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FABIO MOTTA|ESTADÃO

Por mandato, Dilma se afasta do PT e diz que não governa para um só partido

Petista, que não foi à festa de aniversário da legenda, avalia ser impossível frear ameaças de impeachment e de cassação sem diálogo com a oposição e aceno ao mercado com nova proposta de reformar Previdência; partido é contra e busca se descolar do governo

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ALBERTO BOMBIG, RODRIGO CAVALHEIRO, VERA ROSA, RICARDO GALHARDO e LUCIANA NUNES LEAL,
O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2016 | 08h56

A presidente Dilma Rousseff iniciou um processo de afastamento do PT em busca de conter as investidas da oposição e de parte do PMDB pela retirada dela do Palácio do Planalto. Como já era esperado, a presidente não compareceu ontem à festa de 36 anos de seu partido, no Rio de Janeiro. De acordo com um integrante do governo ouvido pelo Estado, Dilma está convencida de que é impossível preservar o mandato sem se descolar da legenda, alvejada pela Lava Jato e contrária à reforma da Previdência – considerada prioritária pela presidente para atrair o apoio do empresariado e recuperar credibilidade no mercado.

Os últimos dias expuseram os caminhos distintos que Dilma e seu partido defendem para a superação das crises política e econômica. Ontem, em Santiago, Dilma justificou a ausência no aniversário do PT com a alegação de que não chegaria a tempo de participar do evento. Questionada sobre as críticas do partido ao ajuste fiscal conduzido por sua administração, ela disse que não governa só para a legenda, mas para toda a população. “Eu não governo só para o PT. Eu governo para os 204 milhões de brasileiros”, afirmou.

A ala majoritária do PT já está decidida a manter uma distância regulamentar da presidente e de suas diretrizes para a economia. Petistas históricos abrigados na Esplanada dos Ministérios se articulam com movimentos sociais para pressionar Dilma, inclusive com manifestações nas ruas, a esquecer a reforma da Previdência e a rever sua nova estratégia política, que prevê também uma aproximação com a oposição, especialmente a tucana.

Alguns conselheiros da presidente avaliam não ser interesse de todos os setores do PSDB retirá-la do cargo antes do término do mandato, em 2018. Para eles, os grupos do governador Geraldo Alckmin e do senador José Serra não endossam para valer a tese de cassação do mandato da petista pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que poderia resultar na convocação de novas eleições, caminho defendido pelo senador Aécio Neves.

No entanto, em conversas reservadas na semana passada, aliados de Serra e de Alckmin avaliaram que o maior problema de Dilma não é o PSDB e a ação no TSE, mas a ala do PMDB contrária ao governo, que nos últimos dias – após a prisão do ex-marqueteiro da presidente João Santana – voltou a se articular em torno do impeachment e passará a buscar apoios no setor empresarial.

Reforma. Na capital chilena, a presidente tentou reduzir a tensão com o partido, um dia após o PT divulgar um documento no qual sugere novos impostos e o uso de reservas para que o País saia da crise. Dilma, porém, voltou a mencionar uma reforma previdenciária como essencial para o equilíbrio fiscal. Segundo ela, a mudança na aposentadoria poderá ser feita progressivamente. “É fundamental que trabalhemos um pouco mais. Mas não agora, não amanhã, não depois de amanhã. Eu acho que é o que pessoas temem”, disse.

Ao falar sobre o distanciamento com o partido pelo qual foi eleita, Dilma disse não acreditar que as relações entre o governo e o PT devam se caracterizar pela adesão sem avaliação crítica. “Um partido é um partido, um governo é um governo”, afirmou a presidente. “É preciso ajuda de todos os partidos da minha base e do PT, sobretudo, porque é o partido ao qual eu pertenço e pelo qual eu fui eleita.”

Dilma chegou na manhã de sexta-feira a Santiago em uma visita oficial organizada às pressas pelo governo chileno a pedido do Brasil. A visita teve uma duração e uma agenda mais ampla que a usual. Ontem Dilma voltou a almoçar com a presidente chilena Michelle Bachelet, a exemplo do que fizera no dia anterior. Além do almoço na sede da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), ela deu uma palestra para economistas. Embora tenha lembrado o “problema de distância” e a falta de tempo para chegar à festa petista, Dilma não demonstrou pressa de deixar o Chile. Seu voo, que deveria decolar às 17h, atrasou.

A comemoração dos 36 anos do PT foi marcada por um desagravo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva até nas paredes de tijolo aparente do Armazém da Utopia, forradas de homenagens a ele. A presidente não foi poupada. “Dilma, chega de ajuste fiscal e superávit!”, dizia uma das faixas na plateia. A presidente enviou uma carta à direção do partido que foi lida durante o ato pelo presidente da legenda, Rui Falcão. Ela apontou a sigla, o governo e Lula como alvos de “ataques sistemáticos” e ressaltou a importância da relação com movimentos sociais. Apesar das divergências com o partido na área econômica, Dilma reafirmou na carta o compromisso com a “estratégia de desenvolvimento” adotada desde o governo Lula.

‘Casal’. Em seu discurso, o ex-presidente fez um apelo aos presentes: “Dilma sozinha não terá forças para resolver este problema e nós, por mais que tenhamos divergência com qualquer pessoa do governo, este governo é nosso e temos responsabilidade de fazer dar certo”. Para ele, um militante petista “não pode num momento de crise virar as costas” e dizer que o problema não é seu. “O problema é nosso, é meu, é seu e da Dilma.” “É igual um casal. Você pode brigar com a sua mulher, mas é a sua mulher. Ela pode brigar com você mas você é o marido dela. E vão ter que dormir junto, conversar, almoçar na mesma mesa.”

Lula, contudo, disse que antes de atender aos anseios do mercado, Dilma precisa governar para “o povo”. “A Dilma tem que ter certeza que, por mais que tenha divergência, o lado dela é este.”

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