Carlos Villalba R./EFE
Carlos Villalba R./EFE

Presidente do PT apoia as críticas de advogados à Lava Jato e politiza debate

À frente de um dos partidos mais atingidos pelas investigações, Rui Falcão endossa manifesto assinado por criminalistas contra 'desmandos' da força-tarefa

Letícia Sorg e Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2016 | 02h02

SÃO PAULO - O presidente nacional do PT, Rui Falcão, afirmou nessa segunda-feira, 19, em texto publicado no site do partido, que a carta aberta de advogados criminalistas acusando a ocorrência de "exageros" na Operação Lava Jato é "mais uma denúncia relevante" sobre os "desmandos perpetrados" pela força-tarefa formada por policiais federais, procuradores e magistrados.

O apoio público do presidente do PT às críticas dos advogados politizou o intenso debate iniciado na semana passada e foi interpretado nos bastidores do Congresso e dos órgãos envolvidos na investigação como uma evidência de que o partido, um dos mais afetados pelo avanço da Lava Jato, está atuando em conjunto com um grupo de criminalistas contratado por empreiteiros e parlamentares - o que os advogados negam.

As críticas à força-tarefa, em especial ao núcleo de Curitiba, onde atuam o juiz Sérgio Moro e o grupo de procuradores federais, também coincidem com a divulgação das citações ao nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró, preso desde o ano passado.

A operação já prendeu vários petistas, entre eles o ex-tesoureiro João Vaccari Neto, o ex-ministro José Dirceu e o senador Delcídio Amaral, e investiga suspeita de abastecimento de campanhas de candidatos do PT com dinheiro desviado da Petrobrás. Segundo Falcão, o fato de vários signatários defenderem presos pela operação não tira o mérito do documento, que foi divulgado na semana passada como "informe publicitário" nos principais jornais do País. O texto repudia a "supressão episódica de direitos e garantias" que estaria sendo praticada na Lava Jato.

O secretário-geral do PSDB (terceiro cargo na hierarquia do partido), deputado federal Silvio Torres (SP), afirmou que "claramente está em curso uma tentativa de desqualificar e enfraquecer a Lava Jato, especialmente as decisões do juiz Sérgio Moro e dos procuradores de Curitiba". Segundo ele, os tucanos apoiam as apurações e o trabalho da força-tarefa. O PSDB teve filiados citados nas delações premiadas, entre eles o próprio presidente do partido, senador Aécio Neves (MG).

Autoridades da Lava Jato avaliam que os ataques de advogados, políticos e partidos ocorrem porque a operação vai avançar ainda mais neste ano sobre o núcleo político do esquema de corrupção e desvios na Petrobrás.

Fotos. Para Rui Falcão, o combate à corrupção e aos seus praticantes não pode "servir à violação de direitos, nem tampouco para fragilizar a democracia, tão duramente conquistada". "É preciso vigilância e luta aberta contra este embrião de Estado de exceção que ameaça crescer dentro do Estado Democrático de Direito", afirmou Falcão em seu texto.

Publicado nessa segunda na Agência PT, o texto de Falcão criticou a divulgação de fotos de réus "em uma semanal da imprensa marrom", no fim de semana retrasado. Em sua edição do dia 9, a revista Veja mostrou imagens do ex-ministro José Dirceu e do empreiteiro Marcelo Odebrecht, entre outros, presos em Curitiba, sede da Lava Jato.

Falcão citou trecho do manifesto dos advogados para comentar o caso: "Promover-lhes o enxovalhamento e instigar a opinião pública". Ele exigiu uma resposta das autoridades às denúncias dos "exageros das delações forçadas, dos vazamentos seletivos de informações, ao excesso das prisões preventivas, para a espetacularização dos julgamentos, às restrições ao direito de defesa e ao trabalho dos advogados".

A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) repudiou o conteúdo da nota dos advogados, apontando acusações genéricas, e defendeu a atuação da força-tarefa, que há quase dois anos vem investigando um esquema de corrupção bilionário dentro da estatal petrolífera.

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