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‘Podem continuar me virando do avesso’, diz Dilma

Na primeira entrevista do ano, ao falar de investigações, presidente afirma que sobre ela ‘não paira embaçamento algum’

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TÂNIA MONTEIRO, VERA ROSA, ISADORA PERON e CARLA ARAÚJO,
O Estado de S. Paulo

08 Janeiro 2016 | 03h00

BRASÍLIA - Na primeira entrevista deste ano, a presidente Dilma Rousseff procurou transmitir a mensagem de que está mais preocupada com os rumos da economia do que com o processo de impeachment. Em um café da manhã com jornalistas que fazem a cobertura do Palácio do Planalto nesta quinta-feira, 7, Dilma disse saber que sua vida foi “virada do avesso” durante a Operação Lava Jato, mas afirmou não ver problema nessas investigações.

“Tenho clareza de que devo ter sido virada do avesso e tenho clareza também de que podem continuar me virando do avesso. Sobre a minha conduta não paira nenhum embaçamento”, afirmou ela.

No momento em que denúncias atingem ministros do governo, como Jaques Wagner (Casa Civil) e Edinho Silva (Comunicação Social), a presidente criticou a “espetacularização” das acusações, mesmo sem provas. Ainda assim, afirmou que “não é possível ter dois pesos e duas medidas para ninguém”. Questionada se estava criticando o Ministério Público, reagiu: “Não, não.... Nem vem que não tem”.

Dilma prometeu “encarar” a reforma da Previdência, mas sem mexer em direitos adquiridos. “Não é possível que a idade média de aposentadoria no Brasil seja de 55 anos”, argumentou a presidente. “Vamos lutar com unhas e dentes para que 2016 seja melhor do que 2015”, disse Dilma na entrevista, que durou uma hora e meia.

PREVIDÊNCIA. “Temos que encarar a reforma da Previdência. Estamos envelhecendo mais e morrendo menos. A nossa expectativa de vida aumentou 4,6 anos. Não é possível que a idade média de aposentadoria no Brasil seja de 55 anos para homem e de mulher um pouco menos. Vai ter menos gente trabalhando no futuro para sustentar mais gente sem trabalhar. O Brasil tem que encarar a questão previdenciária. Todos os países aumentaram a idade mínima para acesso à aposentadoria. Este é um caminho e o outro é o 85/95 móvel, que resultará na mesma convergência. Mas não se pode achar que isso vai afetar os direitos adquiridos. Ninguém faz uma reforma dessas sem considerar um período de transição. Pretendemos debater tudo isso com o fórum quadripartite que foi criado com trabalhadores, governo, Congresso e empresários porque a base de uma reforma é o diálogo.”

MICHEL TEMER. “A relação com Temer está ótima. Ia encontrar com ele hoje (quinta-feira), mas não vou poder (porque estava indo a Porto Alegre ver o neto que nasceu).” Questionada se não achava que o vice trabalhou para ocupar o seu lugar na Presidência, a presidente respondeu: “Não acho”.

ERRO. “Acho que o maior erro do governo, estou falando de 2014, tem repercussão em 2015. Nós, assim como muitos, não percebemos a grande desaceleração que ocorreria em decorrência de efeitos externos e internos.”

IMPEACHMENT. “Qual é alegação existente para construção de uma crise política? Alegação do julgamento do TCU? Não é bem isso? É o quê? O quadro (em torno do seu pedido de afastamento) vai ficar cada vez mais claro. Tudo vai ser julgado, analisado.”

VIRAR DO AVESSO. “Tenho certeza de que poucos governos tiveram relação tão clara e explícita na garantia das investigações. Tenho clareza de que devo ter sido virada do avesso. E podem continuar me virando do avesso. Sobre minha conduta não paira embaçamento algum, nenhuma questão pouco clara. Como presidenta, reconheço a importância das operações que vão permitir em curto e médio prazos, termos uma relação mais correta entre agentes públicos e a coisa pública. A impunidade começou a ser ameaçada e doa a quem doer, as coisas são apuradas. Temos que manter o direito de defesa e acabar com a escandalização. Mas, tenho medo da espetacularização e dos vazamentos, porque os vazamentos não se dão em um quadro de apuração de responsabilidades. Quando eles se derem em um quadro de apuração de responsabilidade, é importante que seja difundido para a população. Agora, não é possível ter dois pesos e duas medidas para ninguém no Brasil. Apoio o trabalho do Ministério Público, da Polícia Federal e da Justiça.”

PETROBRÁS. “A Petrobrás não é a Lava Jato. Nós estamos recompondo todas as condições da Petrobrás. Não podemos acreditar que destruir empresas seja uma ação adequada para combater corrupção. Não é. Se combate punindo as pessoas. Elas usaram da sua condição para cometer crimes. Então você pune pessoas, mas não destrói empregos e empresas.” 

REFORMA ADMINISTRATIVA. “É crucial para reduzir os erros do governo. Vamos persegui-la. É algo que você tem de olhar todo santo dia. Vamos cortar cargos também. O fato é que você não tem a mesma liberdade que tem numa empresa privada. Tem de respeitar o funcionário público. Estamos pensando em construir uma coisa chamada Casas de Governo nos Estados. Em vez de ter dez entidades na ponta, um ministério em cada um dos Estados, tem uma Casa de Governo e não precisa ter um prédio. Eu elimino uma porção de imóveis.” 

PT. “Não houve essa discussão (PT pedindo que seu governo dê guinada à esquerda). Pra mim não falaram isso. Não acho que estamos num país que será sempre integrado por pessoas que pensam tudo igualzinho. Pelo contrário, acho que na complexidade da nossa democracia é preciso consenso para vencer a bom termo os desafios que temos. Eu acho muito bom que o PT tenha suas posições. Agora, o governo não responde só ao PT, só ao PMDB, ou só a qualquer um dos partidos da base. Responde a todos e também à sociedade. A participação dos partidos na democracia é essencial. Então, as propostas do PT o governo vai tratar com muita consideração, como fará com as demais, do PMDB e dos demais partidos da base.”

INFLAÇÃO E META. “Vamos fazer de tudo para perseguir também o superávit de 0,5%. Garantindo um superávit de 0,5% e o equilíbrio fiscal, teremos todas as condições para que a inflação se equilibre, volte para o centro da meta. O Banco Central está falando que olharemos isso em um horizonte até 2017, mas está falando isso a respeito do 4,5%. Estou falando que queremos nos aproximar da banda de cima da meta o mais rápido possível ainda este ano. Se tivermos certas condições prévias, com aprovação da CPMF, da DRU, você estabiliza a economia. Uma das melhores diferenças de 2016 é que acho que temos todas as condições para o processo de redução da inflação ocorrer.”

2016. “Todo o governo está empenhado em garantir que 2016 seja melhor do que 2015. Precisamos voltar a crescer. Se você estabilizar e começa a voltar a ter uma situação de maior estabilidade na questão do crescimento econômico, começa a ver uma luz no fim do túnel, cria um outro ambiente no Brasil. Vou lutar com unhas e dentes para manter a expectativa positiva da economia. Precisamos criar um outro ambiente no Brasil, com outras expectativas. O País não pode parar esperando como vai ser.”

CPMF. “Uma das formas de resolver o problema que está no País inteiro é aprovar a CPMF e destinar a metade dela para Estados e municípios. É visível que no caso dos Estados e municípios, eles também precisam destes recursos. Te asseguro que uma parte expressiva (da CPMF) resolve o problema da saúde. CPMF não é só reequilíbrio fiscal.

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