Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Por segurança, Temer muda rotina e dorme em Foz do Iguaçu

Planalto altera estratégia para preservar presidente, após preocupação com a possibilidade de enfrentamento entre grupos políticos no País

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2018 | 11h05

O presidente Michel Temer passou a noite no Paraná onde, na manhã deste sábado, participa de um painel do III Simpósio Nacional de Varejo e Shopping de Foz do Iguaçu. Na sexta-feira à noite, depois de posse de diretoria da Federação das Indústrias em Salvador, Temer voou direto para o Paraná, informação que foi omitida em sua agenda.

A decisão de ir direto para Foz do Iguaçu, sem alarde e sem constar na agenda, faz parte da estratégia do Planalto de preservação da segurança do presidente, ainda mais em momentos de crise e acirramento dos ânimos, com clara incitação à violência, pregada por militantes petistas, principalmente agora, após a decretação da prisão do ex-presidência Luiz Inácio Lula da Silva pelo juiz Sérgio Moro.

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O Planalto está mais preocupado com a segurança do presidente Michel Temer e também de sua família. Ontem, sem prévia divulgação da viagem, Temer seguiu para Foz diretamente de Salvador, para preservá-lo, mudando sua rotina de retornar normalmente para Brasília depois das viagens ou, no máximo, seguir direto para São Paulo, para dormir e depois embarcar para o próximo destino.

Desde a tarde de sexta-feira já havia aumentado a preocupação do Planalto com a possibilidade de enfrentamento entre grupos políticos, por conta deste acirramento dos ânimos após decretação da prisão de Lula e a pregação à violência pelos militantes petistas. A pichação ao prédio, em Belo Horizonte, onde a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmem Lúcia, tem um apartamento, foi considerada "grave" pelo governo.

Na noite desta sexta-feira, após tomar conhecimento da pichação de vermelho ao edifício, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Sérgio Etchegoyen, telefonou para a ministra Carmem Lúcia para prestar solidariedade a ela. Etchegoyen ofereceu ainda auxílio do governo federal até mesmo para apuração em relação ao que aconteceu. O governo considerou "lamentável" o ocorrido e colocou à disposição a estrutura para medidas de segurança, embora reconheça que o STF tem seu próprio sistema de proteção à presidente.

O Palácio do Planalto está preocupado com a elevação da temperatura política e possibilidade de aumento da violência em diversas cidades do País por militantes que defendem o ex-presidente Lula da Silva, depois de atos de vandalismo e incitamento ao enfrentamento pelas lideranças ligadas ao PT.

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A maior apreensão do presidente Michel Temer, que esteve na noite de sexta-feira em Salvador, em cerimônia na Federação Comercial da Bahia, é com a possibilidade de confronto entre grupos rivais nas ruas e isso levar a um descontrole, prejudicando a população e levando insegurança às cidades.

O governo está monitorando as manifestações em todo o País, seja por meio da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), seja pelas Forças Armadas, para ter o termômetro da situação e estar atento se houver sinalização de que as coisas possam estar prestes a fugir do controle. No momento, no entanto, apesar do temor e de saberem que basta um pequeno episódio para as coisas tomaram proporções trágicas.

A ministra Carmem Lúcia não estava no seu apartamento no momento do ataque por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, na tarde da sexta-feira. Carmem Lúcia costuma, pelo menos uma vez por mês, passar os fins de semana neste seu apartamento em Belo Horizonte. Segundo apurou o Estado, a ministra, que pediu "serenidade" em pronunciamento por conta do julgamento do habeas corpus contra a prisão de Lula, ficou "assustada" com a agressão, que atingiu também no prédio do Ministério Público, em frente à sua residência.

A ministra mostrou-se apreensiva também com os transtornos provocados pela violência e a pichação, em relação aos demais moradores do prédio. Ela também teme o aumento do acirramento dos ânimos em várias localidades do país, por conta dessas manifestações violentas. A avaliação é de que a pichação acabou sendo realizada por pessoas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que estavam participando de atos em apoio à ex-presidente Dilma Rousseff, que hoje transferiu seu titulo para a capital mineira, para se candidatar às eleições de outubro.

A maior preocupação do governo é com a pregação à violência, que pode funcionar como uma bola de neve, espalhando atos de vandalismo pelo País, com fechamento de estradas, por exemplo como já aconteceu nesta sexta-feira, impedindo o direito de ir e vir das pessoas e levando ao confrontos entre grupos rivais. Apesar do estado de ânimo acirrado, o Exército não entrou em prontidão em São Paulo, onde a situação está mais tensa, já que Lula não cumpriu a determinação da Justiça de se entregar e passou mais uma noite no Sindicato dos Metalúrgicos, tentando liderar uma comoção nacional.

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O comando das Forças Armadas entende que, não só em São Paulo, mas também em Curitiba, para onde Lula deve ser levado após ser preso, as Polícias Militares têm uma boa estrutura e atuam com firmeza e presteza na contenção de distúrbios e controle da ordem. Por isso mesmo, consideram muito pouco provável que haja necessidade de pedido de reforço a tropas federais para qualquer tipo de emprego nos dois locais. Os dois Estados são comandados por tucanos.

Conforme o Estado informou hoje, a possibilidade de um confronto entre os apoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os grupos opositores - ou com a polícia -, é considerada pelos militares "um evento perfeitamente controlável pelas organizações estaduais de segurança em São Paulo e no Paraná".

A incitação à violência, não só pelas redes sociais, mas também em entrevistas e discursos espalhados pelo país, foi muito criticada por interlocutores do presidente, principalmente pelo fato de que não se viu o Ministério Público tomar nenhuma atitude para tentar questionar quem estava tirando o sossego da população e cometendo o crime de incentivar o vandalismo.

A mesma crítica foi feita por militares. Eles se queixaram que foram alvos de todo tipo de agressão e declarações raivosas por conta do Twitter do comandante do Exército, general Villas Bôas, que, na visão deles, teria se limitado a defender o cumprimento da Constituição e repudiado a impunidade, embora tenha feito isso, na véspera do julgamento do habeas Corpus de Lula, sendo, por isso, acusado de estar pressionando o STF. Diversas mensagens de Whatsapp circularam entre militares mostrando, entre outros vídeos e notícias, o líder do MST, José Rainha, pregando a guerra civil. Para os oficiais, este tipo de atitude teria de levar os seus responsáveis a responder criminalmente por este ato. 

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