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Pode existir 'pedalada' e não haver motivação de impeachment, diz Cunha

Presidente da Câmara pediu 'muita cautela' na análise do novo pedido de afastamento de Dilma feito pela oposição que tem como base as manobras fiscais de 2015

Igor Gadelha e Daniel Carvalho, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2015 | 13h34

Atualizado às 13h51

BRASÍLIA - Um dia após a oposição apresentar novo pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff com base nas chamadas "pedaladas fiscais" - supostamente praticadas pelo governo em 2015 - o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pregou nesta quinta-feira, 22, "muita cautela" na análise do requerimento. Segundo ele, o fato de a pedalada ter sido praticada por alguma instituição ligada ao governo não necessariamente significa que a presidente da República tenha cometido crime de responsabilidade fiscal. 

"O fato de existir a pedalada necessariamente não quer dizer que tenha havido o ato da presidente da República com relação ao descumprimento da lei. São duas coisas distintas. A pedalada pode ser uma circunstância de equipe", afirmou Cunha em entrevista à imprensa nesta quinta-feira, no Salão Verde. "O fato por si só de que há pedalada não significa que isso seja razão do pedido de impeachment. Tem que configurar que há atuação da presidente no processo que descumpriu a lei", reforçou o peemedebista. 

O presidente da Câmara comentou que caso bancos públicos tenham praticado a pedalada, o crime deverá ser respondido pela instituição financeira. "Se os bancos públicos não pagaram, aquilo é um ato de responsabilidade do banco", citou. O peemedebista ponderou estar falando "em tese", pois ainda não analisou as justificativas apresentadas pela oposição no pedido. "Não dá você tirar essa conclusão precipitada, tem que ter muita cautela com relação a isso", afirmou Cunha. 

Ele repetiu que não determinou um prazo para anunciar sua decisão se vai deferir ou não o pedido de afastamento de Dilma apresentado ontem pela oposição - assinado pelos juristas Hélio Bicudo, fundador do PT, Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso, e Janaína Paschoal. "O que me comprometi foi ser célere e isento. Agora a celeridade depende da capacidade de formar juízo de convicção. O tempo é um tempo indefinido", afirmou. 

No processo específico das "pedaladas fiscais" no Tribunal de Contas da União (TCU) estão envolvidos os três presidentes dos bancos públicos durante o primeiro mandato de Dilma: Luciano Coutinho (BNDES), Jorge Hereda (então presidente da Caixa) e Aldemir Bendine (que comandava o BB e hoje preside a Petrobras). No julgamento, realizado em abril deste ano, o governo foi condenado por unanimidade pelas pedaladas, mas entrou com recurso. O recurso continua sob análise e somente depois que houver posicionamento da Corte de Contas é que o processo terminará. 

O Estado revelou, no início de outubro, que o Ministério Público de Contas, que atua junto ao TCU, entrará com pedidos de atribuição de responsabilidade às 17 autoridades do governo envolvidas no processo. Além dos três presidentes de bancos públicos estão o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e o ex-secretário do Tesouro Nacional Arno Augustin, além do atual ministro do Planejamento, Nelson Barbosa.

'Nada'. Cunha evitou comentar o relatório paralelo apresentado pelo PSDB no dia anterior durante a CPI da Petrobrás, no qual pede o seu indiciamento. De acordo com o peemedebista, o documento "não representa nada"." "Não tenho condições de opinar. Nem vi o relatório", afirmou, alegando que os debates do colegiado só acabaram na madrugada de hoje. 

Insatisfeitos com o parecer apresentado pelo relator da CPI, Luiz Sério (PT-RJ), representantes de PSOL, PSDB e PMDB apresentaram votos em separado, incluindo políticos na lista de sugestões de indiciamento e de instauração de inquéritos civil e criminal. Contrariando o relator petista, os tucanos incluíram a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e Cunha no rol de investigados por suposto envolvimento no esquema de corrupção da estatal.

Os pareceres paralelos sequer foram à votação e foram anexados ao trabalho apenas como manifestações contrárias à posição do relator. O presidente da comissão rejeitou uma questão de ordem propondo a votação dos relatórios paralelos, não dando outra opção de relatório aos membros da CPI. Com exceção do PSDB, PSOL e do DEM, as bancadas foram orientadas a votar à favor do relatório. 

O presidente da Câmara também não quis comentar a delação premiada de Fernando 'Baiano' Soares, na qual o delator descreveu aos investigadores da Operação Lava Jato como acertou com o peemedebista estratégias para pressionar o lobista Julio Camargo a pagar US$ 16 milhões em propinas atrasadas. Os desvios seriam relativos a contratos de construção de navios-sonda da Petrobrás. 

"Não sou comentarista de delação", afirmou Cunha ao ser questionado sobre as informações divulgadas na manhã de hoje pelo portal Estadão. De acordo com a delação de Baiano, houve reuniões na casa e no escritório do presidente da Câmara, no Rio, entre 2010, na época de campanha eleitoral, e 2011. Baiano é apontado como o operador do PMDB no esquema de propinas da Petrobrás.

Sigilo. O peemedebista disse que não tomou conhecimento da decisão do ministro e relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, de negar hoje um recurso da defesa de Cunha. A defesa pedia que o inquérito contra ele, a filha, Danielle, e a esposa Cláudia Cruz, tramitem na Corte em segredo de justiça. "Quem faz o pedido são meus advogados. Cabe a eles responder", afirmou. 

Cunha, a esposa e a filha são investigados por suspeita de terem contas secretas na Suíça abastecidas com dinheiro desviado da Petrobrás. O peemedebista é suspeito de ter patrimônio não declarado de cerca de R$ 61 milhões no exterior. COLABOROU JOÃO VILLAVERDE

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