Populismo, muros e sorvete

Há enormes vantagens em monopolizar o interesse do público, mesmo que seja para polemizar

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2017 | 05h00

O populismo nunca morre porque funciona à perfeição para projetar políticos na opinião pública. Sempre funcionou, mas foi bombado com esteroides anabolizantes pela internet e mídias sociais. Tanto nos EUA quanto no Brasil, quem sabe manipular as redes pessoais de comunicação domina a narrativa. Basta comparar o interesse despertado por eles e por seus rivais ou seus pares. Sejam os presidentes Donald Trump e Barack Obama, sejam os prefeitos João Doria, Fernando Haddad e Marcelo Crivella.

A eleição de Trump, em novembro passado, despertou duas vezes mais buscas no Google do que a de Obama, em novembro de 2008. Pode-se argumentar que o republicano era uma zebra e que é natural que mais pessoas procurassem saber sobre ele porque não esperavam que fosse eleito - e que isso superou o fato histórico de Obama ter sido o primeiro presidente negro dos EUA.

Para a comparação ficar imune ao fator surpresa, levemos em conta então as buscas feitas no Google também em outras ocasiões importantes, como a posse de ambos na Casa Branca. Numa escala em que 100 é o máximo de interesse, o pico de buscas foi alcançado na surpreendente eleição de Trump. Na mesma escala, a vitória de Obama bateu 54. E a curiosidade depois de empossados?

O início do primeiro mandato de Obama suscitou mais interesse nos internautas do que o do segundo: 35 e 22, respectivamente. Já a posse de Trump e as polêmicas que se seguiram alcançaram 62 na escala de interesse do Google Trends e seguem crescendo. Comparando-se o período logo após assumirem o poder, Trump provocou quase o dobro de pesquisas do que Obama. De novo.

Não se deve confundir interesse e curiosidade com apoio. As pesquisas de opinião e os enormes vazios deixados pelo público durante a posse de Trump - em comparação à de Obama ou à marcha das mulheres contra o republicano dias depois de sua posse - mostram que ele é o presidente dos EUA em começou e mandato menos popular desde que há estatísticas a respeito.

Mas há enormes vantagens em monopolizar o interesse do público, mesmo que seja para polemizar. Como foco único das atenções, o governante dita a agenda, comanda a pauta do que entra em discussão - e o que fica de fora. Ao chamar as luzes para si e seus atos, domina a narrativa e a conversação. Outros assuntos que poderiam ser mais importantes para a sociedade ou sobre os quais o populista não se interessa em abordar caem no vazio.

Fala-se muito mais sobre o futuro muro separando os EUA do México ou sobre a proibição à entrada de muçulmanos do que sobre os protestos contra Trump, sobre o presidente não tornar pública sua declaração de renda e de bens e sobre os conflitos de interesse entre seus negócios e o exercício da Presidência.

A regra vale lá como cá. Desde que virou prefeito de São Paulo, Doria monopolizou a conversação se fantasiando de gari, mandando apagar graffitis e aumentando os limites de velocidade nas avenidas marginais. Houve três vezes mais buscas por seu nome no Google no Brasil do que por Crivella, novo prefeito do Rio.

A desproporção se mantém quando se comparam as pesquisas por Doria e pelo nome do seu antecessor no cargo. Em quatro anos como prefeito paulistano, Haddad nunca chegou a um terço da exposição conseguida por Doria em apenas um mês. É porque a mídia é antipetista, dirão uns. Se fosse isso, Michel Temer despertaria mais interesse do que Lula. Não é o caso.

O presidente do PMDB ainda perde para o líder do PT, mas está aprendendo a chamar a atenção. A liberação das contas inativas do FGTS foi um exemplo positivo. Gerou quase tanto interesse quanto seus gastos com compra de sorvete para o avião oficial. 

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