de Hitler, Stalin, Lênin e Mussolini misturam-se a fotos de Che Guevara, Fidel Castro e Kruchev e de greves no Brasil do início dos anos 60. Aparecem ainda prisioneiros famélicos em campos de extermínio da 2ª Guerra Mundial e demonstrações de massa nazistas, com pronunciamentos em alemão do Führer de braço estendido, e divagações sobre problemas brasileiros, como o sistema portuário e a miséria no Nordeste. O toque mais forte de Guerra Fria vem de cenas da revolta da Hungria de 1956, com cidadãos disparando inúteis tiros de fuzil contra blindados da União Soviética e mortos espalhados nas ruas. Tudo marcado pela voz empostada do locutor Luiz Jatobá, com frases dramáticas como a definição do destino dos húngaros: "Eles preferiram a morte à tirania".

Produzidos pelo fotógrafo Jean Manzon, que formou uma polêmica dupla com David Nasser na revista O Cruzeiro nos anos 50 - há ainda um episódio com a assinatura de Carlinhos Niemeyer do Canal 100-, 14 filmetes de propaganda do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) ajudaram na doutrinação da população para o golpe militar de 1964.

Com duração variável, em torno de 10 minutos, foram exibidos em cinemas, empresas e praças e estavam entre as iniciativas de propaganda da instituição surgida oficialmente em 29 de novembro de 1961, pela articulação de empresários e militares que discutiram política desde o governo Jânio Quadros e, agora, queriam o poder sem intermediários.

O Ipes foi financiado por companhias brasileiras e norte-americanas e tinha entre seus dirigentes o general Golbery do Couto e Silva. Coordenou ações com outras organizações, como a Campanha da Mulher pela Democracia (Camde) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), objeto em 1963 de uma CPI no Congresso por ser acusado de financiar campanhas eleitorais no ano anterior com dinheiro dos EUA. Sediado no Edifício Avenida Central, no Rio, o Ipes desenvolveu atividades conspiratórias e de inteligência, como o grampeamento de 3 mil linhas telefônicas, além da propaganda como a dos filmes.

Não há neles nenhum ataque direto ao governo João Goulart, nem às reformas de base. Há críticas ao atraso brasileiro, à má situação dos portos, à pobreza, à ação dos "demagogos", à péssima condição das ferrovias, "às greves, algumas políticas" que acabavam "por provocar prejuízos a toda a coletividade". São feitos elogios à Igreja Católica, presente na maioria dos filmetes com imagens da encíclica papal Mater et Magistra e algumas vezes com elogios à ação de sacerdotes supostamente moderadora de conflitos sociais. Os espectros do comunismo e da guerra, porém, rondam boa parte do material do Ipes.

"Na Hungria em 1956, o povo pegou em armas para lutar contra a opressão totalitária. E nós? Que preço pagaremos nós pela liberdade?", declarava o locutor no filmete Depende de Mim. Todos os episódios, filmados em preto e branco, estão disponíveis para pesquisa no Arquivo Nacional. Os filmes foram parte do esquema de comunicação do Ipes, do qual participavam escritores como Rachel de Queiroz (1910-2003) e Rubem Fonseca, e que tinha ramificações na grande imprensa da época.

Em aparente esforço para equiparar os comunistas aos nazistas, o Ipes fez de Hitler um "ator" frequente dos seus filmetes. Sua figura de bigodinho, roupas militares e braço em saudação povoou episódios como "O que é o Ipês" (com circunflexo), no qual afirma-se que o ditador "não teria dominado a Alemanha (...) se as elites dirigentes alemãs tivessem compreendido a necessidade de tudo fazer para impedir o choque aberto e violento entre a direita e a esquerda antes que fossem colocados diante da terrível opção: nazismo ou comunismo".

"E nós?" diz o locutor. "Para onde estamos sendo conduzidos? O Brasil vive momentos difíceis. As manifestações populares tornaram-se cada vez mais opressivas. A inquietação atinge os lares. Os demagogos agitam a opinião pública (...)."Em alusão a Goulart, afirma que "não há Fidel Castro sem um (Fulgencio) Batista (ex-ditador cubano) que o preceda".

O filmete Nordeste, Problema Nº1 demonstra escândalo com as altas taxas de mortalidade infantil na região e as atribui à "subnutrição", à "ignorância". "Muitas mães nordestinas curam ainda hoje o umbigo dos recém-nascidos com uma mistura de teia de aranha e estrume de vaca", enoja-se. Aos empresários , o Ipes deu um recado no filme Conceito de Empresa. "Mesmo que os demagogos o poupem, não se iluda, pois o seu dia chegará. (...) Pouco a pouco, o polvo demagógico há de querer abraçar mortalmente todas as indústrias".

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