Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Projetos de rede Wi-Fi de Pansera não decolam

Ministro da Tecnologia implementou programas no passado que hoje falham

Juliana Dal Piva, O Estado de S. Paulo

11 Outubro 2015 | 03h00

Atualizado às 16h54.

RIO - Dois programas de acesso gratuito à internet implementados pelo atual ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Celso Pansera, funcionam de maneira precária. O Rio Estado Digital e o Faetec Digital foram criados sob o comando do peemedebista, mas o Estado constatou não haver qualquer tipo de conexão em sete dos nove pontos da Região Metropolitana onde os dois projetos foram inaugurados por Pansera, no período em que presidiu a Fundação de Apoio à Escola Técnica, de 2009 a abril de 2014. Segundo o governo do Rio e o Tribunal de Contas, os projetos custaram aos cofres públicos ao menos R$ 19,8 milhões desde o início das atividades.

Ministro que entrou na cota do PMDB na reforma recém-promovida pela presidente Dilma Rousseff, Pansera foi nomeado pelo então governador Sérgio Cabral (PMDB) por indicação do secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Alexandre Cardoso, hoje prefeito do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

O Rio Estado Digital foi moldado para fornecer acesso à internet por meio de 16 grandes redes de Wi-Fi. A maioria está na capital. Treze delas cobrem alguns dos principais pontos turísticos, como o Aterro do Flamengo, a orla de Copacabana, Leblon e Ipanema e o entorno do estádio do Maracanã, e também favelas populosas, como Rocinha, Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Cidade de Deus e Complexo do Alemão, entre outras.

 

Já o Faetec Digital consiste em uma rede de salas com máquinas para imprimir documentos e computadores disponíveis ao usuário por um período de 30 minutos. Um mês antes de deixar o cargo de presidente da entidade, Pansera inaugurou três polos em favelas na zona sul do Rio. Ao todo foram criadas 115 unidades do tipo, mas, desde o início do ano, 53 salas já foram fechadas.

Os únicos locais onde a conexão funcionou de modo intermitente foram o Maracanã e a orla de Copacabana. “Não fica nem dois minutos (conectado). Depois vem o aviso de que acabaram as duas horas do dia. Eu desisto”, diz Elizabeth Silva, caixa de quiosque no Leme, canto esquerdo da praia de Copacabana.

Em abril de 2011, Pansera esteve na localidade de Parada Angélica, em Duque de Caxias, sua base eleitoral, para inaugurar a antena de Wi-Fi e uma sala do Faetec Digital com nove computadores para uso livre de navegação na web. Na semana passada, porém, a reportagem verificou, na quarta e quinta-feira, que a sala foi fechada e a rede de internet não funcionava.

O soldador Douglas Botelho, de 25 anos, contou que costumava usar o serviço, apesar das frequentes dificuldades de conexão. “Depois que fechou a sala, parou. Antigamente, o pessoal usava com tablet e até notebook”, afirma ele, ao mostrar o celular sem rede. 

A sala do projeto de Parada Angélica foi levada para dentro da unidade escolar da Faetec em Imbariê, distante 3 km do ponto original, sem orientação e explicação aos moradores. A monitora da sala transferida, Rose Couto da Silva, de 55 anos, afirma que o serviço era importante para a população. “Agora, é mais para os alunos. Lá, a maioria era de pessoal de fora. Tinha serviço para a população. Aqui fica escondido”, pontuou.

O Estado também não obteve conexão nas favelas do Pavão-Pavãozinho, Rocinha e Santa Marta (zona sul) e no Alemão, na zona norte. A estudante Daiene Mendes, de 25 anos, que mora no Alemão, diz que só tem “uma vaga lembrança” do funcionamento do projeto.

Defesa. O ministro Pansera declarou, por meio de nota, que à época em que esteve no cargo, a Faetec definiu a tecnologia, as estratégias de público-alvo, a implantação dos equipamentos, além da manutenção de cada sistema, mas “as estratégias da atual gestão, a partir de abril de 2014, não nos cabe comentar”.

O Tribunal de Contas do Estado (TCE) informou que, apesar do programa ter começado em 2007, os gastos no Rio Estado Digital só foram registrados, com este nome, a partir de 2010. Em abril do ano passado, o tribunal notificou Pansera, ainda presidente da Faetec, para justificar a ausência de detalhamento do orçamento do pregão eletrônico em planilhas de contratação dos serviços do programa. A defesa apresentada ainda não foi julgada pelo TCE.

 

O governo informou que lançará edital de parceria público-privada para substituir o modelo montado pela Faetec, que teria operação de preservação e suporte complexos, segundo a Secretaria de Ciência e Tecnologia. Já no Faetec Digital, há a avaliação de que o serviço teve queda de interesse motivada pelo aumento de locais que oferecem Wi-Fi gratuito. Segundo a secretaria, algumas unidades foram incorporadas às escolas da Faetec e os pontos que tiveram as atividades encerradas devem ser cobertos em um projeto de internet comunitária.

Entre as redes de conexão Wi-Fi, a Secretaria admite que oito das 16 estão “ativas”.

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