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Pobres prefeitos pobres

A pergunta a seguir se refere a São Paulo, mas o exercício para respondê-la vale em grande parte das metrópoles brasileiras. Um prefeito com 55% de avaliação ruim ou péssima a 10 meses da eleição pode se reeleger? Só se não houver oponente. Isto é: se o eleitor vier a achar que os concorrentes são ainda piores. Toda eleição é uma comparação. Mas as últimas têm sido, quase sempre, a busca do mal menor. Votar para não perder.

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José Roberto de Toledo

21 Janeiro 2016 | 02h03

Uma década passou e milhões de votos foram digitados na urna desde a última vez que a maioria dos brasileiros votou por convicção e com entusiasmo em um candidato. Dilma Rousseff foi reeleita muito mais pelo medo de que Aécio Neves viesse a fazer o que ela está fazendo do que por esperança do eleitor. Há muito que o descrédito superou a confiança, e o ceticismo dominou o discurso político de quem não milita de lado nenhum.

É fácil culpar os políticos profissionais e a falta de lideranças carismáticas - como se ambos surgissem do nada. Cada vez mais a disputa eleitoral gira em torno da economia e da capacidade de consumo de um eleitorado pragmático - às vezes tão pragmático que esbarra no cinismo. "O que eu ganho com isso?" é a pergunta fundamental por trás da decisão do voto. "Eu" é a palavra mais importante da frase, logo à frente de "ganho".

Não cabe aqui julgar os méritos desse tipo de raciocínio, apenas constatá-lo. Afinal, foi assim que o eleitor foi treinado: vote em mim e tenha uma recompensa imediata: mais comida, mais eletrodomésticos, mais carros, mais viagens. Para quem foi privado durante a maior parte da sua vida do básico e das maravilhas propagandeadas na TV, não importa se essa recompensa tem um preço que o próprio eleitor vai pagar mais à frente.

Assim, o voto passou a ser encarado como um empréstimo que não é preciso honrar. Como se a ação política não tivesse custos nem consequência, como se o Estado fosse apenas uma grande provedor.

A fatura chegou, não há dinheiro para liquidá-la nem crédito para rolá-la. O carro fica estacionado porque a gasolina está cara, o ar-condicionado fica desligado porque é melhor passar calor do que levar um choque na hora de pagar a luz, e aquele apartamento meio pago tem que ser devolvido porque os juros cresceram mais que o salário - se é que ainda existe salário.

Não é à toa que o eleitor está cético. Ele vai ter que pagar a conta, mas não está disposto a levar a culpa. Quem vai levar?

Os prefeitos são fortes candidatos porque são os primeiros que serão avaliados nas urnas. Não importa se estão tentando acomodar nas ruas engarrafadas de suas cidades a multidão de carros produzida pelo crédito fácil e por uma indústria subsidiada pelo governo federal. Junto com o carro vendeu-se ao eleitor um status diferenciado. Como convencê-lo a abrir mão de ser condutor para voltar a ser passageiro? A preferir o metrô e o trem que os governos estaduais demoram tanto para melhorar?

Pobres prefeitos pobres - porque a queda da atividade econômica, de quebra, estrangula a arrecadação das prefeituras. É a festa da oposição? Depende da oposição, mais do que dos prefeitos.

Tome-se São Paulo como exemplo. Fernando Haddad (PT) tem pouco mais de 10% das intenções de voto e 13% de ótimo e bom. Parece inelegível. Porém, a eleição não se decidirá em um turno só. Desde 1992 que o segundo turno sempre é necessário nas eleições paulistanas. Celso Russomanno (PRB) está disparado. Se não dissolver como em 2012, é favorito para ir ao segundo turno.

Logo, Haddad não precisa correr mais do que o leão (Russomanno), basta ficar à frente dos outros turistas: Marta Suplicy (PMDB) e o desconhecido candidato do PSDB, seja ele quem for. Se chegar ao turno final, aí a escolha volta a ser pelo mal menor. Logo, Haddad pode até ganhar. Resta saber se ele quer.

 

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