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Poder faz mal à saúde

De repente, às vésperas do carnaval, altas personalidades da República ficaram doentes ou reclamaram de doenças incapacitantes e foram saindo de fininho tanto do governo quanto de um excesso de exposição nada recomendável numa hora em que o melhor é ficar transparente, perdido no meio da multidão. Durante as campanhas, “olhem para mim!”. Atualmente, “esqueçam de mim!”. 

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Eliane Cantanhêde

26 Fevereiro 2017 | 05h00

O senador José Serra, que operou a coluna em dezembro, renunciou ao Ministério das Relações Exteriores alegando fortes dores e a evidente incompatibilidade entre ser chanceler e não poder viajar, sobretudo em voos longos. O chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, está com problemas na próstata, foi internado dois dias antes e pediu licença no mesmo dia em que voltaram às manchetes as versões de que usava José Yunes, velho amigo do presidente Michel Temer, como “mula” para receber de um doleiro milhões de reais para o PMDB.

O próprio ministro da Secretaria de Governo, Moreira Franco, que responde há anos pelo apelido de “Gato Angorá”, deixou de ser gato e passou a rugir diante de perguntas de certa forma óbvias, num momento como este que o Brasil está vivendo. Apesar de manter o título de ministro e o foro privilegiado, ele está com enxaqueca?

Pelo menos, o ex-quase-futuro ministro Carlos Velloso foi sincero ao recusar a Justiça – depois de vários dias de holofotes – admitindo, não problemas médicos, mas problemas éticos na troca de seu escritório de advocacia por um gabinete na Esplanada dos Ministérios, já que passaria a ter informações privilegiadas de imenso valor para seus clientes privados.

Assim, o novo ministro será o deputado Osmar Serraglio, que foi elogiado com relator da CPI dos Correios e, aparentemente, tem uma saúde de ferro. Seus problemas são outros: a defesa surpreendente de Eduardo Cunha, que dispensa apresentações, e a votação que transformou as dez medidas anticorrupção do MP num monstrengo a favor da impunidade.

O poder anda fazendo muito mal à saúde dos governantes brasileiros e não apenas à deles. O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, Prêmio Nobel da Paz, o ex-presidente do Peru Alejandro Toledo e uns tantos outros atuais e ex-mandatários ao redor do Brasil também caíram no samba com a Odebrecht e estão agora no bloco dos sujos revelados pelos acordos de cooperação entre os Ministérios Públicos da região.

Temer se diz saudável, otimista e animado, apesar das dores de coluna, problemas de próstata e enxaquecas que assolam sua equipe com a frente fria da Lava Jato. Ele fez bem ao admitir pedido de “auxílio formal e oficial” à Odebrecht para o partido que presidia – em outras palavras, doação legal e pública. Mas falta diagnóstico para um sintoma estranho: as delações que embolam Padilha, Yunes, o doleiro Lúcio Funaro e pacotes de dinheiro para o PMDB seguem o mesmo script das perguntas cifradas de Cunha para Temer como sua testemunha de defesa. 

No carnaval para tudo, mas a Quarta Feira de Cinzas está logo aí e a Lava Jato volta para ameaçar a saúde dos poderosos. A qualquer hora, pode cair a máscara de frieza de Cunha e sabe-se lá o que vai aparecer entre confetes e serpentinas.

Mais pedaladas. Só a conta de R$ 62 bilhões que Dilma Rousseff deixou para os consumidores, como ressarcimento de empresas de energia prejudicadas pela canetada de 2012, já justificaria processo por crime de responsabilidade, sujeito a impeachment. Agravante: Dilma fez carreira justamente no setor elétrico.

Três em um. Temer tende a preencher o Itamaraty usando três critérios: manter a vaga do PSDB, corrigir a ausência de Minas no primeiro escalão e anunciar um nome respeitável, dentro e fora da política. Antonio Anastasia cai como uma luva.

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